Catalunha: vitória nacionalista com sabor amargo

A Convergência e União, do atual presidente Artur Mas, não conseguiu a maioria ambicionada. A Esquerda Republicana ultrapassou os socialistas como 2ª força

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A Convergência e União, do atual presidente Artur Mas, voltou a vencer as eleições, mas sem a maioria ambicionada. A Esquerda Republicana duplicou a representação parlamentar e ultrapassou os socialistas como segunda força

Por Esquerda.net

Mais de 5,4 milhões de eleitores (69,5% do total) votaram este domingo nas eleições autônomas catalãs, batendo assim o recorde absoluto de votantes, estabelecido em 1984, quando votaram 64,4% dos eleitores. O interesse pela decisão política quanto ao futuro da Catalunha disparou 11 pontos em comparação com as últimas eleições autônomas em 2010. O resultado deu uma vitória com sabor amargo. No discurso de reação aos resultados, o líder da Convergência e União (CiU) reconheceu que já não tem a força necessária para avançar sozinho com o seu modelo de autodeterminação. Artur Mas procurou corresponsabilizar a oposição pelo futuro não apenas do processo, como da governação da Catalunha.

Quando convocou as eleições para reforçar o seu poder na definição do processo de autodeterminação da Catalunha, o presidente da Generalitat – o governo autônomo catalão – não esperava por este resultado. A CiU passou de 62 para 50 deputados e afastou-se ainda mais da maioria absoluta no parlamento, só alcançada com 68 deputados. A oposição aos cortes e às medidas de austeridade do governo catalão acabaram sendo determinantes na decisão do eleitorado, que não permitiu a transformação de Artur Mas na figura inconteste para fazer frente a Madrid no braço de ferro político sobre um futuro referendo acerca da ligação da Catalunha ao Estado espanhol. Embora o conjunto das forças que apoiam um referendo para a autodeterminação catalã seja maioritário na nova composição do parlamento, ele manteve-se quase inalterado em relação a 2010 e continua aquém dos dois terços do total de deputados.

Catalães aumentam a confiança nos partidos independentistas à esquerda. (Foto Bernard…/Flickr)

Esquerda independentista sai reforçada

O apelo de Mas foi lido pela imprensa como dirigido sobretudo à Esquerda Republicana Catalã (ERC), a formação que passou de dez para 21 deputados e ultrapassou a bancada socialista, apesar de ter menos alguns milhares de votos que o PSC. “O processo para a independência saiu claramente reforçado”, afirmou Oriol Junqueras, o líder da ERC, sublinhando o apoio maioritário expresso nas urnas aos partidos naiconalistas e independentistas. Citado pelo El Periodico, Junqueras prometeu buscar acordos “com as restantes forças políticas e também com as organizações sociais e econômicas” catalãs, porque a proposta independentista “só poderá ter êxito se for assumida por todos”.

Uma novidade no discurso de Jonqueras foi a referência à Candidatura de Unidade Popular (CUP), a quem felicitou pela entrada no parlamento. Esta formação da esquerda independentista, que já tinha presença autárquica com mais de uma centena de eleitos, apresentou-se pela primeira vez a votos, conseguindo três deputados pelo círculo de Barcelona e 3,5% no total dos votos. Celebrando a “entrada do cavalo de Troia das classes populares” no parlamento, David Férnandez assumiu como uma das prioridades da CUP a concretização das condições sobre as quais se realizará um referendo sobre o futuro da Catalunha. Férnandez recordou ainda os três objetivos da candidatura: Acabar com os despejos, os cortes e o pagamento das dívidas ilegítimas.

Com 13 deputados eleitos (mais três que em 2010), a Iniciativa pela Catalunha – Esquerda Unida e Alternativa (ICV-EUiA) congratulou-se com os melhores resultados da história da coligação ecossocialista, apelou a uma frente contra a austeridade e apontou baterias a Artur Mas. Joan Herrera afirmou que “a vitória da CiU é a derrota dos seus objetivos políticos” e que os catalães expressaram com o seu voto que “não querem um governo de insensíveis”. Herrera quer que as formações da esquerda no parlamento catalão dificultem ao máximo a investidura de Mas.

Socialistas sofrem nova derrota histórica

O Partido Socialista Catalão saiu claramente derrotado destas eleições e até ultrapassou a queda sofrida em 2010, que já tinha sido o pior resultado da história. Desta vez, a bancada perde mais oito deputados, ficando reduzida a 20. Para Pere Navarro, o candidato do PSC, o único consolo deste resultado desastroso é que foi, apesar de tudo, menos mau do que previam as sondagens. “Nós estávamos num momento complicado, de reencontro com a sociedade. Numas eleições com tanta tensão, é possível que tenha custado fazer passar a nossa mensagem de sensatez”, declarou Pere Navarro aos jornalistas.

Apesar de ter obtido a melhor votação de sempre em eleições autônomas, o Partido Popular baixou para quarta força do parlamento catalão, com 19 deputados e acusou Artur Mas de ser o grande perdedor destas eleições, instando-o a abandonar “a sua postura separatista”. O movimento Ciutadans também obteve uma vitória histórica, passando de três para nove deputados. Esta formação defensora da união com Madrid foi uma das surpresas da eleição, ao conseguir um grupo parlamentar próprio, para o qual são necessários 5 eleitos. Albert Rivera exigiu a demissão de Artur Mas e anunciou logo na noite eleitoral a apresentação de uma moção de censura caso o líder da CiU avance para um novo mandato à frente do Governo autônomo.

Resultados das eleições

CiU – 30.68% – 50 deputados – 1.112.341    votos
ERC – 13.68% – 21 deputados – 496.292 votos
PSC – 14.43% – 20 deputados – 523.333 votos
PPC – 12.99% – 19 deputados – 471.197 votos
ICV – 9.89% – 13 deputados – 358.857 votos
CIUTADANS – 7.58% – 9 deputados – 274.925 votos
CUP – 3.48% – 3 deputados – 126.219 votos



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