Nelson Jacobina e Renato Braz

No entanto, não é só como compositor e parceiro de Mautner que Jacobina se destacava. Era também um grande músico, responsável, de certa forma, por arredondar o som do palco e dos discos com o seu violão e arranjos

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Na década de 1980, ele era o cara. Quem passasse pelo Baixo Leblon, trecho do bairro carioca onde tudo acontecia na época, invariavelmente dava de cara com a sua bela figura, de cachos dourados, postura zen, simpático, de bem com a vida e muito talentoso. Nelson Jacobina Rocha Pires, mais conhecido como Nelson Jacobina, era, desde sempre, o grande parceiro de Jorge Mautner. Juntos fizeram algumas das mais ousadas e instigantes canções do período pós-tropicalista.

Entre os amigos e descolados desfrutava do prestígio de ser um dos grandes compositores de então, sem ter a chateação do assédio do grande público. Sempre discreto, passou a vida como o parceiro de Mautner, com pesos iguais na realização da obra e holofotes de menos, coisa que, aparentemente, não o incomodava nem um pouco.

Com isso, Nelson Jacobina criou uma grande e extensa obra, com destaque para “Maracatu Atômico”, consagrada por Gilberto Gil na década de 1970 e regravada mais de 40 vezes. Na década de 1990, numa das mais famosas versões, a canção se tornou o grande sucesso do movimento Mangue Beat na voz de Chico Science e a sua Nação Zumbi. Um caso raro de uma obra que se tornou emblemática em duas eras, um símbolo de modernidade. Uma canção visionária, tanto pela sua letra repleta de imagens entrecortadas, quanto pela linda, alegre e inovadora melodia, com um pé na tradição e outro no futuro.

Bastaria isto para Jacobina ter o seu nome em definitivo na história da nossa música. No entanto, ele fez muito mais. Ao lado de Mautner, compôs canções como “Lágrimas negras”, “Cinco bombas atômicas”, “Samba Jambo”, “Rock na TV”, “Herói das estrelas” entre várias outras.

No entanto, não é só como compositor e parceiro de Mautner que Jacobina se destacava. Era também um grande músico, responsável, de certa forma, por arredondar o som do palco e dos discos com o seu violão e arranjos. Sabia como ninguém dar uma condução adequada às novidades sugeridas. Dentro de um esquema e produção quase sempre baratíssimos, Jacobina era quem arregimentava, driblava as dificuldades, conferia dignidade e sonoridade adequada a tudo.

Foi também guitarrista da Orquestra Imperial, uma verdadeira seleção de grandes músicos do Rio de Janeiro, como Wilson das Neves, seu irmão Rubinho Jacobina, Rodrigo Amarante, Moreno Veloso, Thalma de Freitas e Nina Baker, entre outros. Jacobina tocou até o fim. Seu último show foi em Jacareí, ao lado de Mautner, na mesma semana em que partiu, vítima de câncer, que já havia tomado seu corpo de forma irreversível.

Até o final foi um militante heróico. Fazia o que fazia por pura paixão, prazer e talento. Sua vida foi totalmente dedicada a oferecer uma alternativa mais elevada aos que gostam, prezam e confiam na grande obra e seus artistas. Seu nome talvez não tenha sido escrito de forma adequada entre os grandes. Mas, sem sombra de dúvidas, foi um deles.

Renato Braz é a constatação contrária às lamúrias e viúvas da Bossa Nova. É a prova, enfim, de que ainda se faz sim música, e muito boa, por aqui, e só o mercadão não vê. Depois de três anos de produção, muito trabalho e acuidade, chega finalmente às lojas o lindo Casa de morar, onde o cantor mistura tradição e modernidade, como se colocasse fotos digitais sobre molduras antigas e/ou vice-versa.

É um disco repleto de canções que ora parecem antigas, mas são novas, e outras que são, de fato, antigas, mas absolutamente contemporâneas. Um disco com sotaque caipira, jeitão de cidade histórica, fumo de corda e viola, mas cheio de harmonias sofisticadas e afeitas a salas de concertos de grandes cidades.

Das canções tradicionais, Renato Braz foi buscar “Desafio”, de Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro, numa versão impecável. Dori tem sido um compositor quase que obrigatório nos discos de Renato. É uma espécie de seu padrinho musical e, de certa forma, tem um estilo musical que define os caminhos que ele costuma perseguir. O mesmo se aplica à regravação de “O trenzinho do caipira”, melodia de Villa-Lobos que ganhou letra de Ferreira Gullar.

O gosto agreste do som de Renato permanece vivo também até em canções distantes deste universo, como “Febril”, de Gilberto Gil, e “Durango Kid”, de Toninho Horta e Fernando Brant. Com muita destreza e forte personalidade, o cantor define as canções através do seu universo, e nunca o contrário.

A unidade do disco fica por conta de seu contexto aparentemente simples, em que as canções são vestidas com poucos instrumentos, arranjos econômicos e uma rara clareza sonora. Usou vários arranjadores, como Naylor Proveta, Nelson Ayres e Edson José Alves e, longe de soar heterogêneo por conta disso, consegue um som único, próprio.

Outras canções menos conhecidas ou até inéditas, mas tão boas quanto as consagradas, ganham cor e forma impressionantes na interpretação de Renato Braz. “Essa moça”, que abre o disco, é um exemplo de beleza rara que ganha em muito na econômica interpretação do cantor, acompanhado apenas pelo piano de Nelson Ayres, Bob Suetholz no violoncelo e Alberto Luccas no contrabaixo.

Outra grata surpresa é a participação do poeta e letrista Paulo César Pinheiro, declamando seu lindo texto “O Centauro”, que serve de abertura para a sua parceria com Dori Caymmi, “Desafio”. Faixa por faixa, o disco Casa de morar é surpreendente até para quem já acompanha a excelente carreira de Renato Braz. A própria canção-título, parceria de Claudio Nucci com o poeta Cacaso, morto em 1987, é outro achado.

Entre essas e muitas outras, o disco Casa de morar, de Renato Braz é uma coletânea de lindas canções muito bem interpretadas e arranjadas. Feito com grande originalidade e talento é, desde já, forte candidato a melhor disco brasileiro do ano.



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