Luz do Sol: Declaração de Voto em Marcelo Freixo, por Vera Rodrigues

Foi com a canção Luz do Sol que Caetano Veloso abriu seu show, em apoio à candidatura de Marcelo Freixo, que contou ainda com a presença do Chico Buarque e a participação do Trio Preto+1.  Escolha...

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Foi com a canção Luz do Sol que Caetano Veloso abriu seu show, em apoio à candidatura de Marcelo Freixo, que contou ainda com a presença do Chico Buarque e a participação do Trio Preto+1.  Escolha tão simbólica quanto emblemática, já que não era possível citar Freixo nominalmente, por impedimentos do Tribunal Regional Eleitoral.

Conheci Marcelo Freixo pessoalmente, no debate: Megaeventos e Violações dos Direitos Humanos, promovido pelo Instituto de Planejamento Urbano e Regional da UFRJ (IPPUR)- onde cursei parte do doutorado-, e pelo Comitê Popular Rio Copa e Olimpíadas.

O debate, que ocorreu em abril de 2012, lotou o auditório do IPPUR . O extenso dossiê, lançado na ocasião, denunciou: os mecanismos de transferência do patrimônio público para projetos de interesse do setor privado; os esquemas violentos de remoção forçada da população; a marginalização da pobreza; o profundo desrespeito aos direitos humanos de cidadãos e cidadãs do Rio de Janeiro, que têm sua cidadania negada; o legado da exclusão social como marca de uma administração que entende a cidade como um negócio, visando ao lucro em benefício de muito poucos.

Nessa concepção de cidade, o poder sobre os processos de decisão pertence ao setor privado, sobretudo às empreiteiras. As mesmas que, atualmente, financiam a campanha de um bloco de vinte Partidos, cuja consequência nefasta é o loteamento da cidade para interesses bem distintos das prioridades da população.

A presença de Marcelo Freixo nesse debate – para além do conteúdo e da consistência de sua intervenção -, provocou um efeito inédito: a participação da Associação de Moradores da Maré a dialogar com a universidade.  Uma das representantes da Associação destacou: “estamos aqui ao lado da UFRJ e é a primeira vez que debatemos um tema de nosso interesse, nesse espaço. Geralmente, somos objeto de pesquisa”.  Claro sinal do que estaria por vir, ao longo da campanha.

Algumas semanas após essa discussão, ainda no período que antecedeu o lançamento oficial da candidatura, Marcelo Freixo participou do “Roda Viva”, programa semanal de entrevistas, da TV Cultura. Essa entrevista teve grande repercussão das ideias e da trajetória de Freixo, em âmbito nacional. Um dos temas centrais do programa foi crescimento considerável das milícias no Rio, e o que elas significam em termos de “crime organizado com projeto de poder e apodrecimento do poder público”.  Tema que Freixo conhece como poucos.  Mas ao falar sobre milícias, Freixo evidencia sua concepção de cidade e o fato de que cidadania, no Rio, tem CEP.

Foi significativa a repercussão dessa entrevista.   Durante o programa, Freixo ocupou os “Top Trends” do twitter Brasil, com diversos comentários que ecoavam suas ideias e propostas.

O antropólogo Eduardo Viveiros de Castro tuitou: “Freixo é perigoso. Faz a gente voltar a acreditar na política”.  Ele tinha razão.

Freixo tem a capacidade de mobilizar as pessoas, de incluí-las no debate sobre a cidade, como ficou evidente, desde o início da campanha. Seu discurso é coerente com a trajetória política que construiu. É consistente, honesto, ético. Em tempos de corrupção e peculato institucionalizados, isso não é pouco.

O lançamento oficial da candidatura ocorreu em julho, na Associação Brasileira de Imprensa (ABI). O auditório, com capacidade para mil pessoas, estava lotado. Havia muita gente em pé, e do lado de fora, a acompanhar o evento. A presença de Caetano Veloso, Wagner Moura, Chico Alencar, Randolfe Rodrigues, Milton Temer, entre outros, e da significativa militância de vários Partidos indicava a força que a campanha veio a adquirir.

Esta é uma campanha com pouquíssimos recursos financeiros, já que não aceita financiamento de empreiteiras, nem faz alianças espúrias para uma vitória a qualquer preço. Porém, o engajamento de milhares de pessoas na discussão de um projeto coletivo de cidade não tem preço. É um patrimônio que não se compra. O programa de governo é construído com a participação popular. “As propostas recebidas serão consideradas e, caso se adequem aos princípios que defendemos, serão imediatamente incorporadas, independente de onde venham”.

Em agosto, o que era para ser uma Assembleia de “Jovens com Freixo”, foi espontaneamente transformada em comício, transferida da ABI para a Cinelândia, para abrigar os três mil jovens que compareceram ao evento. Uma das manifestações mais bonitas da campanha.

Os debates que Freixo vem promovendo em todos os bairros do Rio, em universidades, associações e outros espaços também reúnem milhares de pessoas. É igualmente significativa a mobilização de boa parcela da militância, até então adormecida politicamente, nas redes sociais. Basta ver os diversos perfis do twitter, facebook, os vídeos produzidos espontaneamente e os debates com Freixo via twitcam, que têm contado c/ a participação de dois mil internautas, semanalmente.

Moro no Rio há quase quinze anos, e nunca tinha visto nada parecido. Não apenas o que diz respeito às manifestações diversas, mas sobretudo ao debate coletivo de um projeto de cidade. Freixo nos ensina, na prática, o que propôs Boaventura de Souza Santos: é possível democratizar a democracia.

Como escreveu Francisco Bosco, no jornal O Globo:  “Se um homem como Freixo vence as eleições, fica provado que não somos obrigados a andar um passo para trás a fim de dar outro à frente; não somos obrigados a engolir os velhos crápulas da velha política em nome da governabilidade. Seria uma mudança, sem precedentes, da mentalidade política. O Rio tem a chance de iluminar o país. Não a desperdicemos.”

Por todas essas razões e, sobretudo, para que o debate sobre a cidade possa ter continuidade, em larga escala, o Rio precisa de um segundo turno. Haverá um grande comício de campanha na Lapa, no dia 21 de setembro. No momento em que escrevo esse texto, quase oito mil pessoas já confirmaram presença, no facebook. Será outra marca importante de uma campanha histórica.

Debates semanais com Freixo via twitcam ocorrem aos domingos, às 19h. Nossa participação é fundamental.

A competição é muito desigual, o jogo é pesado. Mas como aprendemos com  Bertold Brecht: “Nada deve parecer natural. Nada deve parecer impossível de mudar”.

Vera Rodrigues

Psicóloga e Psicanalista.

Rio de Janeiro, setembro de 2012 .

 

Nota do titular do blog:  Fui convidado por Vera Rodrigues a dar uma declaração de apoio à candidatura de Marcelo Freixo logo depois de ter lido este texto escrito por ela e já publicado em seu Tumblr. Senti que não tinha nada a acrescentar a ele e pedi a Vera, então, a permissão para republicá-lo aqui e subscrevê-lo integralmente. Vera gentilmente acedeu ao meu convite. Esta republicação fica como meu tributo a uma das mais belas, inspiradoras e difíceis campanhas eleitorais dos últimos anos no Brasil. 

 



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10 comments

  1. coelhogalo Responder

    Somos mais felizes quando podemos votar como agora no Rio em Freixo.
    Carioca morando em BH invejo meus amigos cariocas.

    Campanha tão bonita como a de Lula em 89, como a primeira de Gabeira ao governo do estado.

    Mas vou, eu que abandonei o mestrado do Museu no ano do abraço à Lagoa anos atrás, discordar do mestre Eduardo Viveiros de Castro: não dá não para acreditar na política!

    O único voto bom nas circunstâncias atuais é aquele que não leva à vitória matemática!

    Sou Freixo!

  2. Luís Responder

    Enquanto isso os blogueiros e internautas “progressistas” (como eu fiquei com nojo desse adjetivo) estão empenhandos numa campanha de ódio contra o candidato.

    1. André Responder

      Eu acompanho vários blogueiros progressistas e não vi campanha de ódio nos blogs, twitter eu não tenho.

      1. Luís Responder

        Eis aqui o ódio destilado contra o Freixo: http://governismodoencainfantil.tumblr.com/

        Veja e fique com nojo desses “progressistas”.

        1. Jair Fonseca Responder

          Até onde eu vi não vi não encontrei destilaria de ódio.

        2. André Responder

          O link é esse mesmo? As poucas referências ao Freixo são, na maioria, críticas bastante ponderadas.

        3. sergio Responder

          O blogueiro Miguel do Rosário lançou um artigo no ” CAFEZINHO” detonando o Freixo, o PSOL, a zona sul do Rio, etc. Faz uma defesa inacreditável do Eduardo Paes, considerando-o de esquerda. Dá para acreditar? O artigo em questão é: NEOFASCISMO PLAYBOY.

        4. André Responder

          Sérgio, o comportamento do “Leblon” que o Miguel critica é o mesmo que deu origem ao Cansei e outras bobagens indignadas.

  3. Ricardo Responder

    O que me incomoda um pouco no Freixo é a nota udenista da campanha. Por mais que haja a utopia, ela está vindo acompanhada do moralismo típico da Zona Sul carioca. O mesmo que já nos seu Lacerda e quase nos deu Gabeira – veja bem, citei dois opostos porque esse moralismo não escolhe partido, mas escolhe discurso.


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