Multicídios

A morte de 12 pessoas na estreia do novo filme da série Batman colocou em xeque a responsabilidade da mídia neste tipo de crime. A cobertura jornalística, não raras vezes, acaba glamourizando os criminosos e incentivando novos multicidas a buscar seus dias de fama...

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A morte de 12 pessoas na estreia do novo filme da série Batman colocou em xeque a responsabilidade da mídia neste tipo de crime. A cobertura jornalística, não raras vezes, acaba glamourizando os criminosos e incentivando novos multicidas a buscar seus dias de fama à custa de vidas de desconhecidos

Por Túlio Vianna

Os mass murderers – que em português podemos chamar de multicidas – cada vez mais estão presentes nas manchetes dos jornais. Segundo a definição do FBI, um multicídio é o homicídio de quatro ou mais vítimas em uma única ação, sem um período distintivo de tempo entre as mortes. Quanto mais aleatórias as vítimas, maior a probabilidade de os autores serem psicóticos. Tipicamente ocorrem em locais com grande concentração de pessoas, tais como escolas, cinemas e restaurantes, onde as vítimas são surpreendidas e não têm condições de esboçar qualquer reação.

Entre os casos de maior repercussão estão o do Mc Donald’s de San Ysidro, em 1984, com 21 mortos; o da escola de Columbine, em 1999, com 15 mortos; o do centro tecnológico de Virgínia, em 2007, com 32 mortos; o da escola de Realengo, em 2011, com 13 mortos e, o mais recente, na estreia do novo filme do Batman, em um cinema de Aurora, com 12 mortos.

Os multicídios chocam pela aparente aleatoriedade das vítimas e por sua imprevisibilidade, o que dificulta bastante qualquer política preventiva. As propaladas instalações de detectores de metais nas portas de escolas não têm o condão de evitar o multicídio em si, mas apenas de desviá-lo daquele local específico. Se o multicida não consegue entrar armado na escola, em virtude de um detector de metais, praticará o crime na saída da escola. Ou no cinema, ou no shopping, ou no restaurante, ou no metrô, ou no parque, ou na rua, ou em qualquer outro lugar. Não é possível colocar detectores de metais em todos os locais com aglomerações de pessoas. Uma paranoia como esta só alimenta a indústria dos equipamentos de segurança, sem efeitos práticos relevantes.

Claro que o principal problema dos multicídios está na facilidade com que qualquer pessoa tem acesso a armas de fogo. Um louco com uma faca ou um machado em uma escola poderia matar duas ou três pessoas, mas por certo teria dificuldades em matar uma quarta. É a arma de fogo que viabiliza a multiplicidade de mortes em tão curto espaço de tempo. E é assustador como tantos multicidas, muitos deles psicóticos, conseguem ter acesso a elas tão facilmente.

Essa questão é especialmente séria nos EUA, onde é possível comprar armas legalmente até mesmo em supermercados. Já no Brasil, a lei é bem mais restritiva, mas o comércio ilegal de armas é bastante difundido e qualquer pessoa pode adquirir uma arma ilegal com relativa facilidade.

Depois que a arma de fogo já se encontra nas mãos do multicida não há muito que se possa fazer para evitar a tragédia. Mudanças na lei penal ou o aumento da pena são completamente ineficazes. Na maioria das vezes, os multicidas se mostram dispostos a morrer e sequer se dão ao trabalho de planejar uma fuga. E é justamente essa aura suicida que garante a eles um especial atrativo midiático, transformando-os em anti-heróis perfeitos para uma longa cobertura policial.

A busca pela notoriedade acaba alimentando novos multicidas e agravando o problema. Suas ações passam a ser planejadas para serem cinematográficas e para entrarem para a história. Sacrificam a vida de desconhecidos e, muitas vezes, a sua própria vida por alguns dias de fama mundial. Os holofotes da mídia acabam se tornando seus maiores propulsores.

No caso do multicídio de Realengo, o autor deixou um verdadeiro kit de imprensa para ser divulgado após o crime, com fotos em poses com armas de fogo e vídeos “promocionais”. Todo o material deixado pelo multicida com o inequívoco propósito de se tornar uma celebridade foi exaustivamente divulgado pelos meios de comunicação, cumprindo rigorosamente seu plano para se tornar o anti-herói nacional.

Essa imensa repercussão midiática cer­tamente não passa despercebida por psicóticos com tendências multicidas, que podem se sentir incentivados a praticar crimes semelhantes, estimulados pela notoriedade que os multicidas sempre conquistam na mídia.

Os manuais de redação de muitos jornais possuem recomendações expressas para que se evite divulgar casos de suicídio e, quando a divulgação for imprescindível, que a matéria seja feita ao menos em tom bastante discreto. A recomendação se justifica, pois é sabido que a divulgação sensacionalista de suicídios pela mídia acaba incentivando a prática de novos suicídios por quem já se encontra abalado emocionalmente. Paradoxalmente, os mesmos jornais que são bastante discretos quando se trata unicamente de um suicídio abusam do sensacionalismo quando o suicídio é precedido por um multicídio.

Claro que ninguém resolve suicidar-se ou praticar um multicídio simplesmente para aparecer na mídia. No entanto, se o indivíduo já se encontrava perturbado psiquicamente e cogitando em praticar um suicídio ou um multicídio, a ampla divulgação de episódios semelhantes pela mídia pode ser o gatilho que faltava para fazê-lo passar do simples pensamento à execução.

Em um Estado Democrático de Direito, a liberdade de imprensa é direito constitucional, e não há como cogitar em impedir que os multicídios sejam divulgados. A liberdade de imprensa, porém, assim como todo direito fundamental, está sujeita a limitações. Quando um crime é praticado por uma criança ou um adolescente, por exemplo, a lei proíbe que o nome e a imagem do autor sejam divulgados. Seria, então, bastante razoável que, nos casos de multicídio, também se proibisse a divulgação do nome e das imagens do autor na mídia, para evitar que a publicidade dada ao fato pudesse servir de incentivo a novas ações semelhantes.

A limitação do direito de informar e ser informado, nesse caso, não afetaria a divulgação dos fatos em si, mas simplesmente dos detalhes sobre sua autoria. Uma pequena limitação legal, mas com um potencial de prevenção criminal suficientemente relevante para impedir a “glamourização” desses criminosos, que atualmente têm se tornado celebridades.

Não se trata, evidentemente, de uma panaceia, mas tão somente de uma medida de redução de danos causados pela cobertura sensacionalista que a grande mídia insiste em dar a esses episódios e que acaba por incentivar novos multicidas em busca de uma morte eternizada em manchetes de jornais. F

 



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1 comment

  1. Alceu garcia Responder

    Essa ideia de que se pode restringir a liberdade de imprensa apenas na medida exata do seu abuso é ladainha. Desculpe-me mas é, sim, pura ladainha. O professor Túlio, que tem posições extremamente autoritárias no que diz respeito à liberdade de expressão, quer determinar a forma como jornais e revistas vão abordar certo assunto. Note-se: ele deseja instaurar uma vigília sobre os meios de comunicação com a alegada finalidade de evitar a ocorrência de uma espécie de crime que, de tão rara, tem menos chance de te matar que o próximo piquenique no parque. O que me deixa perplexo é o fato de um sujeito tão culto não se dar conta do perigo que representa o estabelecimento de semelhante precedente. Ou alguém aqui realmente acredita que isso vai parar por aí? Certamente não demorará até outro samaritano começar a alardear os benefícios que um pouco mais de censura trará à prevenção de outros crimes, também supostamente fomentados pela mídia. Afinal, se a medida é boa, por que parar nos multicídios? Por que não estendê-la aos crimes ordinários, bem mais danosos à população? Por que não proibir de vez o “culto” à violência em programas de TV, revistas e filmes? Ora, talvez seja o caso de propor a proibição do noticiário policial, principalmente aquele do nível do Brasil Urgente (o que eu não duvido seja medida defendida pelo articulista). Não, obrigado! Conjecturas à parte, os veículos de comunicação podem abordar o assunto da forma que bem entenderem, assim como pode qualquer cidadão brasileiro. Esse é, felizmente, um direito que o ranço autoritário e intervencionista ainda não conseguiu pulverizar, apesar dos malabarismos jurídicos e teorias relativistas com os quais é rotineiramente atacado. Desculpe, professor, mas me sinto bem mais seguro com o sensacionalismo dos meios de comunicação que com as boas intenções de agentes públicos. A liberdade de expressão não é negociável.


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