Um artista inusitado e um time de músicos dos sonhos

Dércio Marques e os 40 anos de carreira de João Bosco

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Dércio Marques e os 40 anos de carreira de João Bosco

Por Julinho Bittencourt

Dércio Marques é uma lenda para poucos. Acerta em cheio. É um dos artistas mais inusitados deste País tão criativo. Viaja por todo canto onde houver um canto para aprender ou mostrar. É uma verdadeira enciclopédia viva da cultura popular brasileira. Quando resolve gravar, chama todos os amigos que estiverem ao alcance, incluindo aí as crianças e os passarinhos.

Faz festas do povo e com o povo, não simplesmente discos. É um trovador errante, com uma visão própria de construção de carreira. Não tem nenhum sucesso de rádio ou televisão. Mas lá se vão muitos anos deste mundão de Meu Deus que ele funciona como um pulmão, que ajuda a soprar canções direto de sua nascente. Tem uma voz belíssima, que sempre se soma às festas e aos reisados. Canta com a nossa voz, a voz da nossa gente.

Dércio tem uma porção de discos gravados, sempre por produtoras independentes ou coisa parecida. Não grava com regularidade, o que torna cada lançamento seu um acontecimento para os interessados, que, levando-se em conta o mercado fonográfico, não são poucos e estão espalhados por todo canto onde ele costuma passar.

Este pequeno texto acima foi publicado por este mesmo autor, lá se vão uns 20 anos. Certo dia, comovido, abro o site do próprio Dércio e lá está o texto como um prólogo. A verdade mesmo é que ele, um dos artistas mais importantes da América Latina, não dispunha de assessoria de imprensa, produtores, grandes selos ou coisa que o valha. Vivia de forma simples, espalhando o seu canto maravilhoso da forma que podia e conseguia, com a ajuda de amigos, parceiros e admiradores.

Tudo o que conseguiu criar em torno de si e de sua música era geração espontânea. Uma rede que se formava e pulsava em torno da importância irretocável do seu trabalho. Várias vezes o vi, logo após ser interpelado por alguém se poderia apresentar-se num determinado local, tirar um caderno lotado de rabiscos da bolsa, consultar uma agenda amarrotada e dizer: “Vou sim.” E, para surpresa geral, realmente aparecer e cantar lindamente e ser o maior acontecimento da festa.

Dércio é a prova viva de que há – escondido por trás deste mundo de plástico dos grandes veículos de comunicação – outro planeta que pulsa, caminha e resiste. A partir do exato momento em que a sua morte foi anunciada, às 22h do dia 26 de junho de 2012, uma extensa rede de orações, recados e trovas se criou na blogosfera e nas redes sociais. Um mundo de gente comovida se manifestou nos quatro cantos do País, rendendo homenagens ao seu talento, à sua importância, ao lindo ser humano que ele foi. Apesar disso, não apareceu nenhuma linha em nenhum dos grandes jornalões do país. Dércio morreu, enfim, do jeito que viveu.

O Brasil perdeu um dos seus melhores soldados. Um artista único, um repórter musical que via e ouvia outro país, dado como morto ou perdido para sempre, e o recuperava. Fazia com a cultura popular o mesmo que adoraria ter feito com a natureza em sua militância ambiental também incansável. Cantava impressionantemente bem, tocava inúmeros instrumentos, conhecia cada ritmo, dança, folguedo de cada região do Brasil e do continente americano. Chegava de repente, dormia onde desse, cantava como fosse. E quem o ouvia nunca mais o esquecia.

Através da sua voz, assim como dos grandes mitos das maiores transformações, cantava todo um povo. Um povo que agora cantará por sua boca.

***

João Bosco comemora 40 anos de carreira com repertório – tanto autoral quanto de outros – repleto de significados, um time de músicos dos sonhos e parti­cipações maiúsculas da no­ssa música. E o resultado final não é, nem de perto, o que o leitor imagina. É muito melhor.

Com um formato inusitado, o CD e o DVD João Bosco 40 anos depois foram pensados como um programa de televisão, gravado ao vivo em estúdio. Nele, João canta e toca, ora sozinho, ora com sua banda de apoio ou com músicos convidados e participantes pra lá de ilustres. Estão na gravação gente como Chico Buarque, Milton Nascimento, João Donato, Roberta Sá, Toninho Horta, Trio Madeira Brasil e o pianista, arranjador e compositor Cristóvão Bastos.

De forma sóbria e elegante, cada um dos números musicais é apresentado com o título na tela, acompanhado de um fundo onde aparece a respectiva partitura da canção. A partir daí, quem manda é a música por excelência. E o autor optou por um repertório que, de alguma forma, marcou sua carreira, na maioria das vezes de forma pessoal. E o bom e surpreendente disso é que a relação pessoal que João tem com as canções muitas vezes coincide com as do seu público.

Obras maravilhosas de sua autoria, com a antológica parceria com Aldir Blanc – como “Agnus Sei”, responsável por seu lançamento para o grande público por meio de um disco de bolso distribuído, em 1972, pelo jornal O Pasquim – “Plataforma”, “De frente pro crime” e “Caça à raposa”, eternizada por Elis Regina, se misturam a canções mais recentes, como “Tanajura”, com seu filho, o escritor Francisco Bosco e “Trem Bala”, com Wally Salomão e Antônio Cícero.

Não bastasse a sua primorosa obra autoral João resolve atacar de intérprete. E, de forma insuspeita, recria, com a sua voz e violão, interpretações magníficas para clássicos como “Lígia” e “Fotografia”, de Tom Jobim, a obra-prima de Paulinho da Viola “Tudo se transformou”, “o clássico do repertório do cubano Bola de Nieve, “Drume Negrita”, as belíssimas “Tarde”, de Milton Nascimento e Márcio Borges e “Lília”, tema instrumental também de Milton. Para encerrar, com a participação do próprio autor, canta a brejeira “Bom tempo”, de Chico Buarque, que também participa em “O mestre-sala dos mares”.

João Bosco 40 anos depois é uma grande obra que, ao contrário do que se pode imaginar num primeiro momento, está longe de ser um caça-níquel, um mero apanhado de seus sucessos. João está em excelente forma, tanto como cantor quanto como instrumentista, e, com seus convidados, produziu uma gravação luminosa, na qual consegue reler de maneira muito criativa e sutil a sua obra sem adulterá-la. Um disco capaz de agradar tanto quem já o conhece quanto as novas gerações que merecem a sua música imprescindível.



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