O futuro olímpico do Brasil

Governo, educadores e atletas avaliam o audacioso projeto brasileiro de se tornar pelo menos a décima potência olímpica em 2016

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Governo, educadores e atletas avaliam o audacioso projeto brasileiro de se tornar pelo menos a décima potência olímpica em 2016

Por Pedro Venceslau

O vento na pista, a punição duvidosa no ringue, o gol relâmpago no primeiro tempo da final, uma virada antológica depois de três match points na quadra, a inesperada superação dos adversários na areia e uma zebra na medal race, a última regata na vela. Não fosse a sequência de dissabores que marcou o último fim de semana dos Jogos Olímpicos de Londres, o Brasil teria saído do evento coberto de glórias sob todos os aspectos. E o tom do debate nos quatro anos que faltam até a Rio 2016 seria completamente outro. Mas como a vida é assim mesmo, cheia de surpresas, não restou alternativa ao governo – que investiu pesado direta e indiretamente no ciclo olímpico 2008-2012 – a não ser cerrar os punhos e entrar na defensiva em relação ao desempenho do país em Londres 2012. A pressão da opinião pública desde o fiasco daquele fatídico domingo no vôlei masculino, que já seria naturalmente insuportável, tornou-se ainda mais pesada com as declarações em série de atletas criticando a falta de estrutura para treinar e viver.

Como se não bastasse, a biografia publicada de um dos poucos heróis olímpicos, o medalhista Arthur Zanetti, surgiu como um retrato escancarado do esporte no Brasil. “Campeão foi formado sem ajuda de confederação ou do comitê”, cravou a manchete da Folha de S.Paulo. A reportagem revelou que há pouco tempo ele não contava sequer com argolas de nível olímpico para treinar; isso, apesar de a confederação da sua modalidade ter recebido R$ 7 milhões do governo em 2011 para comprar aparelhos. Zanetti só recebeu equipamento adequado para treinar a três meses dos Jogos. Depois de ser eliminado da final, o cavaleiro José Reynoso engrossou o coro dos descontentes. “O governo ajuda para tudo quanto é lado, e pode uma vez ou outra ajudar a gente.”

Apesar de o discurso do COB e do governo bater na tecla que o País recebeu seu maior número de medalhas, a imprensa preferiu ressaltar outros aspectos. “Número de finais olímpicas alcançadas pelos brasileiros caiu em relação a Pequim. Antes dos Jogos, consultor do COB disse que seria desapontador se país só repetisse resultado de 2008”, cravou o jornal O Globo. Não faltaram referências e questionamentos ao fato do Brasil ter ficado atrás do Cazaquistão e de o Irã no quadro de medalhas. O ministro do Esporte, Aldo Rebelo, que enviou a Londres uma equipe de 16 pessoas para capitalizar os bons resultados, sentiu o golpe. E anunciou lá mesmo, na capital inglesa, um pacote de medidas que ainda estava sendo gestado no Palácio do Planalto, o “Plano Medalha”.

Parece simples, mas não é. Por trás dos planos traçados para que o Brasil não passe vergonha no quadro de medalhas em 2016, no Rio de Janeiro, existe um intenso debate político, técnico e até ideológico. Há tempo hábil para formar atletas de base ou o ideal é injetar recursos nos (quase) campeões de sempre? A falta de investimento em Educação Física no ensino médio é o que nos separa do desempenho de outros países? É possível confiar nas federações e confederações como fiadoras receptoras dos recursos públicos ou elas são “caixas-pretas”? Para entrar no debate, Fórum ouviu o governo, atletas olímpicos, educadores e especialistas.

A história épica de Esquiva

No terceiro toque do celular, quem atende o telefone de Esquiva Falcão Florentino é o seu mentor e antigo técnico, Raff Giglio. Ele informa que o nosso herói olímpico do boxe está incomunicável, pois viajou para sua terra natal, no Espírito Santo, logo depois de ser recebido por Dilma Rousseff no Palácio do Planalto. Apesar do desencontro, o treinador faz questão de contar a história de seu pupilo. “Conheci o Esquiva aos 15 anos em uma seletiva em São Paulo, e o trouxe para treinar aqui no Vidigal.” Depois de algum tempo morando e treinando na academia de Giglio, o boxeador decidiu voltar para o Espírito Santo. “A carreira dele estava sendo jogada fora. O Esquiva estava largado e desiludido. Então, liguei para seu pai, o ex-boxeador Touro Moreno, e o trouxe para o Vidigal. Eu dava casa, café da manhã, almoço e janta, e ele morava aqui”, conta o mestre.

O capixaba bom de briga logo se destacou no ranking nacional e conquistou o direito a receber R$ 925 mensais do Bolsa-Atleta, programa do governo federal que financia atletas de alto rendimento bem colocados no ranking. “Pouco depois ele pulou para mil e poucos reais. Esse dinheiro ajuda muito quem não tem nada. Um atleta de boxe de alto nível precisa de suplementos, luvas, protetores genital e labial, exames periódicos e alimentação balanceada. Além de dinheiro para pagar as contas sem ter outro emprego”, informa Raff.

Quando começou a se destacar nos torneios nacionais, Esquiva reforçou o orçamento com um salário pago pela Petrobras. Apesar do incentivo, o valor é ínfimo perto do que recebem atletas da modalidade de outros países. “Dependendo do nível do atleta, o valor ideal para ele viver bem seria tranquilo R$ 15 mil. Às vezes, o cara tem família para sustentar.” Esse é justamente o valor máximo que o Bolsa Pódio, do Ministério do Esporte, pretende dar aos atletas de altíssimo rendimento no ciclo olímpico 2012-2016. Apesar de elogiar a iniciativa oficial, Raff Giglio pondera que seria preciso investir também nos atletas de base que não estão em nenhum ranking. “Tenho aqui no Vidigal hoje dois atletas que são promessas para 2016. Anote aí: Michel Borges e Patrick Chagas.”

Aos 43 anos de idade, o mesatenista Hugo Hoyama ainda não sabe se disputará as Olimpíadas do Rio de Janeiro em 2016. “Acho muito difícil que a modalidade consiga uma medalha no Rio. Seria a primeira”, diz. O atleta explica que existe um abismo entre ele e seus adversários. “O tênis de mesa na Europa é muito mais profissional. Eles recebem bons salários e seus clubes estão em boas condições financeiras. Na Alemanha, existe uma liga profissional, e os jogos são transmitidos ao vivo pela TV.” Hoyama consegue viver apenas do esporte, mas leva uma vida modesta. “Recebo uma bolsa de R$ 3,1 mil e um salário complementar do meu clube. Isso antes não existia, e ajuda muito.” Ele diz que a modalidade exige gastos altos com viagens e equipamentos. E faz um alerta. “O ideal seria que o governo investisse na base e nos atletas de ponta para formarmos uma geração vencedora.”

Atleta de luta olímpica, Joice Silva recebe R$ 1.850 por mês do Bolsa Atleta. “Se comparar esse valor com o que recebem atletas de outros países, é pouco. Lá fora, eles recebem casa, alimentação, lugar para treinar e roupas. Mas como sou sozinha, para mim é o suficiente.” Ela complementa a renda com um patrocínio estatal da Caixa Econômica Federal, que entra por meio da confederação da modalidade. “A confederação ajuda muito e paga o intercâmbio.”

Uma meta ousada

O sonho da presidenta Dilma Rousseff é que o Brasil consiga um lugar entre os dez primeiros colocados no quadro de medalhas nas Olimpíadas de 2016. Para isso acontecer, o país precisaria conquistar 30 medalhas, ou seja, 13 a mais que as recebidas em Londres. Para chegar pelo menos perto disso, o Ministério do Esporte concebeu um projeto que foi apelidado provisoriamente de “Plano Medalha”. Até o fechamento dessa edição, ele ainda não havia sido apresentado pela presidenta em Brasília, com a presença de todos os atletas olímpicos e paralímpicos. Mas a ideia é essa. “O Plano pretende trazer técnicos do exterior para o Brasil e enviar atletas para treinar e competir no exterior. É muito importante que o atleta brasileiro tenha, cada vez mais precocemente, essa experiência internacional”, afirma Ricardo Leyser, secretário de Alto Rendimento do Ministério do Esporte. Militante histórico do PCdoB, ele está na pasta desde 2003 e foi um dos poucos “sobreviventes” da gestão Orlando Silva. À Fórum, explicou que a ideia é injetar recursos nas categorias de base por meio das federações e confederações esportivas. Mas não mencionou valores.

Trata-se de uma estratégia controversa. “O problema do atual ciclo olímpico não foi dinheiro, foi de gestão. As federações tiveram recursos, mas geriram mal o dinheiro”, sustenta o economista Darcio Genicolo Martins, especialista em Economia do Esporte, da PUC-SP. “Vários medalhistas reclamaram que o dinheiro não chegou. Houve uma briga política na ginástica, e a vela foi um caso paradigmático. Faltou recurso.” O economista diz que as confederações e federações são verdadeiras “caixas-pretas”. “A sociedade civil não tem mecanismos legais de fiscalização. A Lei de Acesso à Informação não chegou lá.”

O próprio ministro do Esporte, Aldo Rebelo, é um crítico dos feudos esportivos. Mas mesmo assim injetará recursos neles. Ele é entusiasta de um projeto de lei do Senado que pretende impor o limite de quatro anos para a duração dos mandatos dos “cartolas” das modalidades. “Embora essas entidades não sejam públicas, elas gozam de isenção de impostos e incentivos do governo. Por isso, devem seguir os padrões democráticos que a sociedade brasileira estabeleceu”, disse o senador Cássio Cunha Lima (PSDB-PB), autor do projeto, em entrevista à revista CartaCapital. Os exemplos são gritantes. O presidente da Confederação de Atletismo, Roberto Gesta de Mello, por exemplo, está no poder há 25 anos. Seu colega Coaracy Nunes, de Desportos Aquáticos, há 24 anos. E Carlos Arthur Nuzman, o poderoso presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), comanda a entidade com mão de ferro há longos 17 anos. Sobre esse ponto, o Ministério do Esporte alega que não existe outra maneira de injetar recursos nas modalidades sem ferir a Lei Pelé, que veta a intervenção do Estado nas federações. Segundo o secretário de Alto Rendimento, os investimentos serão monitorados eletronicamente. Entidades que tenham pendências com o governo ou com a Controladoria Geral da União (CGU) não poderão nem se inscrever.

Esporte nas escolas

Os esportistas costumam repetir um discurso que não encontra eco no Ministério do Esporte: o Brasil não é uma potência olímpica porque não investe em Educação Física no ensino médio. Para Ricardo Leyser, a ausência de equipamentos e o baixo investimento em Educação Física não podem ser usados como justificativa dos dirigentes esportivos para o desempenho olímpico. “Não existe vôlei e judô nas escolas, mas o Brasil é bem-sucedido nessas modalidades”, exemplifica. Ele afirma que o Brasil já pode estar entre os dez primeiros no quadro de medalhas em 2016 – ou seja, ganhar pelo menos 13 medalhas a mais – mesmo sem as escolas.

“Treino atletas internacionais e todas começaram na escola, por isso, a importância do professor de Educação Física. No Brasil, a disciplina deixou de ser obrigatória entre 1996 e 2001. Perdemos cinco anos”, disse o técnico de ouro do vôlei feminino, José Roberto Guimarães, em um seminário com empresários do Grupo de Líderes Empresariais (Lide) no fim do ano passado. O especialista em Economia do Esporte, Darcio Martins, concorda com ele. “É na escola que se cria a cultura esportiva e se aprende a competir. Na hora da pressão, isso faz toda a diferença.” O secretário de Ensino Básico do Ministério da Educação, César Calegari, explicou à Fórum que a Educação Física está no currículo do ensino médio, “mas o peso dela varia”. “Não existem diretrizes que especifiquem qual deve ser a carga horária de nenhuma disciplina. O mais comum é que sejam duas aulas por semana”, explica. Ele reconhece, porém, que a estrutura das escolas “ainda é um gargalo” para a prática esportiva. “O governo está investindo na cobertura das quadras, mas faltam professores de Educação Física.”

O projeto do MEC é cobrir 10 mil quadras até 2014. O investimento será de R$ 1,4 bilhão. “Não basta apenas cobertura. As escolas públicas brasileiras não têm estrutura para a prática de atividades físicas. A maioria não tem nem quadra ou espaço de lazer adequado”, rebate a historiadora Regiane de Oliveira, especializada em Educação, do jornal Brasil Econômico. “Há um debate muito grande envolvendo esferas do governo e educadores para ampliar a carga de atividades dos alunos na escola. Esse projeto é chamado de ‘Escola Integral’. Para que isso aconteça, é preciso investir em equipamentos. Mas isso custa caro, e o governo não demonstra ter interesse em ampliar os recursos da educação”, conclui. F

 

Educação Física como legado olímpico

Em audiência pública na Câmara dos Deputados, no final de agosto, o presidente do Conselho Federal de Educação Física, Jorge Steinhilber, fez um pedido inusitado às autoridades presentes: que o ensino da história das Olimpíadas e da prática desportiva nas escolas tenha o mesmo peso das obras de infraestrutura para 2016.

Ele defendeu que o governo valorize o professor de Educação Física, que é o responsável pela formação da base dos atletas. Para Steinhilber, não é possível fazer uma relação direta entre o número de medalhas conquistadas nos Jogos Olímpicos e a saúde de seu povo. Para exemplificar sua tese, o presidente do Conselho de Educação Física usou o exemplo dos Estados Unidos. Apesar de ser sempre o campeão do quadro de medalhas, o país tem um número enorme de obesos.

 

Entenda o Bolsa Atleta

O governo brasileiro mantém desde 2005 o “Bolsa Atleta”, considerado o maior programa de patrocínio individual do mundo. Os beneficiários são atletas e para-atletas de alto rendimento que conseguiram bons resultados em competições nacionais e internacionais. São cinco categorias oferecidas pelo Ministério do Esporte: atleta de base, estudantil, nacional, internacional e olímpica. A próxima a ser anunciada será a Bolsa Pódio, que atenderá esportistas da elite com chances concretas de disputar finais. Os benefícios poderão chegar a R$ 15 mil mensais. Medalhistas como Maurren Maggi, Fabiana Murer, Diego e Daniele Hypolito, Arthur Zanetti e Thiago Camilo são potenciais beneficiários do programa.



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