Jards Macalé e Paulo César Pinheiro

A princípio, eram algumas canções para disponibilizar na internet. Virou um dos mais lindos discos lançados recentemente por essas plagas. O compositor e instrumentista é José Paulo Becker, um dos maiores violões do Rio...

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A princípio, eram algumas canções para disponibilizar na internet. Virou um dos mais lindos discos lançados recentemente por essas plagas. O compositor e instrumentista é José Paulo Becker, um dos maiores violões do Rio de Janeiro e do mundo; o letrista é nada mais nada menos que Paulo César Pinheiro; e o cantor, ora, o cantor é quem manda no samba por esses dias, ou seja, Marcos Sacramento.

Trata-se de Todo mundo quer amar, de José Paulo Becker e Marcos Sacramento. Um desses discos que tiram a respiração de quem ouve. Daquelas coisas que a gente tem a impressão de que, um dia, num futuro bem lá na frente, ainda vai contar: “Ah, eu tava lá e ouvi assim que saiu”. O exagero se deve a várias coisas separadas e todas juntas.

O fato de somar tantos talentos num mesmo balaio nem sempre garante ou justifica um grande disco. Água não se mistura com azeite.O bom de Todo mundo quer amar foi o amálgama, a liga, o jeitão de samba moderno com um pé na tradição.

Os três têm em comum a profunda paixão pelo Rio, seus sambas e suas gentes. O violão de Becker tem o suingue perfeito para as escapadas e meandros da incrível voz de Sacramento. Não é de hoje que os dois vêm juntos. O disco anterior do cantor, Na cabeça, traz o inusitado acompanhamento, único e tão somente, dos violões de Luis Flavio Alcofra, Rogério Caetano e, é claro, o mesmo Becker.

Desta vez, no entanto, Becker sai da cozinha e vai para a sala. E, em alto estilo, como compositor e parceiro de Paulo César Pinheiro. A qualidade das composições revela uma faceta até então escondida do autor. São sambas divertidos, matreiros e pra lá de ricos. Daqueles que lembram Baden e Vinicius, ou seja, daqueles que dançam e falam sério ao mesmo tempo. Bem que mereciam mesmo um intérprete do nível de Sacramento. Assim foi feito.

Aos dois se somaram músicos de primeira, que, sob a batuta do próprio Becker, encantaram ainda mais os lindos sambas, choros, canções e tudo o mais que o valha. O resultado final é de espantar. Todo mundo quer amar tem um som único, vigoroso e econômico, execuções primorosas e um sabor intenso. É música brasileira da melhor linhagem feita no melhor estilo. A impressão que dá é que a realização do disco encontrou, como que por encanto, todos os seus autores em estado de graça.

As letras de Paulo César Pinheiro, poeta maior do samba, falam de amor. De amor vivido, amor chorado, realizado, desfeito, falam enfim de amor de todos os jeitos. Vão da mais profunda dor à melhor das alegrias, brincam e falam sério.
No final das contas, ao ouvinte resta, antes de retornar ao início, uma gratidão imensa. Todo mundo quer amar, como já foi dito no início, é um disco lindo, de quem tá de bem com a vida, vive pra saber e anda por aí, com talento de sobra pra contar como é que é.

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Outro que tem o que contar é Jards Macalé. Jards, seu novo disco, surgiu de um programa de televisão para o Canal Brasil. A ideia era comemorar e celebrar a sua carreira e música. Para tal, foram convidados músicos de primeira linha, comandados pelo pianista Cristóvão Bastos e alguns convidados cantores. Todos interpretariam clássicos da carreira do compositor.
Um projeto desses é perigoso e ambíguo. Canções consagradas, que já estão na memória afetiva de todos, podem muito bem soar como coisa requentada. Fazer reviver coisas que, por si só, já são imortais, muitas vezes pode virar chuva no molhado, mais do mesmo.

Qual nada. A energia das canções de Macalé submergiu para o século XXI com uma força que talvez nem mesmo o próprio compositor suspeitasse ter. A regravação consagrada de “Vapor barato” pelo grupo O Rappa, em 1996, já poderia dar um indício disto. No entanto, neste Jards algo de mágico aconteceu, e o som de Macalé aparece reinventado, límpido, buscando (e encontrando) novos caminhos através do próprio autor, um grande intérprete.

Não bastariam para isso os grandes músicos que gravaram o disco, como Jorge Helder, Jurim Moreira, Dirceu Leite, Márcio André, Roberto Marques, Alexandre Brandão, Maurício de Barros, Victor Biglione, Kassin, Pedro Sá, Domenico, Chacal e ainda coral e cordas. As participações estelares de Elton Medeiros, Luiz Melodia, Frejat, Thais Gulin e Ava Rocha também não seriam suficientes para transformar o disco no que é. O grande mistério de tamanha modernidade está mesmo no fato de a música de Macalé, apesar de transitar no pop e estar com um pé bem fincado na tradição, ter mesmo um ponto à frente do seu tempo.

O reggae, por exemplo, que hoje já é coisa batida, era relativa novidade por aqui quando foi lançada, em 1977, no disco Contrastes, a canção “Negra melodia”. A sua estrutura, que contrapõe simplicidade e um tom coloquial com uma linguagem rica, repleta de imagens recortadas, parece ainda hoje, mais de 30 anos depois, ainda mais moderna. O dueto com Luiz Melodia dessa regravação joga a invenção para mais adiante ainda no som de Kassin, Domenico e Pedro Sá.

A própria abertura do disco, que traz Elton Medeiros e sua caixinha de fósforo, cantando “Juízo final”, de Nélson Cavaquinho e Elcio Soares sobre o inconfundível violão de Macalé, já deixa claro que tipo de modernidade interessa ao autor. De lá para o quase final, com a comovente “Berceuse Creole”, em parceria com Wally Salomão e a participação definitiva de Ava Rocha, o disco se encerra triunfal com “Mulheres”, inusitada e linda parceria com Zé Ramalho.

Diversas canções de várias fases da sua carreira reaparecem aqui e ali, totalmente remodeladas. Muitas delas, a princípio, poderão causar estranheza ao ouvinte, que irá preferir, talvez, a gravação original. Tudo bem, faz parte da nossa eterna defesa pela manutenção do tempo.

Já o garoto Macalé, beirando seus 70, pede passagem novamente e segue seu caminho ao futuro, com a energia de quem recém surgiu de uma pequena banda de garagem.



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