África: a mulher e a questão energética no centro do debate

O empoderamento feminino e a discussão sobre as saídas para a geração de energia são cruciais para o futuro do continente

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O empoderamento feminino e a discussão sobre as saídas para a geração de energia são cruciais para o futuro do continente

Por Sucena Shkrada Resk

A África Subsaariana precisa de infraestrutura, principalmente de energia elétrica, para resolver boa parte de seus problemas na agricultura, que representa dois terços da estrutura básica da economia. Por outro lado, também é preciso reavaliar a situação das mulheres, que figuram como base de sua força produtiva na área agrícola. Essas são duas questões interligadas e cruciais para um continente que cresce, economicamente, 5% ao ano em média, apresenta muitas regiões com terras férteis e água em abundância, mas reflete diferenças sociais profundas, que vêm desde os tempos da colonização.

A cada narrativa ouvida de representantes de países do continente africano durante a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20), no mês de junho, ficou mais clara a situação de vulnerabilidade, que ainda é gritante no século XXI, caracterizado paradoxalmente pelos avanços da tecnologia e do Produto Interno Bruto (PIB), que não chegam à grande parte da população africana. Três em cada quatro domicílios africanos não têm abastecimento energético, o que afeta diretamente a segurança alimentar. Nesse quadro de carências, que tem como pano de fundo as mudanças climáticas, estima-se que 30% da população africana, o equivalente a 239 milhões de pessoas, sofra de subnutrição, segundo o Relatório de Desenvolvimento Humano da África 2012, divulgado em maio pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).

De acordo com Ebrima Njie, comissário para Infraestrutura da Economic Community of West African States (ECOWAS) Comission (que atua em 15 países no Oeste Africano), atualmente, a questão central é interligar as ações entre água, agricultura e energia. “Só 30% dessa região tem energia. Na agricultura, há muitas perdas, pois não se consegue fazer estoques e o uso excessivo de madeira para geração de energia acarreta o avanço da desertificação, como ocorre atualmente em Mali e Níger”, resume.

Segundo Mahama Kappiah, diretor executivo do ECOWAS Regional Centre for Renewable Energy and Energy Efficiency (Ecreee), entre as principais negociações em andamento, estão projetos que visam à ampliação da acessibilidade à energia solar e a gasodutos interligados, na Nigéria, Togo, Benin e Gana. “É preciso maior união entre os próprios países africanos, para que tenhamos mais força nas negociações internacionais. No aspecto humanitário, o que mais me aflige pessoalmente é a situação das mulheres, que trabalham muito e praticamente não têm acesso a nada”, diz Njie.

A esperança de uma África mais inclusiva e sustentável é a tônica da fala do jovem Mensah Hubert Dossevi, 21 anos, de Benin, que cursa o quarto período de Medicina na Unirio, num processo de intercâmbio. “Nas ruas de Cotonou (sua terra natal), o problema do uso de combustíveis fósseis é visto a olho nu, com as centenas de motos que circulam por lá, porque não existe transporte coletivo desenvolvido. Assim, a emissão de gases de efeito estufa aumenta. É preciso um forte empenho nessa área”, acredita. “É importante que se invista em pesquisas para o aproveitamento de energia solar. Usa-se muito a madeira, e o desmatamento é crescente. Por outro lado, precisamos de um trabalho dirigido à educação socioambiental com a população. Nosso problema é a falta de instituições universitárias e de atendimento de saúde pública”. A situação da cidade é um alerta que serve às demais áreas urbanas no continente, onde vive atualmente 40% da população.

Dossevi conta que seu grande sonho, desde criança, é de ser um médico sem fronteira e se especializar em neurologia, área que praticamente não tem retaguarda em seu país. “Quando me formar, vou voltar para Benin, para poder ajudar as comunidades”, conta. Para ele, é difícil não se sensibilizar com o quadro de privações no qual a riqueza natural em muitos países africanos não é revertida em qualidade de vida.

Empoderamento feminino

“As crianças e o contingente feminino são as maiores vítimas na África”, destaca Elisabeth Atangana, de Camarões, presidente da Panafrican Farmers Organization (entidade representativa de movimentos de agricultores em todo o continente). Ela explica que a situação se torna ainda mais crítica, tendo em vista que a maior parte da produção agrícola no continente é oriunda de pequenos agricultores, incluindo mulheres e jovens, responsáveis por aproximadamente 80% do total produzido no continente.

A maioria das agricultoras é responsável pela transformação dos produtos agrícolas e embarcações de pesca. No entanto, o processo de empoderamento das agricultoras, por meio de associações e cooperativas, ainda é lento, mas estratégico, de acordo com Elisabeth. “Muitas vezes elas não acreditam que podem ser competentes. Temos de ajudar a mudar esses conceitos.”

Um dos maiores desafios é quanto ao acesso à educação, a cursos de gestão e meios mais modernos de produção, estocagem e logística, além das dificuldades de obtenção de crédito. Aos poucos, esse espaço se amplia pontualmente em alguns países, como é a experiência dos Colégios de Mulheres Rurais, na África Central e na Ocidental. “Mas há necessidade de maior esforço de políticas públicas e apoios internacionais para ampliar o atendimento. Devem estar centrados nas pessoas”, destaca.

Segundo Elizabeth, em Camarões, por exemplo, existe uma iniciativa em formação profissionalizante dos agricultores no desenvolvimento sustentável local, que já incluiu um contingente aproximado de 5,2 mil mulheres. Com isso, elas aprendem desde o processamento dos produtos até o marketing rural e agrícola. Ao mesmo tempo, há ações para revitalizar as localidades, com saneamento básico, com prioridade para água potável, para evitar o grande número de enfermidades de fonte hídrica contaminada. Esse é um dos caminhos, na sua opinião, que vêm ao encontro da efetivação dos Objetivos do Desenvolvimento do Milênio (ODMs).

Mary Arokye, de Ghana, afirma que as mobilizações sociais são importantes instrumentos para alterar o quadro de dificuldade imposto às mulheres na África. Entre eles, está o “Voices of Africa Mothers”, que tem como um dos objetivos a promoção da alfabetização de mulheres, incentivando-as a chegar no ensino superior, como também o auxílio para o empoderamento econômico e formação em competências empresariais. Ela conta que a realidade do dia a dia nas comunidades exige resiliência. “A participação feminina ainda é reprimida no dia a dia. Há muitas dificuldades, principalmente nas aldeias, quanto a educação, eletricidade e alimentação. As famílias conseguem comer um frango, por exemplo, uma vez por ano, na época do Natal.”

Segundo o PNUD, no Quênia, por exemplo, foi criado um tipo de seguro contra a seca para auxiliar os pequenos agricultores com base nos níveis de precipitação monitorizados pelas estações meteorológicas. Outra iniciativa ilustrada pela organização é realizada em Moçambique. Lá, há as feiras de comércio que repõem os estoques de sementes das famílias vítimas da seca. Na Etiópia, foi criado um serviço de mensagens escritas por telefone celular (SMS) para divulgar preços pelos agricultores, recebendo 20 mil chamadas diariamente.

Para a brasileira Bianca Suyama, que atuou na África do Sul, Burundi, Congo, Malaui, Quênia e Zâmbia, entre 2007 a 2010, pela ONG Care, e hoje é coordenadora executiva do Centro de Estudos e Articulação da Cooperação Sul-Sul, deparar-se com a superação desses povos frente às adversidades foi um dos maiores aprendizados que obteve. “Trabalhei com líderes comunitários, pessoas que impressionam pela integridade. Em muitos locais via meninas e mulheres andarem grandes distâncias para pegar água, cortando lenha, porque não há energia nos lugarejos. Percebo que a construção das políticas nessas regiões precisa valorizar o que as pessoas já fazem bem, um olhar debaixo para cima”.

Acordos de cooperação ainda longe do ideal

Diante dos gigantescos desafios africanos expostos pelas falas de seus próprios cidadãos, pode-se dizer que as negociações, durante a Rio+20, ficaram muito aquém das necessidades emergentes. Hillary Clinton, secretária de Estado norte-americana, anunciou que o Congresso nos EUA aprovou um financiamento de US$ 20 milhões, que deverão ser utilizados para impulsionar projetos de energia limpa no continente africano.

A presidenta Dilma Rousseff, em jantar com chefes de delegações africanas, havia se comprometido a levar os programas sociais brasileiros para lá. Nesse rol de declarações, Brasil, França e países africanos também estabeleceram acordo contra a desertificação, por meio de investimento na ordem de 1 milhão de euros em tecnologia e pesquisa. Agora, o próximo passo aguardado por milhares de africanos é o mais importante: a implementação.



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