O poder das tecnologias sociais

Debate transmitido pela internet lançou oficialmente o 3º Concurso Aprender e Ensinar Tecnologias Sociais

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Debate transmitido pela internet lançou oficialmente o 3º Concurso Aprender e Ensinar Tecnologias Sociais

Por Redação

O programa TV Fórum, transmitido via internet e feito em parceria com o Fora do Eixo, na Pós TV, trouxe para o debate o tema das tecnologias sociais, no mês de agosto. A ideia foi não apenas divulgar e lançar oficialmente o III Concurso Aprender e Ensinar Tecnologias Sociais, mas também apresentar e discutir o conceito a um público mais amplo.

“Queremos dialogar com o professor para que ele possa refletir como aplicar essa discussão do conceito de tecnologia social em sala de aula”, afirma Claiton Mello, gerente de Educação e Tecnologia Inclusiva da Fundação Banco do Brasil (FBB). O concurso, promovido pela revista Fórum e pela Fundação Banco do Brasil, premia professores da educação básica vinculados à rede pública e também de espaços não formais de educação (EJAs e ONGs). Os seis vencedores ganharão uma viagem para a Tunísia, onde vão participar do Fórum Social Mundial em março de 2013.

Na primeira edição do concurso, em 2008, foram 2.640 inscrições de educadores de todo o Brasil. Na segunda, em 2010, o número subiu para 3.075. Hortas de ervas medicinais na escola, a construção de um fogão solar com alunos e até um banco verde de trocas de materiais recicláveis foram algumas das propostas apresentadas. “O importante é ver como os problemas da comunidade se resolvem e como eles podem resolver os problemas da escola e serem levados à sala de aula”, ressalta Mello.

Contudo, é preciso definir o que são tecnologias sociais. Como explica o professor da PUC Ladislau Dowbor, em geral, a tecnologia é “algo que vem de cima, dos países ricos, de grandes corporações, mas isso pode ser invertido”. “Não temos que combater as tecnologias, temos que inverter o sinal político. Em vez de a tecnologia ser um elemento de dominação, coberto por patentes e royalties que temos que pagar, ela pode libertar”, completa. “O que a Fundação Banco do Brasil e os diversos grupos estão fazendo é estimular uma ‘digestão’ dessas tecnologias no sentido de inverter o sinal político delas para que sejam apropriadas pela base da sociedade, pelas micro e pequenas empresas e diferentes movimentos. Mas não para serem apropriadas e copiadas simplesmente, e sim combinarem com a riqueza que a sociedade tem”, explica.

Há inúmeros exemplos dessa inversão de sinal político das tecnologias, defendida por Dowbor. Como as cisternas de placa, desenvolvidas pela Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA) e apoiadas pela FBB, uma tecnologia que consiste em mobilizar as famílias, capacitar os moradores para formar comissões e mão de obra, incentivar o debate sobre os recursos hídricos e adquirir matéria-prima local, fomentando a economia da região. “Em vez de se ter uma grande empreiteira que vai fazer um monte de cisternas e depois de dois anos ficar tudo parado, tem-se um sistema apropriado pela comunidade, uma adaptação às tecnologias locais, um casamento enriquecedor”, sustenta Dowbor.

Paulo Freire e as tecnologias sociais

“É preciso lembrar Paulo Freire. Quando ele adotou a metodologia da leitura do mundo, pode-se dizer que ele criou uma tecnologia social, pois é uma metodologia que respeita o saber do beneficiado, que acaba se apropriando da metodologia. Esses elementos-chave do conceito de uma tecnologia social estão ali”, destaca o presidente de honra do Instituto Paulo Freire, Moacir Gadotti, que atenta para o caráter pedagógico do Concurso. “Quando as pessoas entendem o que é tecnologia social, rapidamente a identificam nas suas práticas. Esse aspecto pedagógico é importante, tornar-se sujeito, e não um sujeito ‘sujeitado’, que é apenas um usuário.”

Pedro Markun, da Casa da Cultura Digital, também ressalta a importância de a pessoa deixar de ser uma mera consumidora, passando também a produzir tecnologia. “A potência desse concurso está nos participantes, na possibilidade de ter mais de 2 mil pessoas que pensem: sou capaz de criar tecnologias”, acredita. “É uma virada de chave fantástica, perceber que a gente é capaz de criar nossas próprias tecnologias a partir de tudo que está em volta, sem pudor, sem licença. Mais ainda: nesse recorte específico do professor, que vive num lugar de desempoderamento tão grande que às vezes a última coisa que ele pensa, por uma série de desenhos institucionais, é que ele poderia criar tecnologia.”

Essa questão de se reconhecer como um produtor também foi destacada por Gabriel Fedel, do Fora do Eixo. “Isso está cada vez mais relacionado à dinâmica da sociedade hoje, na qual já não somos mais meros receptores, podemos postar, escrever, publicar, transmitir pela internet”, argumenta. “Quando a gente está falando de educação, está formando uma nova geração que cada vez mais vai achar estranho que não pode replicar isso ou aquilo. É uma mudança profunda, cultural, que se reflete em diferentes experiências.”

O poder do pequeno

As possibilidades abertas pelo Concurso, de reaplicação das tecnologias sociais e da difusão do conceito, foram temas centrais da discussão. “As pessoas não têm noção do que é uma progressão geométrica. Se você pega uma bactéria, que se divide a cada 20 minutos, em quanto tempo teremos um bilhão de bactérias? Pode-se pensar que vai demorar anos, mas são apenas nove horas. Uma coisa pequena, uma ideia boa, pode começar a se multiplicar, e se vê isso no Twitter, no Facebook, por exemplo”, exemplifica Ladislau Dowbor. Para ele, o fato de o conhecimento imaterial poder ser multiplicado, se trabalhado sob uma ótica de não rivalidade, é algo fundamental para uma efetiva transformação social, ainda mais se baseado no âmbito educacional. “A matéria-prima do professor é o conhecimento, e eles estão capilarmente distribuídos em todo o território; se você ancora esse processo de renovação e autotransformação das comunidades com o mundo da educação e as novas tecnologias de acesso e conectividade, tem-se um programa.”

“As organizações do século XXI são viróticas, se você contamina, você tem sucesso, e é algo por adesão voluntária, não por imposição”, sustenta Moacir Gadotti. “As tecnologias sociais têm o poder de ser viral. É fundamental que a expressão, tecnologia social, seja compreendida pelos educadores e, no título do Concurso, que é ótimo, está a ligação entre a docência e a discência, aprender e ensinar. Paulo Freire usava uma expressão incrível, a ‘dodicência’, é o aprender e ensinar que são inseparáveis”, destaca Gadotti, lembrando que o processo de ensino não pode ser vertical, feito de cima pra baixo. “Hoje, aliás, existe uma perspectiva neoliberal que centraliza tudo na aprendizagem, responsabilizando o aprendiz como se ele fosse um mero consumidor. Quem paga pode ter aprendizagem. Na verdade, quem sabe ensina a quem não sabe e vice-versa, e todo mundo sabe alguma coisa, essa dimensão é muito importante.”

Claiton Mello lembra que, além da difusão acerca da compreensão do que é tecnologia social, o objetivo também é debater direitos relacionados. “O debate é fazer com que mais professores participem do Concurso, que é uma oportunidade de ampliarmos a discussão das políticas públicas, do direito à informação, da liberdade de expressão e pretendemos fortalecer essa dinâmica no próximo Fórum Social Mundial.” F



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