Dario Santillán e a dignidade rebelde

Documentário revive “Massacre de Avellaneda”, que marcou a política argentina e agora completa uma década Por Júlio Delmanto Maximiliano Kosteki era um dos quatro mil manifestantes...

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Documentário revive “Massacre de Avellaneda”, que marcou a política argentina e agora completa uma década

Por Júlio Delmanto

Maximiliano Kosteki era um dos quatro mil manifestantes que bloquearam a Ponte Puerrydon na manhã do dia 26 de junho de 2002, em Avellaneda, cidade da Grande Buenos Aires. Aparentemente seria apenas mais um protesto entre os inúmeros ocorridos desde o final de 2001, quando uma crise financeira destroçou a economia do país e fortaleceu a resistência autônoma, simbolizada sobretudo pelos bloqueios de ruas e estradas empreendidos pelo crescente movimento de desempregados. Mas governo e polícia empreenderam uma resposta exemplar.

Quando começa a repressão, Maximiliano, então com 22 anos, posiciona-se em frente a um supermercado junto com outros companheiros seus, que reagem com pedras e paus aos tiros de balas de borracha, que logo se converteriam em balas de chumbo. Maximiliano é atingido no peito e nas pernas, numa cena filmada por câmeras de televisão. O relógio marcava 12:42, mais de 40 minutos haviam se passado desde o início da atuação policial. Ao ser atingido, Kosteki caiu de joelhos: “Está queimando, me levem daqui”, pediu a quem estava mais próximo. Foi levado para a estação de trem de Avellaneda, a 20 metros de distância, e deitado no chão até que alguma ajuda chegasse.

A cerca de 70 metros dali, sob uma ponte ferroviária, estava Dario Santillán, de 21 anos, que, depois de hesitar, caminha em direção à estação. Seu irmão e sua namorada estavam na manifestação, e talvez estivesse em busca deles (informação aparentemente irrelevante. Manter?). Ao entrar, encontra Kosteki caído no chão, e, mesmo sem conhecê-lo, decide ficar para ajudá-lo, pedindo a todos que ali estavam que saíssem, pois do lado de fora alguns policiais armados ameaçavam entrar, e já havia muito gás lacrimogêneo no ar. Maximiliano sangrava pelo nariz e pela boca, e Dario segura sua mão direita, tentando tranquilizá-lo.

Entram na estação o comissário Fanchiotti, os cabos Acosta e Colmán, o oficial Quevedo e o suboficial De La Fuente. Gritam a Dario para que corra como os outros. Ao se recusar, teve uma escopeta apontada para seu rosto, e só então decidiu sair. Caminhou apenas cinco metros antes de ser atingido mortalmente pelas costas. Enquanto agonizava, foi chutado e arrastado pelos policiais, segundo depoimentos do fotógrafo Pepe Mateo, do diário Clarín, que estava próximo à cena. “A polícia o matou de forma brutal. Foi uma lição, a forma com que o arrastaram foi totalmente desnecessária”, declarou Mateo à época. Kosteki também morreria ali, no chão da estação, em um episódio que deixaria outros 33 feridos e passaria a ser conhecido como o “Massacre de Avellaneda”.

Casualidade ou premeditação?

“Como a maioria das pessoas, eu tinha a ideia de que Dario era um jovem, uma boa pessoa, que lutava pelos seus e que foi uma vítima. Mas ele foi muito mais que isso”, afirma o diretor de cinema Miguel Mirra, 62 anos, que acaba de lançar na Argentina o documentário Dario Santillán – Dignidade rebelde. Realizador de dezenas de documentários com temática social e fundador do Festival Nacional de Cinema e Vídeo Documental da Argentina, Mirra decidiu contar a trajetória deste que se converteu num símbolo da luta política autônoma no país.

“Descobri que já desde os 16 anos Dario organizava um centro de estudantes em sua escola, aos 17 participava de ajuda aos afetados pelas enchentes. Depois, começou a organizar o movimento de trabalhadores desempregados no seu bairro, e participou de ocupações de terras para moradia. Era uma referência, mesmo com sua pouca idade, referência para os jovens e para as famílias, para os mais velhos”, aponta Mirra, que vê em sua morte mais do que uma casualidade. “Estou convencido de que foram buscá-lo para matá-lo, porque era um exemplo que não podiam deixar passar. O sistema não podia deixar, tinha que reprimir e elegeram figuras emblemáticas para isso.”

Segundo o Movimento de Trabalhadores Desempregados (MTD, em espanhol, Movimiento de Trabajadores Desocupados) Aníbal Verón, do qual tanto Kosteki quanto Santillán faziam parte, a intenção dos policiais era agir de modo que a culpa pelas mortes por eles causadas fosse posteriormente atribuída aos próprios manifestantes. “A torpeza de fuzilarem Dario pelas costas em um local cheio de fotógrafos deu início ao fracasso de toda a operação”, aponta a publicação Dario e Maxi, Dignidade piqueteira, produzida pelo próprio movimento.

A comoção causada pela repressão gerou grandes manifestações, ampla cobertura midiática e, posteriormente, a condenação de sete policiais [ver box]. Eduardo Duhalde, presidente interino que substituíra Fernando De la Rua, deposto em consequência das mobilizações populares de 2001, também não resistiu a indícios de participação ou conivência com os eventos repressivos, e teve que antecipar as eleições que acabariam elegendo Nestor Kirchner em 2003.

A socióloga Maristella Swampa, pesquisadora do movimento de desempregados argentinos, também acredita em premeditação na morte de Santillán. “Houve um plano elaborado, que exigiu a participação do conjunto das forças repressivas. Pouco antes, o discurso do governo havia endurecido sua postura em relação às organizações piqueteiras e apontava para denunciar um suposto ‘complô contra a democracia’ por parte dos movimentos”, explica. “Desde o ministro da Justiça ao então chefe da Side – Secretaria de Inteligência do Estado – o discurso do governo estava perfeitamente alinhado e orientado a legitimar a repressão exemplar”, complementa. “Já não mendigavam, desafiavam”, e isso era inaceitável, descreve poeticamente o dramaturgo Vicente Zito Lema, autor do livro A Paixão do Piqueteiro.

Ponto de inflexão

As mortes de Santillán e Kosteki representaram um “ponto de inflexão” nas mobilizações iniciadas no ano anterior, acredita Maristella Swampa. “A repressão representou um golpe muito forte a um processo de mobilização que vinha crescendo em termos de centralidade política, e mostrou com isso a assimetria entre os poderes do governo e dos movimentos”, afirma, acrescentando que “a reação de rechaço que essa repressão produziu no conjunto da sociedade argentina foi tão grande” que abriu portas para a chegada de Nestor Kirchner à presidência, algo “impensável” antes disso, dado o exíguo espaço do então marido (hoje falecido) da atual presidente no interior de seu partido naquele momento.

Professor e pesquisador da Universidade de Buenos Aires (UBA) e doutor em Ciências Sociais, Alberto Bonnet segue a mesma linha de raciocínio de Swampa. Para ele, a repressão não incidiu sobre organizações de desempregados de forma casual, uma vez que elas e seus planos de luta “haviam sido decisivos no ascenso prévio das lutas sociais. E tampouco era casual que Kosteki e Santillán integrassem o MTD Aníbal Verón, uma das organizações piqueteiras mais combativas dentro deste ciclo de ascenso”. Para Bonnet, mais do que antecipar as eleições, as mortes dos dois ativistas representaram “o fechamento deste ascenso que havia atingido seu auge em dezembro de 2001”.

Vista como progressista por parte da esquerda argentina, a chegada de Nestor Kirchner à presidência em 2003 representa para Bonnet, na verdade, o enquadramento do processo contestatório à institucionalidade do poder dominante. “A própria administração de Duhalde e sua herdeira, a administração de Kirchner, impulsionaram com êxito a recomposição da acumulação e da dominação capitalistas, que haviam ficado em suspenso durante a crise e a insurreição de dezembro de 2001. Ou, para dizer nas próprias palavras de Kirchner em seu discurso de posse em 25 de maio de 2003, impulsionaram a ‘reconstrução do capitalismo nacional’”, aponta o cientista social.

Néstor Lopez, editor da revista Herramienta, teme ser taxativo em relação ao fato de o “Massacre de Avellaneda” poder ser qualificado como um ponto de inflexão da mobilização pós 2001. Propondo um olhar que se volte para a atuação dos próprios movimentos e partidos em um cenário de “insubmissão urbana”, Lopez aponta que “é preciso sermos cuidadosos, a reflexão pode se tornar perigosa quando se baseia em apenas um elemento, pois apaga outros fatores”. Para ele, o central numa análise como essa não são “as ações que o inimigo produz, mas sim analisar nossos erros, acertos e nossas inexperiências”.

Miguel Mirra: independência política e autogestão

Miguel Mirra relata que decidiu realizar o documentário por sugestão de amigos ligados à Frente Popular Dario Santillán. As filmagens tomaram apenas três meses, e desenvolveram-se dentro das linhas teóricas preconizadas pelo diretor: autogestão, independência política e diálogo constante com os movimentos sociais. “Não existe um olhar neutro, objetivo, acreditamos que isso na verdade é uma premissa do poder para que não nos envolvamos. Para nós, trata-se de envolver-se, comprometer-se, identificar-se com aqueles que estamos registrando, porque se os elegemos é porque nos comovem e nos mobilizam. O melhor que podemos fazer é meter os pés no barro, e não olhar desde fora, de cima”, resume.

O filme apresenta a trajetória do militante morto dividida em quatro momentos: vida, paixão, morte e ressurreição de Dario Santillán. Foi realizado sem apoio financeiro de empresas ou do governo, e estreou também no circuito comercial, tendo boa aceitação de crítica, público e sobretudo dos movimentos sociais, segundo Mirra. “É necessário que a metodologia de construção seja coerente com o conteúdo do filme, senão não vale. Eu nunca estive e nem estarei disposto a solicitar dinheiro para o Estado, que é o Estado verdugo. Seguiremos trabalhando independentemente até podermos”, declara.

Para o diretor, que em agosto lança Cantata de la tierra nuestra, uma ficção documental que trafega por seus 25 anos de direção cinematográfica, “o objetivo principal não é lucrar, com as exibições nos cinemas podemos recuperar o dinheiro investido. Nós cedemos para os movimentos a possibilidade de fazerem cópias livremente, e assim vai ser distribuído aos milhares, em copyleft como se diz hoje. E isso para nós é suficiente”.

Além de lançar esses dois filmes em 2012, Miguel Mirra segue atuando no Movimento de Documentaristas, grupo formado em 2002 e que busca trabalhar junto a movimentos sociais autônomos e também na implementação de uma rádio comunitária, que se chamará rádio “Por quê?”, numa referência ao ideal de “perguntando caminhamos” preconizado pelos zapatistas mexicanos. Para ele, estar junto aos “de baixo” é questão de escolha política: “Escolhemos estar perto dos movimentos sociais, perto da terra. Brincando nós dizemos que basta de ficção, queremos realidade. Para ficção já temos o governo”.

Emergente da horizontalidade

Sobre o fato de Santillán ter entrado na estação mesmo sabendo do perigo que corria, o MTD Aníbal Verón aponta: “Dario voltou por todos. Por seu irmão e sua namorada. Por seus companheiros de bairro e pelos demais. Por Maxi agonizante. Por todos nós que, ante o perigo, não decidimos voltar. Dario voltou à estação por puro comprometimento com os valores simples, cotidianos e revolucionários que aprendeu e predicou em sua militância”.

“Militava de segunda a segunda e, quando estava em casa, o telefone não parava de tocar”, declarou Alberto Santillán, pai de Dario, em depoimento apresentado no livro de Zito Lema. “Ele esteve nos atos de 19 e 20 de dezembro de 2001, como tantos argentinos na Praça de Maio, e me disse ‘Eu tive muito medo, mas se não venço meu medo não sirvo’. Por isso afirmo que a morte de Dario aconteceu por ele ser consequente consigo mesmo”, continua.

Fã de música clássica e de Che Guevara, Dario tinha referência política também na figura do Subcomandante Marcos, do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) mexicano, e hoje nomeia a Frente Popular Dario Santillán, movimento social fundado em 2004 e autodenominado “autônomo” e “multi-setorial”. O grupo se classifica como “anti-imperialista, anticapitalista e antipatriarcal” e a “favor da construção do poder popular” e de um “processo de unidade baseado em práticas comuns e em reflexão compartilhada”.

Néstor Lopez define Dario Santillán como um “emergente da horizontalidade da outra política, da negação e do repúdio à política no capitalismo”. Lopez o vê também como representante “possivelmente de uma antipolítica da horizontalidade, de um mandar obedecendo. Um exemplo que está percorrendo todo o mundo como um novo fantasma e que dá condições à possibilidade de desenvolver-se uma reflexão teórica ao mesmo tempo em que se luta. Ou seja, outra política”.

Segundo Maristella Swampa, existe um amplo setor jovem que começou a participar ativamente da política argentina com as jornadas iniciadas no final de 2001 e que encontrou na figura de Santillán um modelo, “uma ilustração acabada a partir da qual se pensa de modo diferente a relação entre política e ética, e também os vínculos de solidariedade”. Para a socióloga, trata-se de militâncias que ainda hoje buscam “reinventar o poder popular, a partir de baixo”.

Prova do peso político que a figura de Santillán exerce na Argentina são as dezenas de manifestações e eventos que acontecem no mês de junho em diversas cidades do país. De jornadas culturais a manifestações de rua, passando por debates e programas midiáticos, a agenda política argentina terá nas mortes de Santillán e Kosteki um elemento central no início do inverno de 2012, confirmando possivelmente os versos de Zito Lema em homenagem a Santillán: “ainda que morram os que amam, o amor não cessa”.

O julgamento dos envolvidos

Terminou em 2006 o julgamento dos policiais diretamente envolvidos nas mortes de Dario Santillán e Maximiliano Kosteki. O comissário Alfredo Fanchiotti, que comandou o pequeno grupo que entrou na estação de trem, e o cabo Alejandro Acosta, que atirou em Santillán, foram condenados à prisão perpétua. Félix Vega, Carlos Quevedo, Mario De la Fuente, Gaston Sierra e Lorenzo Colmán foram condenados por acobertamento de crime e receberam penas entre dois e quatro anos. O único civil julgado foi Celestino Robledo, ex-policial, que foi condenado a 10 meses de prisão por “usurpação de títulos e honras”, uma vez que participou da repressão mesmo depois de ter deixado a polícia. As famílias de Kosteki e Santillán, em conjunto com movimentos sociais e de direitos humanos, pleitearam que políticos então no comando também fossem julgados como autores intelectuais da repressão, mas isto não chegou a acontecer.

 

Regulamentação do armamento em manifestações

Dificilmente uma repressão como a do “Massacre de Avellaneda” poderia acontecer nos dias atuais na Argentina. Uma portaria de 2011 da ministra de Segurança Nilda Garré buscou unificar nacionalmente a ação policial durante manifestações sociais, exigindo o fim do porte de armamento letal nos protestos e também o uso de balas de borracha, bombas de efeito moral e spray de pimenta. Segundo o texto, é obrigação do Estado garantir o pleno exercício de direitos, e não só “respeitá-los” ou “tolerá-los”.

O governo argentino exige também que haja negociação prévia com as lideranças dos manifestantes, com ela sendo feita por um civil indicado pelo Executivo. Estabelece ainda que os agentes de segurança portem identificações grandes e facilmente visíveis.



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