A revolução tem que continuar

O diretor de cinema Ahmed Rashwan veio ao Brasil lançar o seu documentário Nascido em 25 de janeiro, sobre a revolução egípcia, e, na entrevista abaixo, fala sobre o atual cenário político do país. “Não é só porque Mubarak caiu que estamos livres, que...

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O diretor de cinema Ahmed Rashwan veio ao Brasil lançar o seu documentário Nascido em 25 de janeiro, sobre a revolução egípcia, e, na entrevista abaixo, fala sobre o atual cenário político do país. “Não é só porque Mubarak caiu que estamos livres, que está tudo muito bem. Ao contrário, não está”

Por Mario Henrique de Oliveira

Foi em dezembro de 2010 que a Primavera Árabe deu seus primeiros passos, na Tunísia, quando a população do país saiu às ruas e conseguiu derrubar o ditador Ben Ali, no poder havia 23 anos. Logo, os protestos se multiplicaram na região, chegando ao Egito em 25 de janeiro de 2011. Quando milhares de manifestantes lotaram a Praça Tahir para dar um basta ao governo de Hosni Mubarak, que comandava o país havia 30 anos.

Naquele dia, Ahmed Rashwan, diretor de cinema, também decidiu sair às ruas junto com o povo. Sem imaginar a proporção que aquilo tomaria, pegou uma câmera e começou a filmar toda a movimentação de dentro, mas era o cidadão que fazia isso, não o diretor.
Foi apenas em 11 de fevereiro, após a queda de Mubarak e com mais de 70 horas de filmagens, que percebeu a magnitude do que tinha vivenciado e que aquele material deveria virar seu novo documentário.

Surgia então o Nascido em 25 de janeiro, nome que, segundo Rashwan, representa não apenas o início da revolução, mas o nascimento de uma nova sociedade. O diretor veio ao Brasil para lançar seu documentário e recebeu a reportagem da Fórum para uma conversa no saguão do hotel em que esteve hospedado. Nela, ele conta que ainda está preocupado com o futuro do Egito, mas que os cidadãos já sabem que não podem, e não vão, se calar diante de novas injustiças. Confira a entrevista na íntegra.

Fórum – Quando você foi para as ruas com uma câmera na mão, em 25 de janeiro de 2011, imaginava que aquilo que estava presenciando era algo histórico?

Ahmed Rashwan – De maneira nenhuma. Na verdade, ninguém podia imaginar o que aconteceria. Sabíamos o que queríamos, conhecíamos nossa luta, mas não imaginávamos. No começo, tratávamos o fim do regime Mubarak como uma esperança, quase como uma utopia, mas decidi filmar porque achei que era algo importante de ser registrado. Reuni-me com amigos no Sindicato dos Artistas para planejarmos alguma ação, alguma coisa, mas não tínhamos a noção exata do que era. Queríamos liberdade, só isso.

Começamos a perceber a grandiosidade do que estávamos fazendo e participando três dias depois, no dia 28 de janeiro, data que ficou conhecida como a “Sexta-feira da Ira”. Foi um dia marcante, saímos às ruas e vimos pessoas machucadas, sangrando, sem um olho, tudo fruto da violência do exército, não sei se alguém que eu vi morreu, mas vi gente em condições muito graves. Ali, percebemos que seria algo grande e muito importante.

Após esse dia, as ruas ficaram sem polícia, não havia segurança. Muitos prisioneiros fugiram das prisões, então, a própria população começou a se articular para se proteger. Moradores de cada bairro protegiam sua área, montavam barreiras humanas, e só se podia passar por eles mediante o uso de senhas, algum código, sinal ou bilhete de outro membro. Isso foi chamado de Comitê do Povo, porque era o povo que decidia o que fazer. As decisões passavam pelas pessoas, a partir daquele momento.

Fórum – Foi depois da queda de Mubarak que percebeu e decidiu que aquilo deveria virar um documentário?

Rashwan – Sem dúvida. Primeiro, porque sempre procurei passar o meu ponto de vista como cidadão, e isso era importante. Diferentemente dos jornalistas que estavam ali cobrindo, vendo de fora ou com algum filtro, eu estava ali dentro, vivendo aquilo. Segundo, porque a queda dele não foi total, Mubarak não saiu e o Egito ficou livre, havia ainda os seus vestígios no poder, pessoas ligadas a ele continuaram no poder. Depois de sua queda, o país foi governado durante um bom tempo por uma junta militar, que adiou as eleições algumas vezes, sendo que Mubarak era um militar. Mas o povo, àquela altura, sabia do seu poder e se recusava a ter uma nova ditadura. Foi aí que decidi continuar a filmar, porque a revolução tinha que continuar. Eu já tinha mais de 70 horas de imagens, e houve muitas crises ainda depois disso.

Fórum – Você chegou a levar seus filhos, de 8 e 11 anos, para as manifestações na Praça Tahir. Não tinha medo de alguma coisa acontecer a eles?

Rashwan – Não, porque o sentimento do povo, de dentro da revolução, não era de violência. Você podia andar pela praça de forma tranquila e via muitas crianças ali. Todos queriam levar seus filhos para vivenciarem aquilo. Eles podiam ver pela TV, mas era preciso ver ao vivo, entender o que estava se passando. Era um sentimento pela busca da liberdade que deveria ser transmitido para os filhos. Cresci no regime de Mubarak, não tive essa oportunidade que eles tiveram, então, queria que eles vivessem isso para saberem da importância, uma coisa para levar para o resto de suas vidas como exemplo, do bom e do mau.

Fórum – Qual foi a importância da internet e das redes sociais dentro da revolução?

Rashwan – Tiveram muita importância em vários aspectos. Um deles foi que todos os encontros foram marcados pela internet, em especial o primeiro, do dia 25. Todo mundo falava em fazer alguma coisa, mas foram a internet e as redes sociais que conseguiram mobilizar todos, iniciar um marco. O governo chegou a cortar a internet e as linhas telefônicas por algum tempo e algumas vezes, mas a semente já havia sido plantada. Quando não podíamos nos comunicar pela internet, sabíamos que era para nos reunirmos na Praça Tahir.

Outro ponto importante foi a possibilidade de o mundo todo ver, ouvir e até falar conosco, de saberem o que estava se passando por lá; porém o mais importante, sem dúvida, foi a troca de energias, principalmente entre as diferentes cidades. Cada um mostrava ao outro o que estava sendo feito por lá e não deixavam ninguém os desanimar. Existe uma pequena cidade chamada Suez, que é o lar de gente muito brava, corajosa, e foi muito importante para o sucesso da revolução. Por muitas vezes, houve momentos de cansaço na população e muitos pensaram em desistir. O povo de Suez nunca deixou que isso ocorresse, quando sentiam que o moral do Cairo ou da Alexandria estava baixo, mandavam vídeos motivacionais, com palavras de ordem e incentivo, mostravam o que estavam fazendo por lá e diziam para continuarmos na luta. Isso tudo não seria possível sem a comunicação que a internet e as redes sociais permitiram.

Fórum – Quando finalmente ocorrem, as eleições também foram um tanto conturbadas, com o medo, inclusive, em relação a possíveis fraudes. Para você, tudo isso era natural em um país que passava por um processo de redemocratização? Pode nos dizer também em quem votou?

Rashwan – Posso sim, votei no Hamdeen Sabahi, que ficou em terceiro lugar, fora da disputa do segundo turno. Ele é um socialista e um cara que estava com o povo nas ruas durante a revolução, mas sabíamos que era muito difícil ele ganhar, já foi uma surpresa ter tido mais de 4 milhões de votos. Esperavam que ele recebesse apenas 1 milhão, no máximo. Houve um certo temor, sim, mas ganhou o partido que tem mais poder, mais dinheiro e mais organizado politicamente. Mohamed Morsi ganhou porque a Irmandade Muçulmana colocou muitos recursos em sua campanha e ainda tem uma voz muito ativa no Egito. Mas não se pode confiar na Irmandade Muçulmana, porque eles mudam o discurso a todo instante. Ao se eleger, Morsi disse que governaria para todos, não apenas para a Irmandade; temos que ficar de olho, sei que ainda é um período muito curto para fazer uma avaliação mais profunda, porém, como já disse antes, o povo egípcio sabe que não pode mais ficar calado.

Fórum – Esse pouco tempo de governo mudou alguma coisa?

Rashwan – Ainda não, mas já deu tempo para que fossem tomadas algumas medidas impopulares, das quais discordo completamente. É comum hoje no Egito a energia ser cortada por períodos indeterminados e sem aviso prévio. Nunca se sabe quando vai faltar luz e ele [Morsi] ainda não se pronunciou sobre isso. Gasolina é outro problema, há um racionamento, poucos postos, às vezes perdem-se quatro horas só na fila de espera para abastecer, e isso significa perda de dinheiro para muitas pessoas que dependem do transporte, como, por exemplo, os taxistas, os quais considero um termômetro da satisfação popular porque andam muito, com diferentes pessoas, conversam bastante, sabem o que o povo está sentindo.

Outra decisão que Morsi já tomou foi a de trazer de volta os membros do Parlamento, o que vai contra o posicionamento da Suprema Corte. Para mim, isso é muito ruim e mostra que o governo dele deve ser apenas para a Irmandade, porque 70% do Parlamento é da Irmandade e eles ficam perdendo tempo e gastando nosso dinheiro e energia com discussões fúteis, sem importância. Tem de haver no governo uma definição das prioridades para a população. O povo quer segurança, quer comida, enquanto isso, querem discutir o uso de maiôs pelas mulheres, se é legal ou não. Uma parcela deles já disse que quer interromper as aulas de inglês nas escolas.

Fórum – E na produção de cultura? Houve alguma mudança desde o governo Mubarak até agora?

Rashwan – Para Mubarak, a cultura nunca foi uma prioridade. Ele era sarcástico e costumava debochar de quem lhe perguntava sobre o assunto. Dizia assim: “Cultura? Vai lá brincar de bola, vai.” Não apoiava de maneira alguma. Ia além, não só não apoiava como tentava “comprar” os intelectuais do país. Oferecia dinheiro, emprego, para eles ficarem quietos. Claro que a maioria não aceitava, mas perdemos alguns, pois, no final, o dinheiro pesava e eles pensavam na família também.

Agora, as pessoas já percebem a importância da cultura para a sociedade, já sabem dar valor, entendem que é necessário para o crescimento, entretanto, como disse, ainda é pouco tempo para afirmar se alguma coisa vai mudar ou não. O que posso dizer é que os intelectuais ainda estão preocupados com a censura.

Fórum – Como você enxerga o futuro do Egito a partir de agora? A Revolução continua?

Rashwan – Para ser sincero, por tudo isso que falei, por tudo o que vivi e que vejo, estou preocupado. Não é só porque Mubarak caiu que estamos livres, que está tudo muito bem. Ao contrário, não está. Não podemos ficar calados e criar novos ditadores. Perdemos muita gente durante a revolução, jovens bravos, devemos honrar a memória deles, por isso a revolução tem que continuar. Mas tento ser otimista também, e paciente, porque sei que se leva tempo para a redemocratização total de um país. Ainda estamos aprendendo a conviver com isso, e a jornada é longa. F



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