Delmiro Gouveia, o senhor da Pedra

A história do controverso empreendedor que transformou um povoado no sertão nordestino em polo industrial no início do século XX, cujo legado ainda vive nas ruas da cidade que leva seu nome

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A história do controverso empreendedor que transformou um povoado no sertão nordestino em polo industrial no início do século XX, cujo legado ainda vive nas ruas da cidade que leva seu nome

Por José Paulo Borges

Encravada no extremo oeste do estado de Alagoas, na divisa com Bahia, Pernambuco e Sergipe, em pleno Polígono das Secas, Delmiro Gouveia (a cidade), hoje em dia, nem de longe lembra o povoado da Pedra da época em que Delmiro Gouveia (o homem) chegou por essas bandas, em 1903. A economia da cidade de 48 mil habitantes, distante 290 quilômetros da capital Maceió, se baseia na indústria têxtil, no comércio, na agricultura e na pecuária. As ruas da área urbana são limpas e bem cuidadas, 40% estão pavimentadas e a iluminação chega a todas elas. O bode e o peixe tucunaré são as delícias da culinária local, mas o extrativismo para a produção de carvão vegetal e lenha já deixa marcas na caatinga.

E o que era Pedra no início do século passado? Um lugarejo cercado por grandes rochas, com escassas casinhas de taipa cobertas com folhas de sapé, paredes de pau a pique e chão de terra batida, construídas nas proximidades de uma pequena estação ferroviária da Great Western, que dera origem ao povoado. A água vinha de longe e chegava no trem semanal, por iss, o banho era um luxo reservado a datas especiais e, mesmo assim, quando sobrava água. As pessoas viviam descalças e usavam as mãos no lugar de talheres. Foi nessa beira do fim do mundo que Delmiro Augusto da Cruz Gouveia – um empreendedor atrevido, visionário e excêntrico – protagonizou a saga empresarial de construção da primeira hidrelétrica no semiárido brasileiro, aproveitando as águas do São Francisco. A hidrelétrica gerou energia que movimentou os teares da primeira fábrica de linhas de coser do País, produzidas por operários que receberam benefícios inimagináveis para a época, como pagamento semanal, educação para os filhos e assistência médica.

Fruto de um caso extraconjugal entre Delmiro Porfírio de Farias – exímio vaqueiro e um dos “voluntários da Pátria” da Guerra do Paraguai, morto no conflito – e Leonilda Flora da Cruz Gouveia, a bonita “Dona Moça”, Delmiro Gouveia nasceu em Ipu, hoje distrito de Pires Ferreira, no Ceará, em 5 de junho de 1863 – há quem afirme que foi outra data. Em 1868, empurrada pelas vicissitudes da vida, Dona Moça levou os filhos Delmiro Augusto e Maria Augusta para Recife. Com 15 anos, após a morte prematura da mãe, Delmiro teve de desistir dos estudos, que não foram muitos, e foi trabalhar como bilheteiro no “maxambomba”, trem que fazia a linha entre Recife e Olinda. Como se esforçava para aprender o inglês dos patrões, donos da ferrovia, e trabalhava duro, logo foi promovido.

Inquieto, abandonou a segurança daquele emprego e se jogou na vida de empreendedor. Não demorou muito, lá estava ele conduzindo mercadorias em lombo de burros, que eram comercializadas em pequenas comunidades, sertão afora. Também trabalhou na Alfândega do Recife, onde aperfeiçoou seu inglês e conheceu o comércio de peles de bodes, carneiros e ovelhas (chamados “courinhos”). Após muitas idas e vindas, sucessos e fracassos, adquiriu tamanha habilidade no ofício – e fortuna – que ganhou o título de “rei das peles”.

“Ele não era um filantropo com vocação para santo, longe disso, era um empresário com todos os vícios, virtudes e defeitos da sociedade de seu tempo”, sintetiza o engenheiro, escritor e empresário Alberto Gonçalves, de Ribeirão Preto (SP), estudioso da vida e obra de Delmiro Gouveia.

Sua vida no Recife passou a ser um desvario de extravagâncias, excentricidades e – mesmo casado – muitas mulheres. Mas não se descuidou dos negócios. Quanto mais enriquecia, mais expandia seu império. No antigo prado da Magdalena, arredores da cidade, onde todos viam apenas manguezais, Delmiro vislumbrou um empreendimento. Em 1899, ergueu no local o Mercado Modelo do Derby. O prédio tinha 18 grandes portões de acesso, 112 janelas, 264 pequenas lojas, um luxuoso hotel, o primeiro de padrão internacional do Recife, um velódromo – onde eram disputadas concorridas provas de bicicleta – e um centro de diversões e lazer, além de um restaurante considerado um dos melhores da América Latina na época. No final do século XIX, sem suspeitar, Delmiro Gouveia havia concebido um dos primeiros shopping centers do mundo. “Os conceitos introduzidos, a ousadia empresarial e a antevisão do futuro foram verdadeiramente revolucionários. Certamente, se tivesse realizado sua obra em um país diferente, hoje seria objeto de estudos e referência nos principais manuais de marketing, economia e negócios”, acredita Alberto Gonçalves.

Fuga para Pedra

Na madrugada de 2 de janeiro de 1900, o alarme soou na Companhia de Bombeiros de Recife. Derby estava em chamas. Sob o pretexto de investigar a origem do incêndio, vários colaboradores de Delmiro foram detidos. O próprio empresário foi preso por uma tropa numerosa, com direito a parada nas principais ruas do centro velho de Recife, até a chegada à prisão. Em protesto, naquele dia, os bancos e o comércio não funcionaram. Mas a bancarrota foi inevitável.

Como se não bastasse, em 1902, ele rapta Carmela Eulina do Amaral Gusmão, então com 15 anos, e viveu com ela rumoroso caso passional. O escândalo desencadeou um processo judicial por rapto e sedução de menor. Para escapar à ordem de prisão, embarcou incógnito num navio com destino ao antigo porto fluvial de Penedo (AL), às margens do São Francisco. Em 1903, desembarcou na pequena estação do povoado da Pedra.

Delmiro foi bem recebido pela oligarquia local e logo se estabeleceu no ramo que melhor conhecia, o negócio de couro de bois e pele de cabras. Sem alarde, foi comprando todas as terras do entorno da estação até o São Francisco. Aos poucos, foi se firmando como um dos maiores latifundiários da região, com terras que alcançavam a cachoeira de Paulo Afonso. Em fevereiro de 1903, obteve um habeas corpus que o manteve em liberdade, mas a decisão de permanecer na Pedra já estava tomada.

O foco de seus negócios continuava a ser a produção de “courinhos”, com ênfase no mercado externo. A seca, porém, obrigou-o a reduzir a produção a níveis mínimos. As dificuldades o levaram a pensar na possibilidade de construir uma hidrelétrica para aproveitar as potencialidades da cachoeira de Paulo Afonso. Localizado na confluência dos estados da Bahia, Alagoas, Sergipe e Pernambuco, o lugarejo da Pedra encontrava-se a apenas 24 quilômetros do rio São Francisco, com suas magníficas quedas d’água, parecidas com as que vira nos EUA e de onde os americanos extraíam energia elétrica. Por que não fazer o mesmo ali no semiárido?

“Bastou Delmiro realizar os primeiros contatos e vieram as objeções. Segundo seus críticos, a revolucionária tecnologia não poderia se destinar a um inexpressivo empresário instalado nos confins alagoanos. Delmiro fez de conta que não era com ele e continuou tocando seu projeto, consolidando a aquisição de terras nas vizinhanças, que englobavam diversas quedas d’água”, conta Gonçalves.

Ao mesmo tempo, passou a imaginar a aplicação da energia a ser gerada. A melhor opção que encontrou foi a instalação de uma indústria têxtil em Pedra, aproveitando a mão de obra local e o algodão nativo. Nessa época, nada se produzia no País, por isso, em 4 de dezembro de 1910, embarcou para a Europa disposto a concretizar o negócio. Na Europa, comprou turbinas e geradores, materiais elétricos e hidráulicos, além de teares e máquinas para a empresa têxtil. A costura política do projeto veio com a publicação do Decreto Estadual nº 520, de 12 de agosto de 1911, autorizando a construção da hidrelétrica e a captação de água da cachoeira de Paulo Afonso no território alagoano do rio São Francisco.

“Quando as máquinas e os equipamentos vindos da Europa em vapores fretados chegaram, começou a odisseia. O porto de Penedo [AL] precisou ser modificado. Pontes tiveram de ser reforçadas para permitir a passagem dos trens com material pesado. Estradas foram abertas e até carros de bois sofreram adaptações. Como não havia tratores nem guindastes, tudo foi feito pela força dos braços de vaqueiros e agricultores sertanejos”, destaca Gonçalves.

Não se sabe quantos trabalhadores perderam a vida para erguer Angiquinho, a hidrelétrica pioneira no Nordeste. Para realizar os trabalhos de construção civil, os operários tinham de descer, amarrados em cordas, um paredão de 80 metros. Quem não tinha coragem de enfrentar o abismo era “convencido” por Delmiro, revólver em punho. Angiquinho começou a operar em 26 de janeiro de 1913. Minúscula, comparada às hidrelétricas espalhadas atualmente pelo São Francisco, a usina de Delmiro Gouveia iluminou uma região que até então conhecia apenas a luz do candeeiro e escassos banhos tomados em datas especiais.

Com a energia gerada pela hidrelétrica de Angiquinho, Delmiro impulsionou a Companhia Agro Fabril Mercantil, conhecida como Fábrica da Pedra — primeira empresa a produzir linhas de coser no País. A fábrica prosperou, alavancada pelos ventos da Primeira Guerra Mundial (1914-1918): sua clientela estrangeira incluía Chile, Argentina, Peru, Bolívia, Antilhas e Canadá. De repente, os carretéis produzidos pela poderosa multinacional escocesa Machine Cottons passaram a sofrer inesperada concorrência, com o rápido crescimento das linhas marca Estrella saídas da Fábrica da Pedra. Foi o suficiente para o grupo estrangeiro desencadear uma pesada campanha para adquirir a Fábrica da Pedra e retomar o monopólio no negócio de linhas, perdido durante a Primeira Guerra devido às dificuldades para colocar seus produtos no mercado mundial.

A Fábrica da Pedra possuía uma vila operária com 300 casas servidas por água encanada, energia elétrica, esgoto e coleta regular de lixo, administrada com mão de ferro por Delmiro. Havia horário para fechar as portas à noite, quando todos tinham de se recolher, vistoria da higiene nas residências e multas para quem desrespeitasse os mais velhos, maltratasse os animais, andasse armado, praticasse jogos de azar, fizesse uso de bebidas alcoólicas ou mesmo cuspisse no chão. “Trinta anos antes da invenção da CLT, longe do litoral, em pleno sertão nordestino, Delmiro desencadeou um processo industrial que incluía benefícios trabalhistas como pagamento semanal, 13o salário e jornada de trabalho de oito horas com descanso remunerado aos domingos, além de assistência médica e odontológica estendida aos familiares”, aponta Gonçalves. De acordo com o biógrafo, na Pedra de Delmiro, o ensino era totalmente gratuito e obrigatório aos filhos dos operários, e os estudantes recebiam cartilhas, cadernos, lápis, borrachas e outros materiais. À noite, eram ministradas aulas de alfabetização para adultos e cursos especiais de aperfeiçoamento aos que tinham o ensino básico.

Todos deviam andar sempre asseados. O empresário inglês Arno Pearse registrou: “Os operários são bem-comportados, bem-vestidos e limpos. Quando vão para o trabalho, estão mais bem trajados que o operário médio europeu em dia de domingo,” Já o jornalista Assis Chateaubriand testemunhou: “A vassoura é ali uma instituição. Tudo é escovado, brunido, polido. Não vi em parte igual por onde tenho andado (…) limpeza tamanha e tão rigorosa.” A disciplina era rígida. Contudo, deslizes de conduta levavam os infratores ao tronco de baraúnas existentes próximas à fábrica. Há relatos de empregados que, por “terem feito mal” a alguma trabalhadora, ficavam um dia inteiro amarrados na árvore, e então aceitavam o “conselho” do coronel e se casavam, apadrinhados pelo próprio.

Os resultados comerciais logo foram aparecendo. Em 1917, a Fábrica da Pedra tinha atingido a marca de 10 mil contos de réis de faturamento – equivalente a 48 milhões de reais. Lentamente, a guerra pelo mercado entre a empresa sertaneja e a Machine Cottons foi se ampliando. “O objetivo indisfarçável dos escoceses passou a ser exterminar a Agro Fabril Mercantil a qualquer custo. O assédio se intensificou por meio de ameaças, subornos, pressões políticas e boicotes comerciais”, relata Alberto Gonçalves.

Quarta-feira, 10 de outubro de 1917. Depois de mais um dia de trabalho, Delmiro Gouveia acomoda-se em sua cadeira de vime preferida, na varanda do chalé onde mora, passa os olhos em alguns jornais atrasados e em outros que acabaram de chegar, e confere as notícias da guerra na Europa. Às 20h30, um estampido vindo de uma moita no desvio da linha férrea clareia repentinamente a noite. Em seguida, mais dois tiros. “Qual foi o cabra que me atirou?”, balbucia enquanto vai ao chão. Às 20h40, a indagação final: “Os cabras já foram presos?.” De Mário de Andrade, o acontecimento mereceu o seguinte comentário: “Teve o fim que merecia: assassinaram-no. Nós não podíamos suportar esse farol que feria os nossos olhos gestadores de ilusões, a cidade da Pedra nas Alagoas.”

Em 2 de novembro de 1929, os escoceses da Machine Cottons finalmente assinam o documento de compra da Fábrica da Pedra. No ano seguinte, ao chegarem para assumir a empresa, a primeira ação dos novos donos foi ordenar aos funcionários que arrebentassem as máquinas a marretadas. A sucata foi jogada nas águas do São Francisco.

A Delmiro atual

A disciplina imposta por Delmiro na lendária Fábrica da Pedra é semelhante à adotada pelo empresário Lourenço Araújo Fortes em sua loja de tecidos, na pousada e nos dois postos de gasolina que possui, em Delmiro Gouveia. Claro, ele não chega ao extremo de colocar funcionários ineficientes “no tronco”. Os tempos são outros (ainda bem). Mas exige de seus filhos que acordem cedo e tomem café com ele, para falar sobre a família e discutir, por exemplo, a situação das empresas. Não adianta reclamar que é segunda-feira, dia de ficar um tempinho mais na cama. “Se eles se expuseram demais no fim de semana, a culpa não é da segunda-feira.”

Filho de agricultores, Lourenço começou a trabalhar cedo na roça. Quando chovia, tudo ia bem. Vinha a seca e era um sofrimento só, recorda. Um belo dia, o pai, Benigno de Oliveira Fortes, reuniu a família e disse: “Vou levar vocês pra um lugar que não depende da chuva.” E foram todos para Delmiro Gouveia. “Meu pai era pobre, mas bem relacionado”, conta Lourenço. Com uma carta de apresentação de um desses amigos, Benigno conseguiu que Lourenço fosse trabalhar na sucessora da fábrica de Delmiro, então administrada por Antônio Carlos Azevedo de Menezes. “Comecei como ajudante de tecelão, os chefes perceberam meu potencial, fui evoluindo e cheguei a gerente geral da fábrica de confecções. Foram 32 anos de trabalho na fábrica”, resume.

Como Delmiro, Lourenço também viajou ao exterior para importar equipamentos para a empresa. “Comprei máquinas de confecções em Dallas, nos Estados Unidos. Fiquei impressionado com o slogan de uma firma americana que dizia ‘qualidade antes de tudo’, e procurei trazer o conceito para nossa empresa.” A disciplina e a obsessão com a qualidade, claro, são heranças delmirianas: “Fardei todo mundo, dos operários aos encarregados, e também contribuí para a conquista da ISO”, orgulha-se.

O espírito empreendedor de Delmiro certamente está incorporado às mulheres da Associação Tecelagem Descanso do Rei, da comunidade do Salgado, vilarejo situado na zona rural da cidade que leva o nome do antigo senhor da Pedra. Em velhos teares, elas fazem redes iguais àquela na qual, em outubro de 1859, repousou Dom Pedro II, quando visitou essas paragens, para conhecer a cachoeira de Paulo Afonso.

Herdeira direta das habilidades de dona Joaninha, a artesã que teceu a rede na qual Pedro II dormiu, Maria Shirley Gonzaga, presidente da associação, explica que a tecelagem manual é uma tradição preservada pelas mulheres do Salgado, que antes confeccionavam tecidos e redes de dormir, de uso doméstico, utilizando os fios produzidos na empresa. Com a falência da fábrica, única fornecedora da matéria-prima, a atividade entrou em decadência. Mais tarde, reunidas na associação e com o apoio de entidades como o Instituto de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater) e cursos fornecidos pelo Sebrae, a tradição foi resgatada.

“Para fazer uma rede, é necessário o trabalho de sete artesãs, tudo é feito à mão, da urdidura do tecido ao bordado”, explica Shirley. “Antigamente, as mulheres eram exploradas por atravessadores que forneciam a matéria-prima e ficavam com a maior parte da renda. Hoje, somos donas do nosso trabalho.” F



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1 comment

  1. Diogo Responder

    Muito interessante essa página . Gostei de conhecer um pouco sobre a história da cidade que irei morar


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