Resenha de “A esquerda que não teme dizer seu nome”, de Vladimir Safatle

Vladimir Safatle publicou um livro essencial para a esquerda brasileira, tanto no que afirma como no que deixa de afirmar: A esquerda que não teme dizer seu nome (São Paulo: Três Estrelas, 2012)...

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Vladimir Safatle publicou um livro essencial para a esquerda brasileira, tanto no que afirma como no que deixa de afirmar: A esquerda que não teme dizer seu nome (São Paulo: Três Estrelas, 2012) é um libelo curto, de 85 páginas, em defesa do legado da esquerda e centrado em duas ideias básicas, que Safatle define como inegociáveis: a soberania popular e o igualitarismo. O maior mérito do livro é insistir que a esquerda não se acomode aos limites do possível e não se renda à mediocridade do realismo dos pequenos resultados. Uma esquerda que não tem medo de dizer seu nome deve, segundo Safatle, “falar com clareza que sua agenda consiste em superar a democracia parlamentar pela pulverização de mecanismos de poder de participação popular” (51). Esta é uma postura clássica da esquerda, de Marx a Lênin, de Gramsci a Althusser, e que é cada vez mais esquecida hoje, inclusive – e talvez especialmente – por aqueles que falam em nome de um ideário de esquerda. No Brasil, vivemos um período de cada vez mais descompasso entre, por um lado, as referências mobilizadas por certa esquerda, pertencentes a uma tradição revolucionária clássica e, por outro lado, a prática cotidiana dessa mesma esquerda, dedicada a justificar alianças eleitorais com a direita ou com o fisiologismo, legitimar projetos de remoções higienistas de pobres, celebrar a austeridade fiscal e defender projetos que nitidamente exacerbam o caráter monopolista do capitalismo brasileiro, como, por exemplo, a farra barrageira das empreiteiras na Amazônia. Só por falar claramente em superação da democracia parlamentar pela pulverização dos mecanismos de poder popular, o livro de Safatle já seria uma intervenção mais que bem-vinda no debate político brasileiro.

Mas os seus méritos não terminam aí e incluem a referência a um par conceitual cuja descontinuidade é ainda pouco pensada dentro da esquerda: Direito e Justiça. Para isso, Safatle se ancora em Jacques Derrida, para quem a Justiça jamais se reduz ao Direito, já que este tem uma existência positiva e é, portanto, desconstrutível, sendo a Justiça, ao contrário, um horizonte que nunca é redutível a um estado de coisas realmente existente, que jamais é sinônimo de um qualquer ordenamento jurídico ou um conjunto de leis. Se “nenhum ordenamento jurídico pode falar em nome do povo” (47), então impõe-se, para a esquerda que não tema dizer seu nome, outra relação com o conceito de legalidade. Eis aqui o momento de maior coragem do livro de Safatle: a defesa do direito popular à resistência, inclusive à resistência violenta, contra o poder. Na realidade, como mostra bem o autor, o direito ao exercício da soberania popular para além do Estado de Direito é parte constitutiva da tradição liberal, pelo menos desde John Locke. A própria Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789, segunda versão em 1793) estabelece que “todo indivíduo que usurpe a soberania seja assassinado imediatamente pelos homens livres” e que “a resistência à opressão é consequência dos outros direitos do homem”. As constituições francesa, alemã e de vários estados dos EUA contêm cláusulas semelhantes. O direito popular à rebelião violenta contra a opressão não é, portanto, uma exclusividade do pensamento de esquerda, nem muito menos uma ideia extremista, mas um princípio solidamente estabelecido na tradição liberal. É um grande mérito do livro insistir nesse direito numa época em que ele não é defendido sequer em comarcas que se autointitulam de esquerda e num país em que ainda se iguala, por um lado, a violência sistemática, arbitrária de um poder militar que usurpou o Estado e instalou uma ditadura de torturadores e, por outro, os atos de resistência, violentos ou não, daqueles que se sublevavam contra a tirania. A equação entre essas duas coisas é uma das práticas mais obscenas e características da desmemória brasileira, e a insistência de Safatle no direito popular à rebelião é um bom antídoto contra ela.

A soberania popular, incluindo o direito à rebelião violenta contra a opressão, divide espaço no livro com outro princípio, defendido por Safatle, a meu modo de ver, de forma bem mais problemática. Trata-se do princípio do igualitarismo, sem dúvida parte essencial de qualquer programa de esquerda que não tema dizer seu nome, mas que Safatle desmembra em duas metades bem diferentes: por um lado, a luta contra a desigualdade social e econômica, um ideário clássico da esquerda e, por outro, a ideia, bem mais discutível, de que a esquerda deve ser “indiferente às diferenças” no caso das “demandas de reconhecimento”. Na defesa da primeira ideia, Safatle manda um recado claro a certa esquerda brasileira que já se acomodou: “a esquerda deve saber encarnar a urgência daqueles que sentem mais claramente o sofrimento social advindo da precariedade do trabalho, da pauperização e das múltiplas formas de exclusão. Mas é difícil encarnar tal urgência quando se começa a viver em apartamentos de 6,5 milhões de reais” (16). Qualquer semelhança com certas figuras da esquerda partidária e sindical brasileira dos últimos anos não é mera coincidência.

Se nos ativermos ao que o termo igualitarismo sempre significou na tradição do pensamento de esquerda, pelo menos explicitamente, encontraremos essa primeira metade do raciocínio de Safatle, a luta por um mundo em que a apropriação da riqueza produzida não seja benefício de uns poucos. Safatle oferece números contundentes: o PIB dos EUA cresceu 36% entre 1973 e 1995, enquanto o salário-hora dos não executivos, no mesmo período, caiu 14%. Nos países em que as políticas neoliberais se aplicaram sem freios nas últimas décadas, como os EUA, o aumento da desigualdade foi abissal. Aqui, não há ambiguidade quanto ao papel da esquerda: inventar e construir um mundo em que sejam abolidas absurdas disparidades como a existente no Brasil, onde a diferença entre o maior e o menor salário de um banco chega a cem vezes. Até aqui, ninguém que se defina como esquerda – esquerda mesmo – poderia discordar de Safatle.

Na outra compreensão do termo “igualitarismo”, começam os problemas que, a meu ver, são graves no contexto brasileiro de hoje. Safatle dá um salto do igualitarismo como ideal de combate às desigualdades na distribuição de renda para “constatar o esgotamento da diferença como valor maior para a ação política” (27). O capítulo intitulado “Igualdade e a equação da indiferença” é um libelo contra o que Safatle vê como a “transformação da tolerância à diversidade cultural … no problema político fundamental”, o que teria, segundo ele, “provocado uma secundarização de questões marxistas tradicionais vinculadas à centralidade de processos de redistribuição e de conflito de classes na determinação da ação política” (28). Na verdade, Safatle só explicita o que vários pensadores de esquerda não têm tido como assumir nas últimas décadas: a recusa (ou incapacidade, formule-se como se queira) a pensar as diferenças étnicas, sexuais, de gênero e de orientação sexual como parte constitutiva de uma política de esquerda. Safatle chega ao ponto de criticar “aqueles que não veem relação alguma entre fortalecimento dos comunitarismos, retorno da ala mais reacionária do catolicismo e política multicultural das diferenças” (33), como se essa relação fosse óbvia ou estivesse demonstrada no livro. Segundo Safatle, esses três elementos seriam parte de uma mesma “procura pela reconstituição social de vínculos identitários”, na qual o perigo seria a “veleidade comunitarista ou a entificação da diferença” (34). Para o autor, as políticas ancoradas no reconhecimento das diferenças étnicas, nacionais, de gênero e sexuais “procuram atomizar a sociedade por meio de uma lógica estanque […] que funciona, basicamente, no plano cultural e ignora os planos político e econômico” (35). Eis aqui a repetição de outro lugar comum que a esquerda tem sido incapaz de repensar: a estranha ideia de que a luta em torno a direitos indígenas ou quilombolas, por exemplo, é “cultural” e a luta de esquerda clássica, centrada nas classes sociais, é “política”.

Circulam, nesse argumento, uma série de termos que, em seu sentido às vezes equívoco, dão uma dimensão do problema: “atomizar”, “veleidade comunitarista”, “entificação da diferença”, “cultural e não econômico” são alguns dos eixos do argumento do universalismo esquerdista. Por mais que o sentido dos termos seja confuso, como veremos, o argumento parece claro: no fundo, que essa história de colocar lutas afro-brasileiras, indígenas, feministas e anti-homofóbicas no mesmo plano das lutas tradicionais da esquerda, ancoradas na classe operária, só pode levar à “lógica estanque” da “atomização”. Aqui, é curioso notar que Safatle associe as questões identitárias com a ideia de “reconstituição”. Para populações como as indígenas brasileiras, nada poderia estar mais distante do que está em jogo do que a ideia de “reconstituição” de um vínculo identitário perdido. O próprio uso do termo “reconstituição” já é revelador de como a esquerda brasileira tem pensado as populações indígenas, sempre no registro do passado, como se as identidades fossem algo a se recuperar ou resgatar, e como se indígenas ou quilombolas não fossem protagonistas presentes nas lutas políticas brasileiras. A identificação, feita por Safatle, entre a “política cultural das diferenças” e o “fortalecimento dos comunitarismos” não se diferencia muito da retórica de comentaristas de direita como Demétrio Magnoli e Yvonne Maggie (sempre prontos a culpar os “particularismos” e os “racialistas” pela emergência dessa incômoda coisa chamada racismo, que não existia quando os “racialistas” negros estavam calados), por mais, claro, que Safatle seja um pensador muito mais sofisticado que qualquer um dos dois citados.

A prova dessa diferença na sofisticação é que Safatle antecipa essa objeção e insiste que “a crítica à sociedade multicultural aqui proposta nada tem a ver com o medo de que o cosmopolitismo e o relativismo cultural vão provocar uma erosão das bases de nossos valores ocidentais” (35). O medo descrito na oração subordinada é característico, como sabemos, da retórica da direita, especialmente, mas não só, na Europa. Mas aqui não custa introduzir uma dúvida: será? Será mesmo? A insistência, presente no livro de Safatle, na indispensabilidade do Estado não seria o mais ocidental dos valores? Será que o argumento de que as lutas “culturais” de indígenas, negros, mulheres e gays “atomiza” a luta verdadeiramente importante vem de matriz tão diferente assim do argumento de direita, de que esses “particularismos” são uma ameaça nefasta? Será que o receio da esquerda à la Safatle, de que a proliferação de diferenças solape o poder universalista do Estado realmente não tem nenhum parentesco com o receio da direita, de que a proliferação das diferenças solape “os valores ocidentais”? A pura e simples afirmação de que esse parentesco não existe não a torna verdadeira.

Segundo Safatle, “da esquerda espera-se um detalhamento minucioso dos processos governamentais que devem ser postos em prática para realizar suas propostas” (77). Mas impõe-se aqui a pergunta: como reconciliar isso com o postulado de que “o que devemos fazer é não recusar esses processos contingentes e inesperados que têm a força de romper o tempo” (75)? O que fazer quando a irrupção dos processos contingentes jogam por terra o “detalhamento minucioso” dos “processos governamentais”? Para usar um exemplo concreto e brasileiro: será que o governo de centro-esquerda, liderado por um partido supostamente de esquerda, está atento à enorme insatisfação que vai se gestando no interior dos movimentos populares, entre quilombolas, indígenas, gays, lésbicas, ribeirinhos, instâncias daquelas diferenças às quais, segundo Safatle, a esquerda deveria ser indiferente? Será que, quando e se essa insatisfação eclodir e “romper o tempo”, o “detalhamento minucioso dos processos governamentais” será capaz de contê-las ou representá-las? No caso que é mais provável, o negativo, que legitimidade restará a essa esquerda então?

Em A esquerda que não teme dizer seu nome, Safatle volta a repetir um conhecido mantra dessa corrente, a de que a filosofia da história de Hegel “não foi bem compreendida” (e que, aí já concluo eu, bastaria compreendê-la corretamente para que o problema se resolvesse). Pode ser que essa “má compreensão” seja um fato. Mas o que é fato cabal também é que a esquerda hegeliano-marxista brasileira jamais considerou com cuidado, ou refutou, argumentos como os do professor cubano radicado na Bahia, Carlos Moore que, em O marxismo e a questão racial, mostrou, com abundantes citações, como há um núcleo estruturalmente racista no interior do pensamento marxiano, visível nos elogios à escravidão como força modernizadora, nas muitas referências ao “atraso” de africanos, aborígenes, asiáticos e ameríndios, e nas justificativas à pilhagem e à carnificina fora da Europa como base para o desenvolvimento, para ficar em três exemplos óbvios.

Creio firmemente em ater-me ao texto que se discute e em não usar quaisquer menções às posições institucionais ou geográficas de seus autores como parte da argumentação. Mas aqui, não custa lembrar a filiação (intelectual, não é a pessoal que importa) de Safatle às correntes hegemônicas no pensamento de esquerda brasileiro do último século, a saber, as ciências humanas e sociais produzidas no estado de São Paulo, especialmente na USP. Safatle se instala na franja esquerda desse pensamento ao defender, de forma corajosa, os mecanismos do poder popular para além do Estado democrático de direito. Mas repete a endêmica incapacidade desse pensamento de refletir sobre as lutas das comunidades étnicas, raciais, de gênero e de orientação sexual a não ser como apêndices desimportantes à luta principal. A esquerda uspiana segue defendendo seu universalismo hegeliano-marxista sem considerar a hipótese de que ele seja menos universal do que parece.

Em outras palavras, e em bom português: a esquerda paulista precisa visitar o Xingu. A esquerda uspiana precisa considerar, a sério, a possibilidade de que as críticas a Hegel, Marx e Adorno não vêm somente de pessoas que “não entenderam” suas obras. A esquerda hegeliano-marxista tem que questionar esse estranho esquema de pensamento segundo o qual a luta de classes industrial é “política” e a luta dos quilombolas é “cultural”. Que a esquerda paulistana lute para desalojar a direita da prefeitura, mas que não se esqueça do que os seus aliados sul-matogrossenses fazem contra os Guarani Kaiowá (a estas alturas, quase todo mundo já descobriu, mas continua agindo como se não soubesse). Que a esquerda hegeliano-marxista repense o seu uso dos verbos “voltar”, “regressar”, “recuperar” e “restaurar” sempre que se trata da defesa das formas de vida indígenas. Ao contrário, o preço a pagar pode ser a crescente indistinção entre a esquerda que não teme dizer seu nome e a esquerda que não ousa dizer seu nome, curiosíssimo e revelador ato falho cometido por alguns perfis de esquerda na divulgação do ótimo livro de Safatle na internet.



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26 comments

  1. Patrick Responder

    Muito feliz a sua resenha, Idelber. Eu tinha esse sentimento de estranhamento em relação a esse “deixa pra lá” que alguns pensadores de esquerda tem em relação aos movimentos sociais que você relacionou, mas ainda não tinha lido uma análise com a precisão e o refinamento da sua.

    Pra você ver como deixar essas bandeiras em segundo plano acaba prejudicando a atuação do próprio intelectual de esquerda, lembrei de um artigo recente de Safatle na CartaCapital. A pretexto de de defender o fundador do Wikileaks, o professor critica a hipótese de ser qualificado como um estupro o ato do homem prosseguir forçosamente um ato sexual se em dado momento a mulher muda de ideia e diz não (*), o que – até onde eu sei – não é a linha de defesa do próprio Assange.

    (*) “É verdade que a definição de estupro pela legislação sueca é mais flexível do que a habitual. Ela engloba imagens como: um homem e uma mulher que estão na cama de comum acordo, sem nenhum tipo de coerção, mas que, em um dado momento, veem a situação modificada pelo fato de a garota dizer “não” e mesmo assim ser, de alguma forma, forçada.” Fonte: Vladimir Safatle: A mídia mundial não tem direito à ambiguidade no caso Assange

    1. Idelber Avelar Responder

      Muito infeliz o parágrafo. Não é preciso disso. Há todas as razões do mundo para se duvidar da acusação de estupro a Assange sem relativizar a definição de estupro. E, reitere-se, Assange jamais se negou a responder a acusação e encarar as autoridades suecas. Só quer garantias de que não será extraditado aos EUA, o que me parece muito razoável.

      Abração, Patrick.

  2. thiago Responder

    Minha monografia de final de curso na faculdade passa por aí. E minha base tem sido o livro A Luta Por Reconhecimento, do Axel Honneth.

    Apesar de uma quantidade bem razoável de conceitos que eu não concordo na obra, o que mais me atraiu foi justamente o fato de Honneth por, como questão central, a luta por reconhecimento de cada grupo. Mesmo a questão econômica fica em segundo plano.

    Só o que costumo chamar a atenção é que estas lutas “culturais” (para usar o termo do Safatle, e cuja crítica feita por você eu concordo inteiramente) também “sopram de lá pra cá”. Ou seja, em termos subjetivos, a investimento emocional e material feito pela ampliação de direitos e poderes dos religiosos e dos latifundiários (por exemplo) é parecido, e muito forte. E é justamente porque o vento sopra dos dois lados que eu discordo inteiramente da idéia de Progresso, pano de fundo de tantas correntes política, inclusive da esquerda paulista.

    Quero dizer, estas lutas ditas pejorativamente “culturais” são absolutamente essenciais. Se estas lutas não forem tratadas como primordiais, o que acontece é o aniquilamento destes grupos.

  3. outro Edson Responder

    Essa é a resposta mais expressiva e completa que eu já li àquela enorme parcela da esquerda tradicional brasileira que rotula como “desagregadoras” as lutas identitárias que não se encaixam no seu restrito conceito de classe.

    1. Idelber Avelar Responder

      Gracias, Edson!

  4. Fabiano Camilo Responder

    Idelber querido,

    queria escrever um comentário, mas estou prestes a fazer uma pequena viagem. Então, vou me limitar a lhe agradecer pelo texto, com críticas ponderadas e justas às ideias de Safatle acerca do multiculturalismo e das políticas identitárias, ideias estas que, antes da publicação do livro, ele já vinha expondo em artigos de jornais e revistas e que me deixaram impressionado, negativamente, claro. Foi uma satisfação ler seu texto. Obrigado!

    Um abraço!

    1. Idelber Avelar Responder

      Feliz que gostou da resenha, querido! Boa viagem!

  5. Emil Responder

    Olá, Idelber.

    Aceito integralmente a crítica à esquerda uspiana, que realmente tem muita dificuldade de “pensar as diferenças étnicas, sexuais, de gênero e de orientação sexual como parte constitutiva de uma política de esquerda”, mesmo quando se pensa numa esquerda que não seja vinculada ao PT — quando vinculada ao PT, essa dificuldade é usada como venda cínica para a aliança com setores evangélicos e capitulação a eles, para dar mais um exemplo além dos que já estão na sua resenha. (Aceito porque estou me formando na USP, e percebo minha debilidade teórica para com o tema)

    Entretanto, fiquei com uma pequena dúvida, e achei que valia a discussão. Ainda não li o livro do Safatle, mas me pergunto se o esgotamento que ele vê na política de diferença e “transformação da tolerância à diversidade cultural … no problema político fundamental” manteria alguma relação com o que o Eagleton escreveu principalmente em Ideologia da Estética e As Ilusões do Pós-Modernismo.

    Resumindo bem porcamente, o que o Eagleton diz é o seguinte: qualquer esquerda que não revir suas práticas após as questões de gênero, etnia, orientação sexual, etc., e continuar branca, masculina e heterossexual, é uma esquerda inútil. Porém, temas tradicionais da esquerda, embora possam ser repensados à essa luz, não devem ser simplesmente abandonados (e aí eu já encaixo o Zizek aqui falando de uma certa esquerda europeia que deixou de falar em luta de classes porque isso afastava o eleitorado, o resultado disso foi o crescimento do neonazismo nas periferias, porque a extrema direita passou a ser o único grupo político a manter a luta de classes em pauta).

    Enfim, fica aí minha dúvida. Claro, tem que bater sim, e com força na nossa incapacidade de lidar com essas questões, ainda mais sob o atual governo petista promovendo o avanço do capital sobre as comunidades indígenas, ribeirinhas, quilombolas, capitulando aos evangélicos a garantia da cidadania aos LGBTs , etc. Só que o ataque à política de diferença de identidade quando isolada de outros temas clássicos da esquerda (obviamente, não é o que você construiu ali na sua resenha), ainda que soe como defesa cínica, não se apóia numa fraqueza concreta?

    1. Idelber Avelar Responder

      Opa, Emil, muito obrigado pelo comentário tão rico e que, infelizmente, a esta hora da madrugada, eu não vou poder responder com o vagar que ele merece. Mas eu diria, curto e grosso, que, do ponto de vista das lutas quilombola e indígena hoje no Brasil, não me parece que esquecer a luta anticapitalista seja uma opção.

      Pelo contrário, quem anda questionando a voracidade do capitalismo de empreiteiras brasileiro hoje são esses movimentos, muito mais que o tradicional movimento operário. Em outras palavras, e aqui volto a algo apontado na resenha: a separação entre as lutas “identitárias” (como Safatle as chama, eu prefiro chamá-las de outra forma) e a luta anticapitalista pode existir dentro de certos esquemas de pensamento (o uspiano é um deles), mas essa separação não está colocada, me parece, nas lutas reais que acontecem no Xingu, no Quilombo Rio dos Macacos etc.

      Enfim, eu teria muito mais a dizer sobre seu excelente comentário, mas vai ficar para outro momento. Muito obrigado e um abraço!

  6. Vinícius de Melo Justo Responder

    Não sei se você leu ou não, ou se leu e achou uma merda, hehe. Mas vê aí, Idelber, se tem como a gente conversar sobre o assunto:

    http://www.amalgama.blog.br/07/2012/a-esquerda-que-nao-teme-dizer-seu-nome-vladimir-safatle/

    1. Idelber Avelar Responder

      Opa, Vinícius, infelizmente eu não tinha lido, camarada e, como terá ficado claro, havia muitos pontos de contato que eu poderia ter explorado. O Amálgama saiu do meu radar durante umas semanas e eu acabei perdendo sua excelente resenha. Deixemos essas interseções aí para bater bola num futuro próximo. Abração!

  7. Pedro Marques Responder

    Acho até que comentei isto contigo no twitter Idelber, mas quero reiterar: eu tenho a impressão de que essas falhas que você aponta no texto do Safatle estão muito ligadas ao impressionante desinteresse interessado que praticam as esquerdas tradicionais (e também ua boa parte das ciências sociais tradicionais) no que se refere ao chamado pensamento pós-estruturalista/pós-colonialista. Nesses dois campos, tudo se passa como se Derrida (pra citar o exemplo de alguém que, pelo visto, nós dois gostamos) não tivesse existido.

  8. Juarez Silva (Manaus) Responder

    Parabéns Ildeber, simplesmente “supimpa” como se diria antigamente, apesar de não ter feito referência, a crítica ao “universalismo” da pretendida “esquerda de raiz” (que tem a grande dificuldade de anexar as demandas de recortes variados à pura e simples ideia de luta de classes do proletariado contra o capital), me remeteu à gigantesca luta travada por CLÓVIS MOURA , justamente no sentido de “desengessar” esse entendimento de seus companheiros de esquerda, incluindo o viés da luta negra como importante elemento PARALELO e co-protagonista de análise contextual e bandeira de luta. De fato, mais que uma possível indistinção entre AS esquerdas, o discurso universalista na realidade leva à uma indistinção com relação à direita metaracista, metasexista e todos meta ISTAS e ICAS possíveis.

    1. Idelber Avelar Responder

      Feliz que você gostou da resenha, caro Juarez. A ideia era essa mesma, levantar alguns pontos que nos ajudassem a pensar criticamente o ~universalismo~ nosso de cada dia.

  9. Idelber Avelar Responder

    Eu avisei no Twitter mas falta avisar aqui: nós estamos implantando um novo sistema na Fórum e o resultado é que eu não consigo aprovar comentários. Eu não consigo sequer visualizar quais comentários estão esperando aprovação. Os comentários que entraram foram de pessoas que já haviam comentado no blogue antes — e que portanto entram automaticamente.

    Deve haver outros comentários esperando aprovação, mas infelizmente eu não consigo ter acesso a eles. Deixo o aviso porque alguém pode estar pensando que está sendo “censurado”, o que evidentemente não é o caso.

    Peço desculpas pelo inconveniente, estamos tentando solucioná-lo.

  10. antonio prates Responder

    que esquerda paulista? se ela existe não é um bloco, não se reduz a uma corrente, e se se fizesse justiça a ela ,se veria que ela contribui para pensar os novos movimentos sociais desde os anos 80, com Eder Sader e Chauí, para ficar em dois exemplos, ao contrário do que dizem os néofitos do culturalismo. um pouco de universalismo seria bom inclusive para superar esses ressentimentos contra paulistas, por que só existe uma esquerda paulista e não também carioca, mineira, bahiana etc…,? Faça-me o favor.

  11. Monica Stival Responder

    Para conversar com sua ótima resenha, envio um texto meu sobre a posição do Safatle.

    (peço a gentleza de “dar um desconto” ao estilo, já que o comentário foi escrito um pouco no calor da hora, desopilando o fígado…)

    http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/resposta-a-vladimir-safatle

  12. Arthur Santos Responder

    Entendo que a crítica ao Safatle seja pertinente, mas as demandas de políticas de reconhecimento também não passam incólume pelo mesmo escrutínio.

  13. alfredo manevy Responder

    Caro Idelber, não li o livro do Safatle ainda (e seu texto é um convite à leitura), mas, no alcance mais geral do teu artigo aqui na Forum, concordo que existe um erro em tornar secundárias as demandas de reconhecimento numa agenda de esquerda. Especialmente porque nas lutas de quilombolas e indígenas (ou do hip hop, do fora do eixo, e de outros tantos movimentos culturais urbanos) o que está em pauta é algo mais que identidade, pois se trata da afirmação do direito a modos de viver e projetar o futuro que são descartados pelo capitalismo contemporâneo. Trata-se de entender que democracia não se esgota apenas no voto, ou na luta pelo Estado, e por políticas universais, mas também deve envolver tb modos de vida, de língua, de organização social. Aqui, é um nítido caso onde não se pode separar cultura, social, e política, como se não houvesse um agudo componente político nas demandas simbólicas. Ou nos saberes tradicionais. Modos de produzir conhecimento que nossa forma de institucionalizar o saber (pelos sistemas de ensino) também relega a segundo plano, enquanto o alto capitalismo transforma em patentes. Creio que foi um dos acertos do governo Lula, afirmar a diversidade cultural como um valor importante que deve regular a ação do Estado brasileiro. Mesmo que essa diretriz – efetivada no MinC – tenha enfrentado resistência e sido derrotada em muitos dos projetos que você lembrou, como as hidrelétricas.

    O que me parece importante que a esquerda compreenda, é que a valorização das diferenças é que viabiliza o universal. Uma política só chega a todo mundo – de forma benéfica – quando contempla diferenças. Isso do ponto de vista de algumas políticas sociais, já foi inclusive superado no Brasil. Quando o bolsa família e o SUS se articulam com políticas de cotas, de GLBT, ou de gênero, o que se realiza é a possibilidade de entender a complementariedade dos dois movimentos: um universal, e outro, mais focado. Não existe oposição entre reconhecer diferenças e universalizar. Isso uma parte da esquerda que chegou ao poder no Brasil já demonstrou que é possível. O rival da diferença não é o universal, mas o economicismo, e o desenvolvimentismo. Acho que Safalte centrou fogo na direção errada. São eles (o pensamentro economicista de parte da esquerda) que desequlibram o jogo em favor da padronização de modos de consumo, de cidades e de integração. São eles que evitam o igualitarismo. E deve-se lebrar que as difernças culturais são sustentadas cada vez mais por minorias do andar mais baixo da sociedade. Por outro lado, as diferenças não são apenas importantes para os grupos que demandam reconhecimento, como se tratasse de uma atenção compensatória. As diferenças são fundamentais para toda a sociedade, pois repercutem na capacidade de viver com o diferente, tornando nossa vida democrática mais rica e complexa.

    Citei alguns aspectos do gov. Lula, mas é evidente que o quadro é desolador para a diversidade cultural brasileira. avançamos muito pouco na incorporação plena do direito à diferença seja no marco jurídico brasileiro, seja no aparato de Estado. Do ponto de vista legal mais amplo o Estado brasileiro não apenas é incapaz de realizar os direitos universais, como também tem um DNA autoritário que o impede de dialogar com as diferenças culturais. São tanto os exemplos, que é impossível citar só um. Aqui, a não incorporação plena por parte da esquerda (especialmente a que chega ao poder) pode ser faltal para alguns avanços. Não se trata apenas de uma discussão sob o ponto de vista dos partidos de esquerda, mas do ponto de vista institucional mais amplo, pois envolve os três poderes da república, os marcos legais e institucionais. Problema da esquerda que reverbera uma deficência mais geral da sociedade. Um exemplo é que na sociedade brasileira a maior parte da população desconsidera que o Brasil tem mais de 220 línguas indígenas.

    parabéns Idelber porque sua análise é um exemplo de respeito ao autor / interlocutor, sem perder a verve crítica. É nítido o respeito e cuidado com que você tratou o livro. É um convite elegantíssimo ao debate; debate que tanto faz falta nos meios de comunicação e na própria universidade da qual eu, vc, o safatle, fazemos parte.

    abraços

    alfredo manevy

  14. Idelber Avelar Responder

    Grande Alfredo, que prazer tê-lo por aqui. Obrigado por esse rico comentário, com o qual coincido totalmente. Com efeito, não há oposição entre as diferenças e o universalizar, entendido no sentido em que tem o termo quando falamos da política universalista do Bolsa-Família. O problema aí, como você viu bem, é um universalismo que toma sua própria particularidade como porta-voz e modelo para o todo. Nisso a esquerda ainda terá, me parece, que trabalhar muito.

    Saudades dos nossos papos em Madri. Um abração.

  15. Luiz Responder

    Ainda que não tenha lido o livro e me atendo ao seu texto e às ideias contidas nele, para mim, não há como discordar disso que você, Idelber, afirma. Tanto quando julga os méritos do livro do Safatle: a questão do direito à resistência como crítica à disseminação de um conservadorismo entre as esquerdas com aquela conversa de respeito às regras do jogo democrático – verniz desse conservadorismo -, quando o próprio “jogo” é violento contra alguns; quanto sobre os deméritos: a desconsideração, ou a diminuição da importância das questões “culturais”, “simbólicas” nas lutas pela transformação política e social. Há um texto da filósofa estadunidense Judith Butler que, até hoje, a despeito da linguagem truncada ou alguns erros ou ainda a sustentação da argumentação sobre teorias que possam ser algo duvidosas como aquelas da psicanálise, foi a melhor coisa que já encontrei como uma crítica direta à essa cegueira das esquerdas tradicionais. O texto se chama “Merely cultural”, publicado na New Left Review (I/227 january-february 1998), facilmente encontrável online (para o caso de não conhecê-lo, é claro). Nesse texto ela faz uma crítica na mesma linha da apresentada por você nessa resenha, mostrando que através da cultura a própria dominação política e economica se sustentam e que o direito à diferença e a recusa dessa unidade imposta e homogeneizante é o que está em jogo nesses movimentos ditos pejorativamente “meramente culturais”. Parece-me, ainda, que depois de Foucault mas também de Bourdieu, é difícil negar o peso, para o primeiro, das práticas cotidianas como representativas dos “micropoderes” sustentando formações mais amplas de poder e consequentemente a resistência a partir de problemas “particulares” como forma de transformação social e, para o segundo, o papel dos esquemas simbólicos de legitimação de práticas sociais como sustentáculos da dominação política e econômica (reprodução da dominação, atribuição de significado como forma de dominação social etc.). Enfim, a pregação dessa “indiferença às diferenças”, parece, decorre do próprio lugar ocupado e da reprodução de preconceitos não assumidos, ou seja, uma tentativa de interpretação política de quem está bem integrado nos esquemas de representação dominantes e não se propõe se colocar em outra posição, que não ocupa ou ocupou um desses lugares “diferentes” e que, portanto, é incapaz de reconhecer legitimidade ao sofrimento e à reivindicação desses grupos e pessoas, quando, na verdade, são as próprias formas de vidas dessas pessoas que estão em jogo. Trocando em miúdos, difícil para uma classe média ou elite, intelectualizada que seja, cujo ‘”estilo de vida” é o dominante, ver importância na luta, por exemplo, de um indígena que resiste “apenas” com a finalidade de poder continuar vivendo sua vida como mais lhe “apraza”.

  16. Idelber Avelar Responder

    É excelente o artigo da Judith Butler recomendado pelo Luiz, eu também recomendo com muita ênfase. Está fechado no site da New Left Review, mas ele foi pirateado aqui:

    http://irefusenik.blogspot.com/2012/06/merely-cultural-judith-butler.html

  17. Pedro Mandagará Responder

    Ótima resenha! Me deixou com muita vontade de ler o livro, mas, por enquanto, queria tirar uma dúvida: li artigos do Safatle na Carta Capital, nos últimos meses, que giravam em torno destes assuntos. Alguns pareciam uma glosa de textos do Zizek sobre multiculturalismo, o papel do Estado, etc, mas não encontrei o nome deste citado. Consideras que há mesmo uma semelhança grande, ou o Safatle traz uma contribuição nova ao debate? Abraço!

    1. Idelber Avelar Responder

      Pedro, difícil de julgar assim, em abstrato. Prefiro trabalhar com o texto concreto na minha frente, inclusive para fazer justiça ao trabalho do Safatle. Abraço.

      1. Pedro Mandagará Responder

        Opa. Estava pensando neste texto aqui, que retoma uma questão (do casamento) que Safatle tinha introduzido em debate pela imprensa com Caetano:

        http://www.cartacapital.com.br/sociedade/atomizacao-social/?autor=264

        Minha impressão foi de que Safatle, com esta “indiferença”, retoma a “intolerância” que Zizek defende como postura política (por exemplo em http://www.lacan.com/zizek-inquiry.html). Como os artigos da Carta são curtos, sobram muitas dúvidas.

  18. Delfim Bisnetto Responder

    Antes de qualquer coisa, Safatle merece levar umas cacetadas por achar que a má interpretação da filosofia da história de Hegel e um programa efetivo para a esquerda atual podem ser tratados (seriamente) em um livro panfletário de 90 páginas. Sobre isso só gostaria de ressaltar que entre as interpretações equivocadas de Hegel Safatle incluiria facilmente boa parte da “esquerda hegeliano-marxista brasileira”, inclusive o marxismo uspiano frente ao qual sua leitura é inequivocamente heterodoxa simplesmente por achar que Hegel é mais importante que Marx como fundamento para uma compreensão da ação social.

    Mas, ao que interessa: não li todos os comentários, portanto, pode ser que eu esteja repetindo algo, mas o que certamente tem sido mal interpretado é essa questão do “esgotamento da diferença como valor político fundamental”. Não estou com o livro em mãos para fundamentar em citações, mas a ideia fundamental de Safatle é que as lutas “particularistas” por reconhecimento das diferenças (e aí ele está pensando basicamente nos movimentos de raça, etnia e gênero) só adquirem seu sentido político “de esquerda” na medida em que traduzam a aspiração por uma igualdade negada pelo ordenamento social. Fora dessa aspiração, esse reconhecimento pode ser facilmente instrumentalizado por objetivos “de direita”.

    O que Safatle que dizer com isso é muito simples: que camisa “100% Negro” pode e camisa “100% Branco” não pode porque a primeira é a afirmação de um dominado querendo suprimir a dominação (e, portanto, estabelecer uma relação de igualdade) e a segunda, de um dominante querendo reforçar a dominação (e, portanto, bloquear a possibilidade de igualdade). Ou, num exemplo menos babaca: que o movimento pela diferença do imigrante argelino tem sentido político diferente do movimento pela diferença do nacionalismo francês.

    Em outras palavras: o que ele quer mostrar é como manifestações formalmente idênticas do ponto de vista da afirmação da diferença adquirem sentido político diferente justamente por sua relação com o problema da igualdade. Não é que há uma luta principal “de esquerda” e lutas secundárias particularistas por reconhecimento que seriam secundárias. Há SOMENTE lutas particularistas, mas essas lutas podem ter um sentido político de esquerda ou de direita.

    A “indiferença às diferenças” aí não aponta para um conteúdo programático no presente, mas para um horizonte algo utópico onde a coletividade não precise tratar de questões como raça, gênero, sexualidade etc. simplesmente porque tais questões não estão envoltas em problemas de discriminação e dominação social e, portanto, não adquirem sentido político.

    Sobre a questão dos direitos indígenas, ela não aparece no livro e, antes de situá-las como um contra-exemplo da compreensão de Safatle sobre o sentido político da diferença, temos que pensar se elas realmente são comparáveis a outros movimentos clássicos da diferença, como o feminista ou o negro. Nesse caso, tratava-se de corrigir uma série de tratamentos prejudiciais (de caráter legal, cultural ou histórico) reservados a determinados grupos, no interior de um ordenamento civil. Eu não sei até que ponto esse modelo se aplica às lutas indígenas em questão: muito pouco entendo delas, mas, a princípio, diria que se tratam mais de reivindicações por reconhecimento de autonomia territorial e de organização social. Pode ser até uma forma mais radical de afirmação da diferença, mas certamente nada tem que ver com as aspirações LGBTs.


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