A Caatinga de Antônio Conselheiro resiste

Na Canudos atual, que remete à memória do mítico líder, o sertanejo continua lutando pela sobrevivência com criatividade e por meio do uso coletivo da terra

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Na Canudos atual, que remete à memória do mítico líder, o sertanejo continua lutando pela sobrevivência com criatividade e por meio do uso coletivo da terra

Por José Paulo Borges

Canabrava, Poço de Cima, Cocorobó, Calumbi, Cambaio, Caipã. Esses morros imponentes, quase contínuos, encantaram o correspondente do jornal O Estado de S.Paulo, Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha. Sob o impacto deste cenário da Guerra de Canudos (1896-1897), na reportagem publicada dia 1° de outubro de 1897 Euclides da Cunha escreveu: “Não há manhãs que se comparem às de Canudos; nem as manhãs sul-mineiras nem as manhãs douradas do planalto central de São Paulo se equiparam às que aqui se expandem num firmamento puríssimo, com irradiações fantásticas de apoteose”.

Mas logo o texto muda de tom. “Às 10 horas e 52 minutos novos estampidos abalaram os ares e novamente estremeceu a terra em torno de um punhado de valentes transviados; novas bombas de dinamite derramaram a devastação e a morte na zona convulsionada em que lutavam os últimos jagunços .” Para Antônio Vicente Mendes Maciel, beato e peregrino errante que nasceu em 1830, em Quixeramobim, no Ceará – também conhecido por Irmão Antônio, Santo Antônio Aparecido, Antônio dos Mares, Santo Conselheiro, Bom Jesus Conselheiro, Senhor do Bonfim ou simplesmente Antônio Conselheiro – a guerra, que começou em novembro de 1896, estava perdida (ver boxe abaixo).

Mais de um século depois, no município de Canudos, estado da Bahia, a cerca de 400 quilômetros de Salvador, o agricultor José Adelson Matos Alves indica o pé de favela, no meio da Caatinga. A árvore dá a impressão de que agoniza sob a seca, a pior das últimas 40 décadas em todo o Semiárido. Na verdade, de acordo com Adelson, a favela, árvore nativa do Sertão, está hibernando, aguardando a primeira chuva para voltar a florescer, mesmo que as águas demorem a cair como acontece neste ano. “No final do período das chuvas, as folhas da favela perdem os espinhos e caem, servindo de alimento para os animais da Caatinga. Nas secas, como agora, as cabras e os bodes, criados soltos, comem os brotos e a casca da árvore, e conseguem sobreviver”, explica o agricultor. “Tudo pode acontecer, mas é preciso saber conviver com o Semiárido. A Caatinga é conselheirista, nunca se entrega”, resume José Adelson reportando-se ao homem que tentou semear a utopia em Canudos.

Na Canudos de hoje, o sertanejo ainda luta pela sobrevivência como acontecia há mais de um séculos, mas também assimilou a importância da criatividade e da união. José Adelson chama a atenção para o gesto do pequeno agricultor Raimundo Dantas dos Santos. Sem nenhum esforço e sem utilizar energia elétrica – que ainda não chegou na região – Raimundo aciona a roda de uma bomba e, num instante, brota do fundo da terra, em pleno Polígono das Secas, água boa, limpa, cristalina. Atraídos pelo barulho da bomba, bodes e cabras que se escondiam na Caatinga aparecem de repente, e logo matam a sede. José Adelson conta que a perfuração do poço foi feita por uma empresa do governo que, no entanto, não levou a obra adiante alegando que a vazão, inferior a mil litros por hora, era insuficiente para a instalação de uma bomba. Orientado por técnicos de uma Ong de Juazeiro (BA), Raimundo completou o trabalho. E a água jorrou.

José Adelson é um líder comunitário com atuação nos chamados ‘fundos de pasto’, sistema tipicamente nordestino de ocupação e utilização das terras do Semiárido que, para o agricultor, é um dos mais significativos exemplos de “resistência conselheirista”. Desenvolvido durante séculos, o fundo de pasto se caracteriza pela posse e uso coletivo da terra. Os habitantes de uma comunidade dessas geralmente compartilham laços de sangue ou são ligados por compadrio. No fundo de pasto, não existe cerca e todos zelam pelo rebanho e pelas aguadas. Cada família tem seu próprio rebanho, principalmente de bodes e cabras. Criados soltos nas terras comunitárias, Caatinga adentro – daí a origem do termo “fundo de pasto” – os animais são identificados pelos donos por cortes feitos na orelha. Cabras e bodes podem buscar comida e água onde puderem encontrar. Essa mobilidade garante a sua sobrevivência, especialmente nos períodos de seca brava.

“É por isso que se diz que no fundo de pasto o bode é rei”, brinca José Adelson, acrescentando que, além do direito de usar a área comunitária, cada família mantém perto de casa uma propriedade individual, cercada, onde é cultivada uma agricultura de subsistência e são criados galinhas e porcos, por exemplo. “As cercas impedem a invasão das áreas individuais pelos animais criados soltos. Isso evita possíveis conflitos entre os moradores”, conta José Adelson.

O agricultor Lúcio Conceição Santos, outro líder comunitário de Canudos, vai um pouco além. “No fundo de pasto tudo adquire significado. Todos têm importância, porque todos se conhecem e as relações de parentesco e vizinhança são importantes. O fundo de pasto é uma forma de preservar a nossa identidade cultural, é um jeito de resistir, de garantir nossos direitos, nossas tradições e nossa sobrevivência na Caatinga”. De acordo com ele, existem centenas de associações de fundos de pasto na Bahia. Os estatutos dessas associações proíbem, por exemplo, a retirada indiscriminada da madeira da Caatinga, principalmente de espécies em risco de extinção, como a baraúna, o pau d’arco, o angico, a umburana e o jatobá, entre outros.

Desde os anos 1960, a sobrevivência do sistema de fundo de pasto passou a ser ameaçada. Sem documentos que comprovassem a posse da terra, os pequenos agricultores passaram a ser assediados por grileiros e estranhos que se apresentavam como proprietários das áreas comunitárias. “A grilagem e a multiplicação das cercas diminuíram bastante as terras disponíveis para os nossos rebanhos. Outra ameaça é o agronegócio, que quer tomar as nossas áreas”, assinala Lúcio Conceição. “Precisamos nos unir nas associações para não perdermos aquilo que é a nossa própria sobrevivência”.

Uma dívida antiga

Lúcio Conceição também atua como coordenador do Fórum de Desenvolvimento Local e Sustentável de Canudos, ou, simplesmente, Projeto Canudos. Criado em 2009 na Universidade do Estado da Bahia (Uneb), o projeto, segundo Lúcio, “surgiu da constatação de que a dívida social do Estado brasileiro com Canudos ainda não foi resgatada e continua a mesma como era na época de Antônio Conselheiro”.

A Associação das Artesãs do Vaza-Barris, Associação dos Apicultores de Canudos e Cooperativa dos Irrigantes do Vaza-Barris são algumas das mais de 40 entidades que participam do Projeto Canudos. “O projeto conta com uma agenda onde estão identificados os principais problemas, oportunidades e potencialidades de Canudos e região, e onde estão apontados os caminhos para alcançar o desenvolvimento sustentável e o resgate da dívida social”, explica Lúcio Conceição.

Conforme o coordenador, os objetivos do projeto são essencialmente práticos. “A partir da identificação das oportunidades para o desenvolvimento sustentável de Canudos, são elaborados projetos com reais possibilidades de serem executados, como o melhoramento genético do rebanho de caprinos e ovinos de Canudos e a melhoria do sistema de abastecimento de água do município, por exemplo”.

Outra atividade desenvolvida pelo Projeto Canudos está sendo implementada no Perímetro Irrigado do Vaza-Barris, uma área de dois mil hectares com lotes de um projeto de irrigação desenvolvido pelo Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS), entregues a agricultores locais. “Estão sendo feitos experimentos sob manejo orgânico irrigado, com o objetivo de melhorar o desempenho e a produtividade de cinco variedades de bananas, frutas de grande importância econômica para a região”, explica Lúcio. Os experimentos foram desenvolvidos por técnicos da unidade da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) de Cruz das Almas, na Bahia.

Mas é a seca a grande preocupação em Canudos atualmente. “Não estamos de braços cruzados. Recentemente, foi realizada uma reunião do Projeto Canudos para propor estratégias para amenizar os efeitos da seca”, destaca Lúcio. Segundo ele, entre as ações de médio prazo foram sugeridas a construção de barragens de grande porte e de uma adutora no açude Cocorobó. “A gente não pode aceitar que comunidades localizadas perto do Cocorobó, com capacidade para 245 milhões de metros cúbicos de água, sejam abastecidas por carros-pipa”.

O que resta da história

“Canudos vive nas ruas, nas favelas brasileiras, nos acampados sem-terra, nos ambulantes, nas filas, nesses morros rebelados, nessas mulheres guerreiras”. A música vem das gaitas de Bibito e Gobira, da zabumba de Gilson e da caixa de Guinho, integrantes da Banda de Pífanos de Bendegó. Os quatro pertencem a uma mesma família natural da comunidade da Canudos Velho, localizada perto do lugar onde Conselheiro ergueu o povoado de Belo Monte. Eles creditam ao avô Miguel, que morreu aos 108 anos, o gosto familiar de tocar gaita.

Com instrumentos fabricados artesanalmente pelo Mestre Gobira, eles tocam ritmos comuns na região: lundu, batuque, retirada e marcha, pontuadas por letras em homenagem ao beato sertanejo. Referência musical no interior baiano, a banda tem CDs gravados, já recebeu diversos prêmios nacionais e se apresentou em comunidades do Sertão e em alguns estados, pelo Brasil afora. Os músicos da banda acham graça por terem virado tema de trabalho da Faculdade de Música da Universidade de São Paulo (USP), mas ficam inquietos se os shows atrapalham as pescarias no açude Cocorobó.

Ainda que sua influência seja óbvia, Antônio Conselheiro não é unanimidade em Canudos. Nas encenações de episódios da guerra que acontecem durante as romarias anuais de outubro, quando a memória do beato é reverenciada por seguidores, os uniformes dos soldados são mais disputados pelos jovens da cidade do que as roupas simples dos personagens que representam os conselheiristas. “A sociedade canudense ainda não atentou para a importância do resgate da memória de seus jagunços heróis. Além disso, muita gente acusa Conselheiro de ter trazido a guerra. Puro engano e falta de informação”, argumenta o historiador e pesquisador José Dionísio Nóbrega. “Quanto mais pesquiso sobre o conflito, mais me convenço de que a guerra não foi deflagrada contra os escassos trezentos e poucos canudenses que viviam no local antes da chegada de Antônio Conselheiro, mas contra os milhares de conselheiristas vindos de fora, que buscaram refúgio na Canudos do beato. Não há saudosismo nos habitantes atuais, nem drama de consciência por viverem no palco de uma guerra.”

Ainda que o saudosismo possa não existir, como aponta Nóbrega, não deixa de ser interessante notar que, em novembro de 2011, alunos da oitava série da Escola Municipal Arnaldo Ferreira, de Canudos, animados pela professora Daniela Cardoso Reis, realizaram na Câmara Municipal um “julgamento” do antigo líder local. “Eles levaram tão a sério a atividade que até se caracterizam nos personagens que foram a júri”, conta a professora. “Resultado, Antônio Conselheiro foi inocentado de qualquer crime que tenha sido atribuído a ele no episódio da Guerra de Canudos.” De alguma forma, a história permanece viva, sob outro olhar.

 

A história de um massacre

O motivo que detonou o conflito – um dos mais sangrentos da História do Brasil – em Canudos, foi irrelevante. Conselheiro havia encomendado em Juazeiro uma remessa de madeira para a construção da igreja nova do arraial de Belo Monte – povoado que anos antes ele e seguidores haviam erguido no vilarejo de Santo Antônio dos Canudos, já existente no local, à beira do rio Vaza-Barris. Como a madeira, apesar de paga, não fora entregue, logo se espalhou a notícia de que Juazeiro seria invadida pelos fanáticos conselheiristas, insuflados pelo beato, dispostos a cobrar a encomenda a qualquer custo. Apavoradas com o boato, autoridades de Juazeiro pedem socorro ao governo estadual baiano, que manda de Salvador um destacamento policial com cento e poucos praças.

Após vários dias de espera em Juazeiro e como não houvesse sinais de invasão, a tropa foi ordenada a partir em direção a Canudos. No vilarejo de Uauá, perto de Canudos, ao invés de jagunços armados até os dentes os militares deparam-se é com um grupo de conselheiristas que entoava cânticos e ladainhas, tendo à frente a bandeira do divino e uma grande cruz de madeira. Após violento corpo-a-corpo são contados mais de cento e cinquenta cadáveres de conselheiristas. Do outro lado, morreram oito militares e dois guias. Mesmo assim, a soldadesca bateu em retirada.

Essa investida militar entrou para a História como a primeira expedição contra o arraial de Belo Monte. Após várias batalhas sangrentas, na quarta expedição finalmente o Exército conseguiu fechar o cerco sobre Conselheiro e seu povo. No dia 6 de outubro de 1897 o arraial foi arrasado e incendiado. O beato morreu em setembro, mas seu corpo foi encontrado apenas em outubro. Sobre o cadáver, coberto por um lençol branco, havia algumas flores. Estima-se que o conflito fez por volta de 25 mil mortos, a maioria sertanejos unidos na crença, animada por Conselheiro, de uma salvação redentora que os redimiria dos flagelos do clima e da exclusão.

Mulheres de Canudos – Durante a guerra quase não se rezava em Belo Monte. As mulheres que nos terços da boca da noite e nos ofícios da madrugada dos tempos de paz cantavam ladainhas e benditos e desfiavam ave-marias e pais-nossos, puxados por Conselheiro, agora estavam ocupadas recolhendo mortos, socorrendo moribundos, acudindo feridos e se esgueirando furtivamente até os poços para trazer um pouco d’água para casa. Outras socavam pólvora misturada com chumbo, ferro, pedra e até ponta de chifre de boi na boca de velhos bacamartes, que eram repassados, prontos para o tiro, aos maridos, filhos e irmãos.

“Belo Monte não teria existido sem as mulheres, que compunham talvez dois terços da população. Elas, sempre em maior número, foram para Canudos movidas exclusivamente pela fé no Conselheiro. Elas é que davam força com suas presenças às pregações do ‘santo’ cearense”, afirma o historiador e pesquisador José Dionísio Nóbrega, autor do livro Euclides da Cunha e o Sertão de Canudos, minucioso estudo sobre o povoamento da região, localizada no extremo norte do Estado da Bahia.

José Dionísio surpreende ao rebater a afirmação corrente nos livros escolares de que, no auge, Belo Monte teria abrigado 25 mil pessoas em 5,2 mil casas, configurando assim o segundo núcleo mais populoso da Bahia. Para o pesquisador, antes da chegada de Conselheiro, em 1893, viviam no local umas 300 pessoas, quando muito. “O arraial fundado por Conselheiro nunca foi além de cinco mil pessoas. É risível presumir-se que Canudos dispunha de espaço para 5,2 mil casas”, contesta.

Para o historiador, a população de Belo Monte foi inflacionada como justificativa à sociedade republicana da época ao pedido de 10 mil soldados para enfrentar, depois do fracasso das primeiras expedições, um grupo de combatentes sertanejos muitas vezes menor e parcamente armado. O custo deste esforço de guerra seria altíssimo, “mas valeria a pena se fosse para salvar pelo menos as mulheres e crianças que lá viviam”, pondera José Dionísio. “Mas o que se viu nos últimos dias em Canudos, a partir de 25 de setembro de 1897, data do cerco total, foi uma estratégia de destruição total”. Uma vingança por não ter sido obtida a submissão dos conselheiristas.

 

Três Canudos

Canudos atual é, na verdade, o terceiro município baiano com esse nome. A primeira, rebatizada pelos seus habitantes como Belo Monte, foi destruída pela guerra e a segunda, erguida sobre as ruínas da anterior, foi submersa por um açude na década de 1950. Um novo vilarejo se formou aos pés da barragem, em uma fazenda chamada Cocorobó, distante cerca de 20 quilômetros da segunda Canudos, e se tornou município em 1985, dando origem à terceira Canudos.

 



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