Gingando em terras europeias

A Associação Cultural de Capoeira Angola Vadiação organizou em parceria com várias instituições na Europa, inclusive a Universidade de Barcelona, um seminário para discutir o universo cultural negro brasileiro

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A Associação Cultural de Capoeira Angola Vadiação organizou em parceria com várias instituições na Europa, inclusive a Universidade de Barcelona, um seminário para discutir o universo cultural negro brasileiro

Por Dennis de Oliveira

Mestres de capoeira, oriundos do Grupo Cativeiro, desenvolvem trabalhos em países europeus. A essas ações dos capoeiristas brasileiros aliam-se não só os ensinamentos dessa arte milenar, mas também fundamentos da cultura afro-brasileira, e ambos contribuem principalmente para a luta antirracista. A capoeira é hoje uma grande disseminadora da língua portuguesa no mundo.

Em Barcelona, há mais de cinco anos, o mestre Gil Maciel – o Gil de Ogum – dirige a Associação Cultural de Capoeira Angola Vadiação. Anualmente, a entidade organiza em parceria com várias instituições locais, inclusive a Universidade de Barcelona, um seminário para discutir o universo cultural negro brasileiro. Isso tem motivado vários pesquisadores de lá a estudar a cultura negra brasileira.
Participei do último encontro realizado em julho, na Universidade de Barcelona. Aproveitei o contato com o grande mestre Gil, a quem conheço de outras batalhas, para conversar sobre essa importante experiência.

Como surgiu a ideia de montar a Associação Capoeira Vadiação em Barcelona? Como ela é mantida e quantos trabalham nela? 

A ideia surgiu no final de 2006, da necessidade de ampliar as possibilidades de trabalho com a capoeira. Reuni alguns alunos e expliquei o projeto que gostaria de desenvolver tendo a capoeira como principal instrumento de propagação, preservação e divulgação da cultura afro-brasileira. Juntamente com quatro alunos – Vanesa Carriba Escuredo (catalã), Xenia Blaya Teruel (catalã), Alejandro Perez (catalão) e Guido Alonso (colombiano) –, em 2007 fundamos a Associação. Ela é mantida pelos alunos e alunas e pelos projetos desenvolvidos.

Qual é o perfil dos alunos que procuram a associação?

Os alunos que participam da Associação têm entre 25 e 35 anos e são de várias nacionalidades. A grande maioria das pessoas é da Espanha, mas há alunos da França, Itália, Argentina, Alemanha e de países africanos, como Senegal e Marrocos. Em 2011, tínhamos um número maior de participantes masculinos; já no ano de 2012 o número de participantes femininos supera o masculino.

São dadas apenas aulas de capoeira ou há outras informações sobre a cultura negra brasileira?

Dentro do plano de difusão da cultura brasileira da Associação, desenvolvemos quatro atividades anuais gratuitas: um projeto permanente e gratuito com classes de capoeira uma vez por semana, o Proyecto Capoeira Calidad de Vida y Socialización; no mês de março, o Carnaval Vadiação; em julho, o projeto de maior envergadura da Associação, O Universo Negro Brasileiro (seminário internacional); e, em novembro, O Dia da Consciência Negra.

Qual é o impacto nos alunos?

Acreditamos que o impacto é positivo, devido ao número de participantes nas aulas e atividades realizadas pela Associação e ao número de visitas à nossa página na web. Contamos com mais de 40 participantes assíduos nas classes de capoeira e em torno de 350 a 400 pessoas nas atividades realizadas – lembrando que são atividades gratuitas.

A Associação tem o apoio de algum órgão do governo brasileiro? Esse apoio tem se mantido ao longo dos anos, ou não?

A Associação recebeu apoios pontuais do governo brasileiro para algumas edições do evento “O Universo Negro Brasileiro” e, atualmente, recebe somente apoio institucional por meio do Consulado Geral do Brasil em Barcelona.

Anualmente, vocês organizam este seminário sobre o universo negro brasileiro. Quais os resultados?

Estamos na quinta edição. Isso é significativo. Quanto aos impactos, a cada ano aumenta a forma de organização e os apoios. Neste ano, tivemos a incorporação das atividades na Universidade de Barcelona – no Departamento de Geografia e História, no Departamento de Estudos de América y África, além do apoio de universidades brasileiras como a Unesp. Nos segmentos civis, ampliou-se o apoio de organizações e pequenos empresários. A cobertura do evento também aumentou. A presença nas redes sociais foi significativa. Há, em especial, o apoio da Lyreco, instituição privada que, em 2010, desenvolveu um projeto social no Brasil (ver em http://www.ofiservice.com/esp/sostenibilidad,715/sostenibilidad-social,1516.html). Na comunidade brasileira na cidade, ainda é necessário aumentar a presença, assim como de outros setores da capoeira. Mas pode-se falar de um impacto positivo em todos os segmentos envolvidos, direta e indiretamente.

O crescimento visível da xenofobia e do racismo na Europa tem prejudicado as ações da Associação? Como vocês têm reagido a isto?

Há o crescimento da crise. Ela é real. Cresce a crise e, neste momento, procura-se um culpado, e a responsabilidade cai sobre os ombros dos imigrantes. Nossa atividade, com a participação de pessoas de vários países, indica nossa contribuição na luta pela diversidade, pluralidade e multiculturalidade. Nossas atividades visam a ser um contraponto a essa violência, com a incorporação de diversas pessoas, muitas delas vindas de países em crise, como os latino-americanos e os africanos. Nossa Associação é um espaço de afirmação da diversidade e da possibilidade de vivência conjunta entre as pessoas de diversas partes do mundo. Nossas atividades visam à pluralidade e ao respeito mútuo. No consulado, como membro do conselho da comunidade de brasileiros na Catalunha (conselheiro de Capoeira), esforçamo-nos em manter essa linha de ação e coerência, em favor da liberdade e da diversidade cultural. F



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