A parte do latifúndio que cabe a Sérgio Ricardo

Celebrizado por quebrar um violão em um festival da Record, o músico, que transitou pela Bossa Nova e pelo Cinema Novo, fala sobre seu rico legado. E entra na polêmica sobre direitos autorais no Brasil: “O pior é que o governo defende o Ecad”

617 0

Celebrizado por quebrar um violão em um festival da Record, o músico, que transitou pela Bossa Nova e pelo Cinema Novo, fala sobre seu rico legado. E entra na polêmica sobre direitos autorais no Brasil: “O pior é que o governo defende o Ecad”

Por Pedro Alexandre Sanches

O homem de 80 anos fuma na calçada, sentado na mureta em frente a um alambrado. Atrás, está o terreno baldio onde foi demolido mais um grupo de casas tradicionais do bairro paulistano de Pinheiros, para dar lugar ao processo inexorável de especulação imobiliária na megalópole do corretor de imóveis, engenheiro civil e prefeito pessedista Gilberto Kassab.

O velho homem expõe a situação dramática em que nos encontramos. “É aquela epopeia do problema latifundiário, a luta dos camponeses contra a determinação de um dono de terra que está vendendo a terra para um dragão que veio de fora e que quer derrubar as matas, quer as terras vazias de gente.” Paulista, interiorano de Marília, descendente de libaneses, o homem mora há décadas no Rio de Janeiro, com vista para o mar e para o morro, às franjas da favela do Vidigal, onde já atuou como líder comunitário em movimentos contra a remoção de barracos pelo poder “público” imobiliário. A cada feriado prolongado, uma favela pega fogo em São Paulo.

Sérgio Ricardo, o homem que quebrou o violão no festival de MPB de 1967 do latifúndio TV Record, dá entrevista na calçada para poder fumar um cigarro atrás do outro. Não está falando de Pinheiros nem do Pinheirinho. Nem está narrando o papel que os santos papas do agronegócio internacional desempenharam no golpe de Estado movido em junho de 2012 pela elite reacionária do Paraguai (do Brasil, dos Estados Unidos). Ainda não existiam sementes transgênicas na ficção que Sérgio desenhou em 1974 e está descrevendo aqui, agora, encostado ao alambrado kassabista.

“Eu vivo na fantasia”, diz o autor de “Zelão”, samba sobre o desabamento de um barraco num morro carioca, que ele, músico, além de ficcionista, gravou pela primeira vez em 1960, enquanto nove entre dez de seus colegas de Bossa Nova preferiam olhar para o mar a ter que olhar para a favela. “No fogo de um barracão só se cozinha ilusão/restos que a feira deixou”, cantava Sérgio aos 28 anos, quando não haviam sido erguidas tantas favelas passíveis de incêndio na maior cidade da América do Sul. Em 1973, Elza Soares, negra nascida na favela carioca de Moça Bonita, em Padre Miguel, transformaria em seus os versos de “Zelão”, fogo e água: “Choveu, choveu/a chuva jogou seu barraco no chão”.

A história “fictícia” que Sérgio resume em frente aos escombros nada fictícios de Pinheiros é a de A noite do espantalho, um filme-alegoria sobre reforma agrária que ele concebeu e dirigiu no muque há 38 anos. Não era então um marinheiro de primeira viagem no cinema. Longe disso. Além de cantor e compositor, também dirigia filmes e fazia trilhas sonoras de cinema desde 1961. Na virada de 1963 para 1964, sob o bafejo do golpe cívico-militar brasileiro que se aproximava, fizera a trilha sonora de outro filme centrado em questões fundiárias: Deus e o Diabo na Terra do Sol, pedra-de-toque do cinema novo de Glauber Rocha: “– Se entrega, Corisco!/ – Eu não me entrego, não!”.

No mesmo 1964, seu filme Esse mundo é meu, ancorado no mesmo universo temático, teve a canção homônima difundida pelas vozes rivais de Nara Leão e Elis Regina. “Fui escravo no reino e sou/escravo no mundo em que estou/mas acorrentado ninguém pode amar”. Era a fase de instalação da nascente MPB universitária sob o formato de canção de protesto, uma transposição local das work songs do folk norte-americano de Pete Seeger, Joan Baez, Bob Dylan etc. Ditadura em pleno curso à parte, ainda era possível cantar a reforma agrária e as dores dos campesinos. Em 1966, o muito jovem Chico Buarque, por exemplo, ganhou notoriedade inicialmente musicando a parte que nos cabe deste latifúndio, esgarçada nos versos de João Cabral de Melo Neto, para a versão teatral do livro-poema Morte e Vida Severina (1955).

A relativa liberdade de expressão agrária perdurou até 1968, quando o Ato Institucional Nº 5 desabou sobre o latifúndio-Brasil. Dali por diante, Sérgio seria dos poucos, se não o único, a continuar tentando mexer – com ferramentas artísticas – no vespeiro da tradição familiar, da família proprietária, da propriedade tradicional. A mídia, detentora de terrenos baldios escritos, radiodifundidos e televisados, seguiu aperfeiçoando um discurso público pró-liberdade de expressão – desde que a liberdade privada não se referisse a gente sem-terra, sem-teto, sem-mídia, sem-casa-grande, sem-fazenda, sem-sexo, sem-gênero, sem-representação política.

A noite do espantalho era ficção, mas não escondia um fio de navalha de semelhança com o que ocorrera no Brasil em 1964, no teatro de deposição de João Goulart, farsescamente celebrado como vitória da democracia pela imprensa latifundiária. Mais próximo no tempo, embora mais distante no espaço, pulsava ali do lado o horror chileno de 1973, quando da deposição e assassinato do presidente eleito Salvador Allende.

“Depois de pronto, A noite do espantalho teve dez exibições para a Censura, e em todas o veredito era para cortar o filme todo, proibir”, lembra o artista. “A minha sorte foi que o filme foi convidado oficialmente para o Festival de Cannes. Aí coloquei o problema: ‘Vocês podem censurar, mas vai ser um escândalo internacional’. Resolveram soltar o filme. Mas, como isso correu à boca pequena, os exibidores ficaram com medo de programar o filme no Brasil.”

Por motivos que qualquer parlamentar golpista paraguaio entenderia em cinco segundos, não apenas esse, mas todos os quatro longa-metragens dirigidos por Sérgio, fizeram algum barulho na estreia, mas despontaram para o anonimato logo em seguida. Até hoje, não tiveram lançamento comercial em DVD e seguem desconhecidos da maioria absoluta de nós que aqui estamos. A indústria cultural não gosta de falar em incêndio na favela nem de enchente na favela, nem gosta da dramaturgia de Sérgio Ricardo.

A censura pelo silêncio, por vezes, é tão eficaz quanto proibições judiciais de produtos artístico-comerciais, queima de obras de arte em fogueira ou execuções sumárias de artistas. Em 1973, aqui do lado, o compositor popular Victor Jara, um Sérgio Ricardo chileno, teve as mãos esmagadas a coronhadas antes de ser assassinado pelos soldados do general golpista Augusto Pinochet. Sua música folk latina, ao contrário dele e a despeito dos desejos de ditaduras midiático-militaristas, até hoje não morreu. Aqui, Sérgio segue criando aos 80, em relativo silêncio. Não reivindica a parte que lhe cabe deste latifúndio, mas está tão vivo quanto seu brasileiríssimo samba-bossa-folk-repente. Os sem-música há muito montaram acampamento no latifúndio-internet, e sua obra musical circula livremente pela infovia dos downloads, torrents e streamings.

A noite do espantalho, filme musicado que ajudou a lançar como cantores os novos nordestinos Alceu Valença (intérprete do espantalho-narrador) e Geraldo Azevedo, era valente não só na temática, mas também no formato, que incorporava experiências glauberianas e tropicalistas. “É uma adaptação da linguagem do cordel, e esteticamente não tem nada a ver com o cinema normal. É a reprodução daquela coisa mágica do cordel, fala de sertão e de Moisés e Cleópatra, tudo ao mesmo tempo. Foi filmado naqueles palcos de arquitetura romana de Nova Jerusalém, uma história de caboclos brasileiros metidos em Roma, uma coisa meio maluca. Os cangaceiros usam roupas romanas, andam de motocicletas com asas de borboleta”, diverte-se em recordar.

Ivan Fortes, produtor que trabalha com ele e o acompanha nos shows que veio fazer em São Paulo, promete um lançamento comercial da filmografia de Sérgio. Fora das terras sem dono dos downloads, o que temos por ora é pouco, mas é muito. O selo independente carioca Discobertas, do pesquisador, jornalista e escritor Marcelo Fróes, acaba de relançar quatro discos da fase 1970-1985 do cantor. Um deles é a trilha sonora de A noite do espantalho, com repentes agrários ásperos cantados por Sérgio, Alceu e Geraldo.

O pacote refere-se à fase musical pós-quebra do violão em reação descontrolada do artista às vaias ao samba “Beto bom de bola”. Ele próprio classifica esse período como de reclusão, de clandestinidade em relação à mídia, talvez de exílio dentro de casa. A saga se inicia pelo provocativo Arrebentação (1971), que inclui “Analfaville”. “Esse disco saiu pela gravadora Equipe, que faliu logo em seguida. Foi colocado em saldo, a preço de banana, fiquei irritadíssimo com isso. ‘Analfaville’ é uma música sobre tortura, né?”, explica e indaga.

“Ouço ao lado agonizantes ais/fios, fogo, ferro, frio, o caos/vem falar o ódio em sombra/ verme em gente/ um gérmen da violência” – não havia sementes transgênicas em 1971, mas, sim, “Analfaville” parece canção pioneira a falar sobre tortura no Brasil. Enquanto Sérgio cantava para pouquíssimos ouvirem, a jovem mineira Dilma Rousseff, encarcerada pela ditadura brasileira entre 1970 e 1972, conhecia na carne os métodos das sessões sistemáticas de “Analfaville”.

A reedição seguinte é do célebre disco sem título, de capa ilustrada por uma foto do cantor no festival da vaia-violão-violência, mas com uma tarja branca a lhe tapar a boca. Lançado no mesmo 1973 da censuradíssima peça Calabar, do discípulo declarado Chico Buarque, o álbum começa com “Calabouço”, em referência ao assassinato do estudante paraense Edson Luís de Lima Souto (1950-1968) pela ditadura, no restaurante estudantil de mesmo nome: “Cala a boca, moço!, cala a boca, moço!”.

O último título reeditado é a primeira versão gravada em disco de Estória de João-Joana, poema de Carlos Drummond de Andrade que Sérgio adaptou para encenação em balé em 1985. Ele descreve mais esse drama. “Drummond se baseou numa história verídica que apareceu em reportagens da revista O Cruzeiro nos anos 1950. Descobriram uma camponesa que passou a vida como camponês, travestida, por determinação da mãe, que achava que, se ser homem no sertão já era ser escravo, uma mulher ali era a escrava de um escravo. Para não deixar a filha virar escrava de um escravo, resolveu fazê-la homem, e ela virou líder de uma comunidade, até engravidar. A partir daí desmascarou-se a farsa.” Agrária, urbana ou sexual, a liberdade e a perda dela sempre foram os temas nucleares deste artista.

“O Ecad está uma coisa séria”

Amigo de João Gilberto e mestre de Chico Buarque, Sérgio se viu envolvido no ano passado em notícias sobre outro dos latifúndios simbólicos em que vivemos afogados, o do Ecad (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição). O jornal O Globo desfiou denúncias contra um suposto compositor chamado Milton Coitinho dos Santos, filiado à UBC (União Brasileira dos Compositores), principal concorrente da Abramus (Associação Brasileira de Música e Artes), à qual Sérgio é atualmente filiado para (supostamente) receber o que o Ecad lhe deve.

Conforme a denúncia levantada, mas logo abandonada pela mídia “grande”, Coitinho recebia direitos autorais desviados de diversos outros compositores, num montante (segundo O Globo) de quase R$ 130 mil. Entre os autores lesados estavam Sérgio Ricardo e Glauber Rocha. O misterioso Coitinho recebia dinheiro arrecadado pela execução pública das músicas de Deus e o Diabo na Terra do Sol. “O Ecad está uma coisa séria. Já foi desmascarado pela CPI e denunciado em vários níveis. O pior é que o governo defende o Ecad”, protesta o verdadeiro autor, referindo-se, inicialmente sem dar nomes aos bois sagrados, ao comprometimento do atual Ministério da Cultura (MinC), de Ana de Hollanda (irmã do caro amigo Chico), com os interesses do escritório concentrador de “terras” musicais.

Não se ouvirá este estalido em canto nenhum da chamada “grande” mídia, mas fato é que parcela por nós desconhecida dos milhões de reais arrecadados anualmente pelo escritório arrecadador e distribuidor é drenada para fora do país, via gravadoras e editoras internacionais associadas principalmente à Abramus e à UBC. Em última instância, essas multinacionais detêm parte substancial da propriedade sobre as vozes de Carmen Miranda, Antonio Carlos Jobim, Clementina de Jesus, Chico Buarque, Chitãozinho & Xororó e todo mundo que gravou sob as etiquetas Sony, RCA, EMI, Philips, Universal, Warner etc. O cantor quase silencioso sabe disso. “As pessoas daqui também têm contas lá fora, né? Uma atitude mais radical precisa ser tomada em cima dessa história. Exatamente por manobrarem tanta grana, eles compram esta ou aquela pessoa – o problema da corrupção.”

Sérgio faz que sim com a cabeça quando pergunto se compositores donos de vultosas arrecadações fazem discurso crítico ao Ecad para a torcida de fãs e críticos, mas no escurinho das quatro paredes apoiam e blindam os próprios interesses corporativos junto ao escritório. “Coitinho é apenas um laranja, não é em cima dele que se tem que ir. Se tem que ir mesmo é atrás dos responsáveis”, afirma. “Toda história que se conta tem mentira dentro/ tem valente que não é valente/ (…) tem chão verde que não dá semente”, cantavam em 1974 os repentistas de A noite do espantalho, quando as sementes ainda não eram transgênicas.

No filme narrado pelo misterioso espantalho, terminam assassinados os camponeses que ousam reivindicar a parte que lhes cabe nos latifúndios adormecidos que ajudam a tornar fértil e produtivo. Algo parecido aconteceu em 2012, nos episódios que culminaram no golpe no Paraguai. É curioso, embora não surpreendente, que o destemido Sérgio, justamente ele, tenha seus direitos autorais desviados para sabe-se lá quem. “O meu dinheiro autoral é muito esparso, só está aparecendo agora, depois da minha grita”, observa, referindo-se a seu blogue de protesto G.R.I.T.A. (www.gritabr.wordpress.com), Grupo de Resistência às Irregularidades no Terreno das Artes. Na MPB, como em qualquer outra fazenda-modelo, camponês que não grita não mama.

“Para acordar o artista brasileiro” é o subtítulo provocador do (sério) brinquedo que empolga atualmente o octogenário blogueiro. Entre os que se declaram acordados e emprestam assinaturas em apoio público à G.R.I.T.A. estão Fernanda Abreu, Ivan Lins, Jards Macalé, João Bosco, Leoni, Tim Rescala e Vitor Martins. O primeiro pelotão da música brasileira comercial-industrial está solenemente ausente da lista – dos ocupantes do pódio de arrecadação na primeira década do século XXI (Roberto Carlos, Caetano Veloso e Djavan), a sumidades do samba ou do rock, da MPB ou da música sertaneja, ninguém pôde ou quis ou teve coragem de se declarar publicamente contrário às fraudes ecadianas que Sérgio denuncia.

“O grande trunfo que a gente teria seria o Chico Buarque, e infelizmente ele está comprometido. Foi o primeiro da lista a assinar, mas pediu em seguida para retirar o nome, por causa da irmã”, conta o autor de “Analfaville”, que ameaça dar nomes a algumas das vacas sagradas em questão. “É coerente, humanamente compreensível. Chico nem toca nesse assunto mais.” Como foi Gilberto Gil na gestão passada, não seria Chico, desta vez, figura influente sobre os destinos atuais do MinC? “Não, sobre os defeitos que estão apontados, não. Ele é um sujeito muito coerente. Estaria no topo da nossa briga, mas no momento, infelizmente, não vai poder participar.”

Sérgio prossegue pelo tema da política, que jamais abandonou, ainda que usasse como ferramentas de lavoura política os versos, a prosa, as melodias, as imagens. “Dilma resolveu manter a irmã do Chico no poder, está difícil. Eu não tenho nada contra o governo dela, acho Dilma uma figura humana incrível. Acho até que o governo tem agido bem, permitindo por exemplo a CPI do Ecad. Foi com boa surpresa que recebi a instalação da Comissão da Verdade”, avalia. “Mas o MinC defende o Ecad.”

Após a conversa nicotínica na calçada, entramos no restaurante Buttina, onde aguarda Sérgio uma mesa ruidosa ocupada por filhas, neta, produtor, amigos. O compositor indigesto de protesto não é um sujeito casmurro, ensimesmado, solitário, como nos quer fazer supor o mutirão midiático (supostamente) antipolítico. “Elas estão erradas, deviam mais era ser cantoras”, inverte a máxima dos pais conservadores, referindo-se às filhas, Adriana Lufti e Marina Lufti, que cantam, mas priorizam outras profissões.

Descobre-se, numa das mesas ao lado, a atual titular da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, a socióloga Eleonora Menicucci. Após pequena saia-justa sobre quem vai tomar a iniciativa de se levantar para cumprimentar quem, a ministra vem ao encontro do artista. Abraça-o, conversa calorosamente, conta que foi ver seu show em Brasília. O compositor-cineasta-militante não desperdiça a deixa: queixa-se do Ministério da Cultura e da ministra-cantora, colega de Eleonora e de Sérgio. É mais um na larga legião de descontentes com a guinada conservadora operada por Dilma no campo cultural.

“Uma mutreta das mais escrotas que já vi”

Morador de um apartamento na ladeira que leva à favela do Vidigal, à (repare o nome) avenida Presidente João Goulart, Sérgio está em cartaz no Rio agora mesmo, com obra inédita. É autor de Bandeira de retalhos, peça teatral encenada pelo bravo grupo Nós do Morro, da comunidade do Vidigal. Incorporando um Zelão misturado com Zumbi, Sérgio, décadas atrás, morou num barraco do Vidigal e participou de mutirões e mobilizações contra despejos de moradores e remoções de barracos. É dessa experiência autobiográfica que trata a nova peça. Seu filho João Lufti, também cantor, vive no palco o alter-ego do pai, de Zelão, de Corisco, do camponês anônimo do Pará-Paraná-Paraguai.

Além de blogueiro, Sérgio ensaia intimidade com o YouTube. No início deste ano, editou por conta própria um videoclipe (http://www.youtube.com/watch?v=9IuoQD6-vtE) de sua “Lá vem pedra” (1979), que regravara no belíssimo álbum de maturidade Ponto de partida (2008). “Opa, que lá vem pedra, se abaixe ou pule na fogueira/ que saber é esse que cala o entendimento,/ gira em torno de si mesmo/ como se só ele fosse bamba?”, desafia a letra, ilustrada por fartas imagens do terror de Estado promovido pelo governador tucano de São Paulo, Geraldo Alckmin, na desocupação violenta do latifúndio do Pinheirinho, em São José dos Campos, então ocupado por sem-terra, espantalhos, zelões, coriscos, nós-dos-morros. Naji Nahas era o nome do latifundiário-especulador da vez – ou, pelo menos, o único deles a sair do anonimato na sangrenta ocasião.

“Aquilo ali foi uma mutreta das mais escrotas que já vi, envolvendo interesses pessoais, políticos. E o povo que se dane, é isso que me comove muito. Fico meio embaralhado, não consigo ficar calado”, reconhece-se. De tanto não conseguir ficar calado, costuma transformar prosa em poesia enquanto fala, como no caso da seguinte frase, captada num momento qualquer da entrevista-almoço-aula: “Eu não me sinto bem distante do meu semelhante, então tenho que respeitá-lo”.

É evidente que o homem com quem e de quem falamos tem atravessado as décadas movido a amor pelo semelhante – que é igual ou equivalente a um tipo especial, raro, intangível, de amor por si próprio. Nos palmos de terra-texto até este último parágrafo, correram algumas entre milhares de histórias que Sérgio Ricardo mantém guardadas sem cadeado. Como se dizia na sombria Noite do espantalho, “se gostar que faça uso e bom proveito/ se não gostar continue deixando tudo esquecido”.



No artigo

x