Patativa, do Assaré e do mundo

A arte do poeta matuto, cantador e repentista, que mesmo com pouca escolaridade sabia fazer versos com métrica perfeita, ainda vive em sua cidade natal. E não só nela

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A arte do poeta matuto, cantador e repentista, que mesmo com pouca escolaridade sabia fazer versos com métrica perfeita, ainda vive em sua cidade natal. E não só nela

Por José Paulo Borges

A luz do Sol sertanejo entra pela porta dos fundos da casa, iluminando o perfil do homem pequeno e franzino sentado numa cadeira de balanço. Com a saúde abalada por causa de uma queda, a memória começa a faltar; para ouvir, precisa da ajuda de aparelho. Cego, apoia-se numa bengala. A voz, porém, impõe respeito: “Quem é que taí? Quem tá falando comigo?” Essa é uma das imagens que Antônio Gonçalves da Silva, o poeta com codinome de passarinho – Patativa –, deixou na memória de sua neta Isabel Cristina Gonçalves.

No final dos anos 1990, na travessia dos 89 para os 90 anos de vida, Patativa pouco saía de casa, no número 27 da rua Coronel Pedro Onofre. Quem estava com ele, quase todas as tardes, era Isabel, que lia a correspondência recebida pelo poeta. Vinham cartas de vários lugares do mundo, Alemanha, Hungria, Estados Unidos, França. Não era por acaso. Por causa dele, a cidadezinha de Assaré, hoje com mais de 22 mil habitantes, deixara de ser um ponto qualquer no mapa mundi. Era a Assaré do Patativa, o matuto, cantador e repentista, quase analfabeto – que também sabia versejar com a métrica perfeita de Camões –, doutor honoris causa em pelo menos três universidades e tema de estudos na cadeira de Literatura Popular Universal da Universidade de Sorbonne, na França.

“Meu avô pedia que eu lesse poesias para ele, Castro Alves, por exemplo. Aliás, ele considerava Castro Alves o maior poeta brasileiro”, conta Isabel, que também lia jornais para o poeta. “Gostava de saber notícias da política e também de ouvir o programa ‘Coisas do meu sertão’, transmitido pela Rádio Educadora do Cariri”, conta, enquanto mostra o acervo do avô guardado na Fundação Memorial Patativa do Assaré, que ela dirige atualmente.

O memorial, localizado em um casarão do século XVIII, abriga uma exposição permanente sobre sua vida e obra: fotos e quadros produzidos por diversos artistas e fotógrafos que utilizaram técnicas distintas, objetos pessoais, livros, LPs, CDs, vídeos. Esse material fica no primeiro andar do casarão, de três pisos. No segundo, o espaço é reservado para exposições, e no terceiro fica uma biblioteca de cordéis e o setor administrativo. O local – visitado por cerca de 600 pessoas mensalmente – dispõe ainda de um auditório, com 70 lugares. Um pouco da vida do poeta se espalha por toda parte, como na autobiografia, em letra de fôrma, preservada dentro de uma moldura na parede:

“Eu, Antônio Gonçalves da Silva, filho de Pedro Gonçalves da Silva e de Maria Pereira da Silva, nasci aqui, no sí­tio denominado Serra de Santana, que dista três léguas da cidade de Assaré. Com a idade de doze anos, frequentei uma escola muito atrasada, na qual passei quatro meses, porém, sem interromper muito o trabalho de agricultor… e daquele tempo para cá não frequentei mais escola nenhuma, porém sempre lidando com as letras, quando dispunha de tempo para este fim. Desde muito criança que sou apaixonado pela poesia.”

Uma paixão que deu outro nome a Antônio, nascido por meio dos versos do jornalista e advogado José Carvalho de Brito, publicados no Correio do Ceará, jornal que circulou de 1915 a 1982, e que terminavam mais ou menos assim: “É ave que canta solta / inda mais canta cativa / seu nome agora é Antônio /crismado por Patativa”. Corria o final dos anos 1920 e os versos, mais do que crisma, foram o batismo do poeta Antônio Gonçalves da Silva, que daí em diante virou Patativa, em alusão à ave de canto belo e, ao mesmo tempo, triste e melancólico. Verdade que em alguns estados do Nordeste surgiram outros “patativas”. Mas quando saía alguma poesia publicada nos jornais, o leitor logo indagava: “Aqui tem alguma coisa do Patativa?”. E reforçava: “Se é do Patativa do Assaré, eu quero”. E o nome Patativa do Assaré ficou, para todo o sempre.

O poeta nasceu em 5 de março de 1909, no município de Assaré, Ceará, filho dos agricultores Pedro Gonçalves da Silva e Maria Pereira da Silva. Ainda pequeno, no período da dentição, ficou cego do olho direito em consequência de uma moléstia conhecida por “dor-d’olhos” – na verdade, um sarampo malcuidado. Órfão de pai aos 8 anos de idade, teve de trabalhar cedo, no cultivo da terra, para ajudar no sustento da família. “Eu vivo aqui no Assaré, mas o coração ficou lá na Serra de Santana, onde nasci em 1909, no dia 5 de março, onde eu trabalhei muito até a idade de sessenta e tantos anos, trabalhando de roça”, afirmou Patativa do Assaré em entrevista concedida ao escritor, jornalista e pesquisador Gilmar de Carvalho, em sua cidade natal, em fevereiro de 1996, transcrita no livro Patativa poeta pássaro do Assaré. A frase resume o apego e o amor à terra que carregou até o final da vida.

Como grande parte dos nordestinos da época, o menino teve pouco acesso à educação: frequentou durante seis meses, se tanto, sua primeira e única escola, sem interromper o trabalho pesado de agricultor. Aprendeu a ler e escrever em dois livros do professor Felisberto de Carvalho (1850-1898), adotados em todo o país até meados do século XX. “Os dois livros eu tinha que estudar em dois anos. Agora, estudei seis meses e dentro desses seis meses eu li os dois livros, sem ser em ordem de colégio”, conta Patativa no livro Digo e não peço segredo (2001), organizado e prefaciado pelo professor Luiz Tadeu Feitosa.

Aqueles dois livros repercutiram intensamente em sua lira servage, como dizia, tanto que se apaixonou para sempre pela poesia. Passou a ler tudo o que lhe caía nas mãos, segundo registrou o jornalista e pesquisador de cultura popular Assis Ângelo. “Ele lia de Camões a Castro Alves, de Jorge Amado a José Louzeiro, e admirava Olavo Bilac. Patativa era uma pessoa muito preocupada com tudo à sua volta, principalmente com o saber, que ele dizia ser o tesouro maior do cidadão.”

Com 20 anos, começou a viajar por várias cidades nordestinas. O povo do sertão identificava-se imediatamente com sua poesia simples, espontânea, que retratava o universo árido da caatinga. Sua projeção em todo o Brasil se iniciou em 1964, a partir da gravação de “Triste partida”, em que ele relata a ida de uma família de retirantes para São Paulo. A toada emocionou Luiz Gonzaga, que quis comprar os direitos autorais. “Não, Luiz, num vendo por preço nenhum aquilo que eu compus com muito carinho e com muito cuidado”, relatou o poeta ao pesquisador Gilmar de Carvalho.

A questão social foi tema constante na obra e na vida de Patativa. Não foram poucas as vezes em que expressou sua indignação em relação às condições de vida dos brasileiros do chamado “andar de baixo”. Um exemplo é o poema “Brasi de cima e Brasi de baxo”:

“Inquanto o Brasi de Cima / Fala de transformação / Industra, matéra prima / Descobertas e invenção, / No Brasi de Baxo isiste / O drama penoso e triste / Da negra necissidade; / É uma cousa sem jeito / E o povo não tem dereito / Nem de dizê a verdade. No Brasi de Baxo eu vejo / Nas ponta das pobre rua / o descontente cortejo / De criança quage nua. / Vai um grupo de garoto / Faminto, doente e roto / Mode caçá o que comê / Onde os carro põe o lixo, / Como se eles fosse bicho / Sem direito de vivê.”

Durante os anos de chumbo da ditadura, criticou os militares e chegou a ser perseguido. Participou da campanha das “Diretas Já”, subindo no palanque com diversas personalidades da época. Também se envolveu ativamente no movimento pela anistia, traduzindo na “Lição do Pinto” o sentimento da sociedade da época:

“Vamos meu irmão / a grande lição / vamos aprender, / é belo o instinto / do pequeno pinto / antes de nascer […] Vamos minha gente / vamos para a frente / arrastando a cruz, / atrás da verdade / da fraternidade / que pregou Jesus […] Se direito temos / todos nós queremos / liberdade e paz, / no direito humano / não existe engano / todos são iguais / O pinto dentro do ovo / aspirando um mundo novo / não deixa de beliscar, / bate o bico, bate o bico / bate o bico, tico, tico / pra poder se libertar.”

Quase sem audição e cego desde o final dos anos 1990, morreu em sua casa aos 93 anos, em consequência de uma pneumonia dupla, além de uma infecção na vesícula e de problemas renais. O corpo do poeta está enterrado no cemitério São João Batista, na sua cidade natal.

Brincar de poesia

A neta Isabel, que o acompanhou nos últimos anos, também é responsável pela administração dos direitos autorais deixados por Patativa. Legado, aliás, que nunca rendeu lá grande coisa em dinheiro para a família, já que o poeta teve nove filhos. Segundo a neta, a herança para a família é a formação moral (rígida) que deixou aos seus. Já a arte da poesia não foi transmitida à prole. “Dos filhos que papai teve, ninguém aprendeu a fazer verso. A gente só fazia, às vezes, uma quadrinha”, relata Inês Cidrão, filha de Patativa.

Se entre os filhos não brotou nenhum poeta, Patativa deixou, porém, como legítimo herdeiro de sua arte, o sobrinho Geraldo Alencar. Nascido e criado, como o tio, na Serra de Santana, lá começou a fazer versos, aos 14 anos. “Meu tio era muito exigente, não tinha meias palavras, dizia o que sentia. Eu mostrava alguns versos e ele logo falava que aquilo não prestava. Até que um dia, escrevi o poema ‘Pergunta de Morador’. Aí ele ficou calado. Depois de uns dias, me perguntou: ‘Geraldo, você me dá a permissão de fazer a resposta pr’aquele verso seu’?”

Depois disso, sempre que estava na serra, Patativa pedia à filha: “Inês, vá ali chamar Geraldo, pra gente passar a tarde brincando aqui em Santana.” O sobrinho lembra, como se fosse hoje, dessas brincadeiras de fazer poesia: “Eu sentava na testeira [cabeceira] da mesa e meu tio, na outra ponta. Ele tirava um poema num instante, da mente, enquanto eu escrevia o meu.” Patativa não dava trégua ao sobrinho. “Ele dizia na hora que estava fora da métrica.” A parceria rendeu a antologia Balceiro, que reúne a produção de vários poetas de Assaré. E é “Balceiro”, assim mesmo, com ‘c’ – conforme a expressão sertaneja significando um monte de garranchos – neste caso, um monte, um “balceiro”de poetas da terra.

“A pessoa já nasce com aquela coisa de fazer poesia.” É assim que o filho de Patativa, que também se chama Geraldo e que há muitos anos mora em São Paulo, onde trabalha como vigia e manobrista, explica o dom do pai. Volta e meia, Geraldo, o filho, é chamado para declamar versos de Patativa em escolas e locais onde vivem nordestinos, em São Paulo. “Tenho muito orgulho disso”, afirma, enquanto mostra a tatuagem no braço com a imagem do pai.

E o artista com nome de ave ainda paira sobre sua cidade. Todos os anos, em março, mês de nascimento do poeta, Assaré é uma festa. É quando se realiza o “Patativa do Assaré em Arte e Cultura” evento que faz parte do calendário oficial do município. Nessa época, mestres e mestras de todas as artes populares que se possa imaginar – rezadeiras, sanfoneiros, cantadores, cozinheiras, artesãos, contadores de causos, vaqueiros, forrozeiros e por aí vai – são devidamente homenageados com o título de “Mestre dos Saberes Populares”. No quadro de honra dos contemplados estão, entre outros, José Lima Sobrinho (contador de causos), Miceno Pereira (cantoria de viola), Francisca Fernandes da Silva (rezadeira), Raimundo Alves de Caldas (sanfoneiro), José Pereira dos Santos (tradições religiosas) e João Lino de Alencar (literatura popular). Entre tantos mestres, destaque especial para Chico Paes, 86 anos, e sua harmônica “pé de bode”, de oito baixos, que ele carregou, de cima abaixo, dos forrós do Cariri cearense aos arrasta-pés dos bairros nordestinos da Zona Leste de São Paulo, durante 35 anos. Todos, levando um quinhão da cultura nordestina a todo canto. Tal como Patativa fez um dia. F

 



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2 comments

  1. don juan setimo Responder

    Ninguém consegue roubar o Don Juan, porque ele já morreu a muito tempo, nem Deus ,é ,mutreta código.
    Eles poem no site transando com uma mulher que conheceram, mas é a própria mulher deles, Descubra.Tem galinhas entrando , agtravessando a rua e carros da policia saindo , gente entrando e gente voltando!!!

  2. don juan setimo Responder

    niniguem consegue roubar o donjuan , nem Deus, porque ele já morreu.é mutreta código.Eles poem a mulher deles no site dizem que pegaram que era outra, tem mulheres entrando e carros da policia vsaindo, galinhas atravassando a rua e carros indo!!!Descubra!!!


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