Todos somos vadias

Infelizmente, ainda é muito comum colocar a causa do estupro no decote da blusa, no comprimento das saias e nos modos das moças

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Infelizmente, ainda é muito comum colocar a causa do estupro no decote da blusa, no comprimento das saias e nos modos das moças

Por Vange Leonel

Tudo começou no ano de 2011 quando um policial canadense resolveu dar conselhos de segurança anti-estupro para mulheres: “parem de andar na rua como vadias”, disse o tonto de Toronto. Tonto? Sim. Quem é da luta feminista sabe que este tipo de argumento é um dos preferidos daqueles que preferem culpar a mulher ao invés de refletir sobre seus próprios impulsos sexuais predatórios. Infelizmente, ainda é muito comum colocar a causa do estupro no decote da blusa, no comprimento das saias e nos modos das moças.

Não à toa, no início da década de 1980, o movimento feminista criou o SOS Mulher, um espaço de atendimento às mulheres vítimas de violência doméstica, um projeto que cresceu e despertou o surgimento das delegacias de mulheres. Esses espaços de proteção à mulher são de suma importância porque é muito difícil arrancar o machismo atávico de dentro das instituições, especialmente das delegacias. Tão difícil que, mesmo num país de costumes avançados como o Canadá (o quarto no mundo a legalizar o casamento gay), um policial faz um pronunciamento público machista, quase uma incitação à violência.

O fato é que as canadenses ficaram muito indignadas e resolveram fazer um protesto nas ruas com roupas mínimas, seios de fora e cartazes do tipo “o corpo é meu e minha roupa não é problema seu”. O protesto, batizado de Slut Walk, logo viralizou e se espalhou por outros países, inclusive o Brasil, onde recebeu o nome de Marcha das Vadias. Vou confessar para vocês: as Marchas das Vadias aqui em São Paulo nos anos de 2011 e 2012 foram das melhores manifestações de rua das quais já participei, graças ao tom de deboche, bom humor e integridade feminista da parada.

Muita gente, porém, não conseguiu captar a mensagem transgressora implícita no nome e reclamou da palavra “Vadias”. Uns, dizendo que o termo é pejorativo; outros, por temer a banalização das causas feministas. Ora, sinceramente? Não penso nem uma coisa, nem outra.

Há uma prática muito saudável em transformar termos derrogatórios em palavras capazes de incitar autoestima e provocar transformações. Em inglês, esta prática recebe o nome de reappropriation, ou seja, quando um grupo se reapropria de expressões e símbolos antes usados para detratá-lo. Isso aconteceu quando, por exemplo, o movimento gay nos Estados Unidos passou a usar a palavra queer (esquisito, transviado) com orgulho, esvaziando aos poucos seu conteúdo infame. A mesma coisa ocorreu com a utilização do triângulo rosa que, usado pelos nazistas para marcar prisioneiros gays, foi transformado em símbolo do movimento LGBT. Aqui no Brasil notamos fenômeno semelhante com as lésbicas, que se apropriaram do termo “sapatão” e usam a corruptela “sapa” para carinhosamente se referirem umas às outras.

Assim, a reapropriação do termo “vadia” para colocar em xeque noções sexistas profundamente enraizadas nada mais é que uma prática de libertação e transgressão. Desqualificar a Marcha das Vadias por seu nome ou pelo deboche ou por suas manifestantes seminuas nada mais é que reforçar um machismo latente – sem falar no pseudomoralismo que vejo escorrer pelo canto da boca de quem o diz.



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