O ronco da cuíca de Aldir Blanc

O compositor fala sobre sua famosa parceria com João Bosco e reflete sobre o Brasil que sua obra espelhou e, vanguardista, antecipou

1705 0

O compositor fala sobre sua famosa parceria com João Bosco e reflete sobre o Brasil que sua obra espelhou e, vanguardista, antecipou

Por Pedro Alexandre Sanches

Roncou, roncou. Roncou de raiva a cuíca, roncou de fome. Em 1972, há exatos 40 anos, deu-se um encontro que mudou, mais uma vez, os rumos da música brasileira. Aldir Blanc, carioca do bairro do Estácio e médico especializado em Psiquiatria, encontrou-se com João Bosco, mineiro da cidade de Ponte Nova e estudante prestes a se formar engenheiro civil. Aldir foi fazer letra. João foi fazer melodia. A parceria “Bala com bala” fez sucesso na voz da madrinha Elis Regina. Os quixotes sentiram-se fortes para abandonar a psiquiatria e a construção civil em benefício dos moinhos de vento da MPB.

Na década anterior, a música brasileira participante havia explodido no cenário fortemente estudantil dos festivais da canção. Nascidos um pouco mais tarde, ambos em 1946, Aldir e João encarnaram, eles próprios, a música popular universitária que frutificou a partir da arena de guerra dos festivais. Parecia continuidade, e era. Mas era também mudança de curso. A turma anterior havia forjado a MPB de linha CPC da UNE, o Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes, idealizando o “povo” de um País sob ditadura, mas ficando relativamente distante dele. A espera pelo porvir vicejara na música de Geraldo Vandré e Sérgio Ricardo, e também no cinema de Sérgio Ricardo e Glauber Rocha. O próprio Glauber denunciou o vício retórico, desnudando em Terra em Transe (1967) o intelectual que cala a boca do “povo” para falar em nome dele. Os tropicalistas captaram o recado e bagunçaram o coreto em 1968, afirmando que não era nada daquilo.

Pós-CPC e pós-tropicália, o poeta Aldir tateava uma moldura sarcástica e agressiva na cinematográfica “Bala com bala”: “O tempo corre e o suor escorre, vem alguém de porre, há um corre-corre/ e o mocinho chegando/ dando.” Era apenas o primórdio de um imaginário satírico que se tornaria cada vez mais direto, popular, suburbano, brasileiro. Concluída a década de 1970, a MPB estava povoada – por Aldir e João – de piratas, mulatas, sereias, farofa, cachaça, baleias. Boias-frias, pais de santos, paus-de-arara, passistas, flagelados, pingentes, balconistas, palhaços, marcianos, canibais, lírios, pirados. Sinais adquiridos em quedas de patins em Paquetá e torturantes pontas de band-aid no calcanhar.

Aldir apanhou as fabulações sobre o “povo” conforme os músicos e cineastas utópicos da década de 1960 e as atirou no olho da rua – para não dizer na lata de lixo. Em sua crônica, a fábula virou vida real, crua e nua. Como vociferava a letra de “O ronco da cuíca” (lançada pela cantora baiana Simone em 1975), o instrumento manufaturado do sambista passou a roncar de raiva e de fome, em vez de romantismo ou utopia. “Olhei o corpo no chão e fechei/ minha janela de frente pro crime”, já rezara Simone em “De frente pro crime” (1974), explicitando a violência pulsante nas fímbrias do Brasil ditatorial.

Não se tratava de tese universitária, apesar do currículo acadêmico de Aldir. Em longa e caudalosa entrevista concedida por e-mail, ele revisita as origens do imaginário com o qual vestiu a música percussiva, “afrotupi”, de João Bosco.

“A vó Noêmia teve importância enorme no meu trabalho de compositor. Ela me levava a centros espíritas, e eu ficava fascinado pelos pontos cantados e pela batida dos atabaques. Chegava em casa, já na Vila Isabel, pegava meus tamboretes de peteca, que antigamente eram de madeira e couro, e batucava cantando meus próprios pontos, que ‘compunha’ imitando os que tinha ouvido.”

A presença mesclada de religiosidades europeias, africanas e autóctones remonta à primeira parceira Bosco-Blanc, “Agnus Sei”, lançada em 1972 por O Pasquim dentro da série Disco de Bolso, em que um músico estabelecido apresentava outro iniciante. O volume de João abriu a série (que só teria dois volumes), e seu padrinho foi Tom Jobim, com nada mais, nada menos que a primeira gravação de “Águas de março”.

“Faces sob o sol, os olhos na cruz/os heróis do bem prosseguem na brisa na manhã/ vão levar ao reino dos minaretes/ a paz na ponta dos aríetes/ a conversão para os infiéis”, cantaria, enigmática, a madrinha Elis, na versão mais conhecida de “Agnus Sei”, de 1973. “Fernão se apaixonou como um selvagem pela sereia do sertão/ na água, imagem virgem, miragem esverdeada”, seguia Elis em “O caçador de esmeralda”, fundindo religião, entradas & bandeiras paulistas e vida suburbana carioca: “Fernão se esmerava na conquista de Esmeralda, inferno de Fernão/ e um dia, no fusca duas portas, dois amantes/ Fernão louco, Esmeralda desvairada/ o enleio dos delirantes/ no Recreio dos Bandeirantes.”

“Quando tinha quase 18 anos, fui morar com um primo no Largo da Segunda-Feira, na Tijuca. Esse primo, Dininho, me levou aos ensaios do Salgueiro, lá em cima do morro. Me apaixonei pelos sambas de quadra”, prossegue. O samba misto e impuro, com ênfase no formato do samba-enredo (por vezes cantado mais em coro que pela voz solo de João), prosperaria em “O mestre-sala dos mares” (1975), “O rancho da goiabada” (1976) e “O bêbado e a equilibrista” (1979). Elis desfilaria os sambas um por um, desacelerando-os e tornando-os densos e dramáticos como gemidos de clausura, tortura e ditadura.

Aldir conclui a narrativa primordial: “Resumindo, pontos de macumba e os sambas de quadra do Salgueiro são a formação do compositor que me tornei. Nas idas à ilha de Paquetá, fiz parceria com compositores que passavam períodos lá e concorri no Festival Universitário de MPB de 1970, no qual fiz meu primeiro sucesso, com Sílvio da Silva Jr., ‘Amigo é pra essas coisas’, gravação original do MPB-4.”

Esse novo tema de amizade e solidão aprofundava o mote pungente de “Sinal fechado” (1969), de Paulinho da Viola, eterno influenciador e influenciado para Aldir. “Paulo da viola, não me queira mal/ não há, nem pode haver escola igual”, cantou em 1970 uma Clara Nunes ainda em fase de elaboração da imagem de sambista, em “Vermelho e branco”, samba salgueirense composto com outro parceiro inaugural de Aldir, Cesar Costa Filho.

Aldir, que já esteve em litígio judicial com Cesar, não quer sequer citar o nome do ex-parceiro. Ambos constavam da lista de concorrentes do tumultuado Festival Internacional da Canção (FIC) de 1971, da Globo, do qual um grupo de compositores mais experientes (entre eles Tom Jobim, Chico Buarque, Paulinho da Viola, Edu Lobo, Sérgio Ricardo e Marcos Valle) se retirou com carta aberta em protesto contra “a exorbitância, a intransigência e a drasticidade do Serviço de Censura”. Aldir, Cesar e Gonzaguinha estavam entre os “novatos” que ensaiaram um abaixo-assinado de desistência do festival, abortado por pressão da Globo. A parceria Aldir-Cesar, defendida pelo segundo, foi à final, mas não ficou entre as dez primeiras colocadas. Chamava-se “Medo”.

A dupla efêmera deixaria para a posteridade a soturna “Ela” (1971), primeira canção de Aldir gravada por Elis, que a usaria para batizar seu álbum daquele ano: “Ela sente a solidão do oitavo andar/ todo dia à hora triste do jantar/ só um copo, só um prato e ao lado um só talher/ tudo é um em seu pequeno mundo de mulher.”

É dessa fase uma perda dupla, definidora do futuro de Aldir, de filhas gêmeas recém-nascidas, Maria e Alexandra. Ele recorda, emocionado: “Perder as gêmeas muito moço, com uns 25 anos, foi uma das coisas mais dolorosas que vivi. Acompanhei a morte da que viveu mais tempo colado na incubadora, aquela criança linda, de cabelos louros, sangrando pela boca e narinas, cheia de tubos, uma lenta agonia. Foi a partir da morte delas que resolvi ir largando a medicina; aos poucos, mas definitivamente.”

A parceria com João Bosco e o Ecad

Ainda médico, na virada dos anos 1960 para os 1970, Aldir fora integrante de um movimento musical batizado MAU, do qual despontaram jovens artistas como Ivan Lins, Gonzaguinha e Cesar Costa Filho. Soterrado entre movimentos arrasa-quarteirão como tropicália, samba e Clube da Esquina, o MAU resta como enclave mal conhecido mesmo por admiradores maiores de MPB. O próprio Aldir não demonstra simpatia por aquele momento histórico.

“O Festival Universitário gerou o MAU, Movimento Artístico Universitário, em reuniões na casa do psiquiatra Aloísio Porto Carreiro, onde morava o Gonzaguinha. Tenho pouco a dizer sobre o MAU, movimento supervalorizado, no meu entender. Não gosto de falar sobre esse assunto, muito decepcionante. O MAU foi contratado pela TV Globo para integrar o programa Som Livre Exportação, no qual conheci Elis”, rememora. Mas lança pedra sobre o assunto: “O contrato com a Globo destruiu a unidade que havia.”

Além de gerar o MAU, o Festival Universitário de 1970 pariu a parceria Bosco-Blanc. Pela TV, João assistiu a Aldir tirar o segundo lugar com “Amigo é pra essas coisas”. “João estava vendo com o amigo Pedro Lourenço, e falou: ‘Tenho tantas músicas inéditas, sem letra, acho que esse barbudo aí é o cara certo’. Para surpresa do João, Pedro respondeu: ‘Aldir é um grande amigo meu, estudamos juntos filosofia, antipsiquiatria etc., uma vez por semana’.”

Diz que, no primeiro encontro, João tocou cerca de 20 melodias “deslumbrantes”. “Essa primeira leva é de músicas que refletem profundamente a solidão de Ouro Preto (onde Bosco estudava), quase uivos. Letrei todas, mas só duas ou três vieram a público.” Não era só João. A poética de Aldir também era sombria, povoada de termos como medo, sangue e morte.

“Volta ao porto o corpo morto de outro moço/cruz de carne e osso que tentou fugir no mar”, dizia “Angra”, incluída no LP de estreia do parceiro, lançado em 1973 a bordo da descoberta de Elis. A gaúcha mergulharia fundo nas canções da veia épica de Bosco & Blanc, lambendo as “línguas rubras dos amantes, sonhos sempre incandescentes” de “Caça à raposa” (1974), beliscando a ditadura no “acreditar na existência dourada do sol/ mesmo que em plena boca nos bata o açoite contínuo da noite” de “O cavaleiro e os moinhos” (1976), cobiçando o transromantismo de “acho que o amor é a ausência de engarrafamento”, em “Transversal do tempo” (1977).

Outro ápice da veia épica-mortífera se daria pela garganta solo do andrógino mato-grossense Ney Matogrosso, recém-saído dos Secos & Molhados, em “Corsário” (1975): “Meu coração tropical está coberto de neve, mas/ ferve em seu cofre gelado e a voz vibra e a mão escreve mar/ bendita lâmina grave que fere a parede e traz/ as febres loucas e breves que mancham o silêncio e o cais.”

Embora Elis tenha intuído desde “Bala com bala” a vocação cronista satírica da dupla, outra artista teria papel crucial em catapultar o viés nacional-popular dos compositores. A mineira também andrógina Maria Alcina transformou “Kid Cavaquinho” em hit da grife Bosco & Blanc ao gravá-la em 1974. “Genésio!/ a mulher do vizinho/ sustenta/ aquele vagabundo”, Maria fazia o breque do samba, dando senha para as tramas de delícias & intrigas suburbanas que se tornariam a principal marca da dupla mineiro-carioca. O deboche corria solto no encontro Blanc-Alcina-Bosco em “Beguine dodói”, de cenas transexuais que caberiam com justeza à trama “classe C emergente” da Avenida Brasil global de 2012: “Espremo cravos defronte ao espelho lembrando você/ faço novena, tomo gemada/ (…) Maracujina já não resolve/ ao recordar meias fumê, ligas vermelhas e um olhar fatal/ minha Dalila, volta depressa, que teu Sansão tá mal.”

Alcina lançou, ainda, “Foi-se o que era doce”, uma comédia em tempo de forró, destinada a denunciar de raspão a corrupção nos escaninhos da MPB industrial: “Jabaculê, vixe, espetacular/ assunto assim às vez é mió calá.” Não havia gratuidade na menção ao famigerado jabá empregado pelas gravadoras para orientar a criação de sucessos nas paradas radiofônicas e televisivas. Aldir participava dos atos que culminariam, naquele mesmo 1974, na fundação do Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad), que controla até hoje a cobrança e o pagamento de direitos autorais devidos pela execução pública de músicas no Brasil.

“Cerca de uma dezena de compositores foi expulsa da [sociedade arrecadadora]Sicam, por um simples pedido de prestação de contas, direito reconhecido internacionalmente. Fui um dos expulsos, com Sueli Costa, Vitor Martins, Guarabyra. Nossos parceiros sócios da Sicam eram excluídos por tabela e também perderam suas arrecadações”, conta. “Perdi anos de arrecadação pública da única vez em que coloquei quatro músicas entre as primeiras nas paradas: ‘O mestre-sala dos mares’ com João, ‘Dois pra lá, dois pra cá’ (1974) com Elis, ‘Kid Cavaquinho’ com Maria Alcina e “De frente pro crime’ (1975) com o MPB-4. Incrível, né? Pois levaram tudo.”

Os expulsos criaram uma nova associação, Sombrás (hoje Amar-Sombrás), na qual Aldir está até hoje, entre dezenas de nomes e sobrenomes das dinastias cariocas de samba e MPB. O atual presidente da associação é o maestro Marcus Vinícius, dono da gravadora CPC-Umes, pela qual já lançou discos a atual ministra da Cultura, Ana (Buarque) de Hollanda. Por empenho da MPB, o Ecad também estava a caminho, para unificar e centralizar a cobrança de direitos antes dispersa pelas associações. “Infelizmente, horas antes de o novo sistema ser implantado – isso nunca ficou claro –, o Ecad, que deveria ter diretoria e conselheiros eleitos, passou a ser integrado, numa espécie de golpe, pelas antigas sociedades arrecadadoras. E o sistema melhorou bem pouco em relação ao que sonhávamos”, afirma.

Ao Ecad de 2012, Aldir reserva avaliações em ritmo de morde-e-assopra. “Se você tem uma mesa de negociações onde as cartas são viciadas, as propostas de mudança morrem na praia. Até hoje é essa luta: ruim com o Ecad, pior sem ele. Há idiotas que se regozijam porque o Google ou outra merda gigantesca vai ‘abrir loja’ no Brasil para comprar música brasileira a R$ 1,90. Não tem como, o cara que acha isso bom é venal ou muito burro.”

A julgar pelo que se passa já há dez anos no Ministério da Cultura (MinC), até hoje dois grandes rios irrigam toda a população musical brasileira: a dualidade samba-MPB de um lado, tropicalistas e devotos de outro. Aldir é transparente sobre a qual afluente pertence: “Sobre o MinC, prefiro declarar que o modelo de administração de Ana de Hollanda, com respeito integral pelos criadores, é o que prefiro. Gilberto Gil, em minha visão, deu mole para a internet – depois de lucrar pessoalmente com o acordo entre esse monstrengo e as obras dele. O interino que deixou [Juca Ferreira] era só um capacho.”

A dicotomia nacional/estrangeiro ainda governa o debate, como se percebe nos argumentos de Aldir e de quaisquer integrantes da vertente “nacionalista” samba-MPB. Mas, ora, Aldir, parte substancial dos recursos do sistema Ecad não é igualmente drenada para o exterior, nas figuras de gravadoras e editoras sócias de nomes como Sony, EMI, Warner e Universal?

“Considero que existe uma conexão que sugere caixa 2 entre o Ecad e algumas editoras transnacionais”, admite, ainda em modo morde-e-assopra. “Tenho mais de 50 músicas em novelas que correm o mundo todo, são muito bem vendidas. Cadê o dinheiro, que nunca recebi do exterior, a não ser merrecas humilhantes tipo R$ 2,34 de Israel, R$ 3,12 da Turquia, essas porras? A cascata é que o exterior não paga porque não pagamos também a eles. Tem gente, aqui ou lá fora, ficando com o dinheiro dos autores brasileiros.”
O tema lembra as “Querelas do Brasil” (1978), de Aldir e Maurício Tapajós, outro de seus grandes êxitos na voz brava de Elis: “O Brazil não conhece o Brasil/ o Brasil nunca foi ao Brazil/ (…) o Brazil não merece o Brasil/ o Brazil tá matando o Brasil.” Ao menos quanto aos direitos autorais, seja sob Gilberto Gil ou Ana de Hollanda, o Brasil e o Brazil mantêm a briga de galos, com desvantagem para o primeiro.

Dissonâncias à parte, Brasil sempre foi entidade-chave fundadora da obra de Bosco e Blanc. Em muitos sentidos, os lumpemproletários e demais marginais que frequentavam suas canções são a propalada classe C, que não para de se inflar sob Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, representada em dezenas de sambas de João e Aldir, desde “o bêbado & a equilibrista” (Lula & Dilma?) e as “manchas torturadas”, que Elis adorava ressaltar, até tipos suburbanos poeticamente encarnados por cantoras tão populares quanto Angela Maria (“Miss Suéter”, 1976), Clementina de Jesus (“Incompatibilidade de gênios”, 1976, e “Boca de sapo”, 1979) e Maria Alcina.

A Clementina coube valorizar genialmente a vertente antirromântica hiper-realista de Aldir, um ex-psiquiatra que diz ter feito 17 anos de terapia para superar (“e não resolveu de todo”) a morte prematura das filhas. “Dotô, jogava o Flamengo, eu queria escutar/ chegou, mudou de estação, começou a cantar”, queixa-se o marido, pela voz grave de Clementina, em “Incompatibilidade de gênios”. “Se eu dou um pulo, um pulinho, um instantinho no bar/ bastou, durante dez noites me faz jejuar/ levou as minhas cuecas pro bruxo rezar/ coou meu café na calça pra me segurar”, lamenta, meio inconsciente de si, o mau marido queixoso da má esposa.

Três anos depois, a esposa volta à carga, em “Boca de sapo”. “Costurou na boca do sapo um resto de angu/ a sobra do prato que o pato deixou/ depois deu de rir feito Exu Caveira/marido infiel vai levar rasteira”, começa Clementina. “Tás virando, Honorato, varapau,/seco feito o sapo, Honorato, no quintal”, prossegue João em dueto, invertendo os personagens. A denúncia da falência romântica encontra ápice em “Latin Lover”, gravada por João e por Simone em 1976: “Nos dissemos que o começo é sempre, sempre inesquecível/e, no entanto, meu amor, que coisa incrível/esqueci nosso começo inesquecível.”

Conforme os anos seguiam, tanto a crônica irônica de costumes quanto o espelhamento do Brasil iam se tornando mais complexos. O disco Tiro de misericórdia (1977) se encerrava com a contundente faixa-título, um épico de favela sobre um adolescente que “fecha o corpo” num rito de orixás e acaba, mesmo assim, assassinado. “Grampearam o menino do corpo fechado/ e barbarizaram com mais de cem tiros/ 13 anos de vida sem misericórdia e a misericórdia no último tiro.”

Aldir reflete sobre o Brasil que sua obra espelhou e, vanguardista, antecipou: “É uma alegria indescritível ver que estávamos certos, mesmo quando diziam que éramos obcecados por uma ‘violência inexistente’. Quá, como diria o Pato Donald. Demos de goleada.” Não havia coincidência nem gratuidade no interesse dos grupos de pagode dos anos 1990, Molejo e Grupo Raça, em regravar, respectivamente, “Linha de passe” (1979) e a linda “Da África à Sapucaí” (1986).

“Até hoje, 40 anos depois, locutores esportivos citam, alguns sem saber de onde vem a coisa, ‘tá lá o corpo estendido no chão’ e ‘de frente pro crime’. É a suprema glória de compositor popular”, exemplifica Aldir. “Uma vez, numa gafieira, a orquestra atacou ‘Dois pra lá, dois pra cá’, e o cara ao meu lado, sem me reconhecer, largou a cerva, ‘ih, minha música!’, e foi tirar uma dama para dançar. A importância desse ‘minha’ não tem tamanho.”

Ainda que tenha se envolvido em embates em defesa de Dilma Rousseff na eleição de 2010, Aldir prega hoje um distanciamento (retórico?) da vida política. “Estou em desobediência civil. Não voto em mais ninguém. A única obrigatoriedade essencial que esses paios têm é julgar torturadores, crime que não prescreve. Meu último voto de confiança vai para Dilma. Faz tempo que perdi a fé no Lula, no PT, no Psol…”

A intimidade com o tema da tortura, transparente em diversas canções, remonta à fase de exercício de medicina. “Eu vinha da psiquiatria, meus colegas e o chefe de serviço eram de esquerda. Eu havia ficado muito traumatizado com as coisas contadas por pacientes que sofreram tortura ou procuraram tratamento pela dor que sentiam por parentes assassinados pela ditadura. É claro que eu e João sabíamos bem o que o repertório insinuava, dentro das limitações que a censura impunha. Era proposital, bem medido e pensado, os dois parceiros estavam de acordo.”

À parte a fama da já tardia parceria com o “O bêbado e a equilibrista”, pertence também ao repertório de Elis (em Falso Brilhante, show e LP de 1976, batizado sobre um verso de Aldir) a mais pungente canção de tortura da dupla. Perversamente batizada “Jardins de infância”, enfileira referências a brinquedos e brincadeiras de criança, “um tal de pula-fogueira, pistolas, morteiros, veja você”. Então ataca: “E você se escondeu/ e você não quis ver.”

E começa novo ciclo: “Tem carniça e palmatória bem no teu portão/ você vive um faz-de-conta, diz que é de mentira, brinca até cair/ (…) e você conheceu/ e você aprendeu.”

Outras parcerias. E o mesmo parceiro

Assim como a ditadura, a parceria de Bosco e Blanc arrefeceu nos anos 1980. Rareou até 1987, e então se interrompeu de vez. Aldir não tem como fugir do assunto: “Todas as versões são verdadeiras. Escolha a sua. Foi inteiramente natural, João usava cada vez mais onomatopeias. Senti que as letras se tornavam menos importantes e fui me afastando sem sentir, o tipo de coisa que pode acontecer com qualquer amizade. Essa é a versão que eu escolhi.”

Aldir continuou craque em construir parcerias. Compôs, sucessiva e intensamente, com o emepebista Maurício Tapajós, o sambista Moacyr Luz, o esteta Guinga. A cada parceiro, cem ou mais canções. “O problema com Guinga é que as músicas são extensas, muitas vezes de 60, 70 versos. Todas as músicas que fiz, letrei nota por nota, um trabalho do cão. Mas Guinga só se preocupa com a música nova, para de tocar uma que deu um trabalho imenso para letrar, um mês depois de feita. Por isso, a parceria foi esfriando.”

Se sofisticação e complexidade são marcas do encontro com Guinga, Aldir deixa evidente que não renuncia à paixão sem medidas pela poesia popular. “Há uma valsa inédita deslumbrante, que Guinga jamais cantou porque fala nos pentelhos de uma parente que eu, menino, vi no alto de uma escada. Apesar de ser o cara que mais diz palavrões que conheci em toda minha vida, ele gosta de letras puras”, alfineta.

A parceria com João Bosco passou a ser retomada, sutilmente, em 2009, quando o cantor lançou o álbum Não vou pro céu, mas já não vivo no chão, título retirado de “Sonho de caramujo”, uma das quatro parcerias com Aldir no CD: “Cumpri o astral de caramujo musical/ hoje eu gripo ou canto/ não vou pro céu, mas já não vivo no chão/ eu moro dentro da casca do meu violão.”
A reaproximação começou num dia em que se encontraram e lembraram, juntos, a morte de um amigo comum. “Nos abraçamos muito comovidos, e marcamos um chope com a intenção de retomar a parceria. Isso de fato aconteceu e vai bem, obrigado, com grandes sonhos que talvez nem possamos realizar. Mas estamos numa idade em que sonhar é vital”, deseja. A raiva dá pra parar, pra interromper. A fome não dá pra interromper. A raiva e a fome é coisa dos “hôme”. A raiva e a fome, mexendo a cuíca, vai ter que roncar. F



No artigo

x