Violeta foi para o céu e Chico na carreira

A força e o encanto de Violeta Parra e Chico Buarque

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Gracias a la vida que me ha dado tanto
Me ha dado la risa y me ha dado el llanto
Así yo distingo dicha de quebranto
Los dos materiales que forman mi canto
Y el canto de ustedes que es el mismo canto
Y el canto de todos que es mi propio canto

O filme Violeta foi para o céu, de Andrès Wood, sobre a vida da cantora e compositora chilena Violeta Parra é uma obra-prima. Tanto pela excelente adaptação do livro de Ángel Parra, filho de Violeta, quanto pela condução impecável do diretor. Mas, principalmente, pela notável interpretação da atriz Francisca Gavilán, que, além de viver a trágica e conturbada história, ainda canta – e muito bem – praticamente todas as canções da trilha sonora.

E é justamente a sua obra e peregrinação artística que nos interessa, o que toca a esta coluna. Violeta Parra é uma artista incomparável. Não há no Brasil, prenhe e reconhecido mundialmente por sua canção popular, um artista que se compare a ela. Vários deles, e o caso mais notório talvez seja o do trovador mineiro recém-falecido Dércio Marques, tentaram e ousaram uma obra próxima à dela. Mas, por alguma razão insondável, não obtiveram por aqui o mesmo reconhecimento que ela teve, e tem ainda, no seu país e mundo afora. Para ter uma ideia, Violeta foi para o céu é o filme chileno mais visto de 2011. Em vários países da América Latina, há uma obstinação pela preservação da própria memória, que nós, brasileiros, parece que perdemos.

Violeta Parra foi, antes de tudo, uma pesquisadora incansável das formas populares do Chile, do seu rico folclore, seus ritmos e canções indígenas e campesinas. Muito antes de haver a possibilidade de qualquer lei de incentivo, ela viajou, ao lado de seu filho Ángel ainda bem pequeno, recolhendo, transcrevendo e aprendendo canções nos povoados, com cantores e artistas praticamente anônimos. Esse tesouro está gravado em vários discos seus registrados de forma simples, mas muito intensa, quase sempre apenas com a sua voz e o acompanhamento de algum instrumento de corda que ela mesma tocava.

A artista correu o mundo, esteve na Polônia, mostrou a canção popular de seu país com muito sucesso em várias partes. Aprendeu a pintar também e foi, de forma bastante surpreendente, a primeira artista popular do Chile a expor no Louvre. A partir de um rico conhecimento da obra de seu povo, Violeta construiu a sua, visivelmente baseada e inspirada no que via e aprendia. Com isso, compôs maravilhas inesquecíveis, como “Gracias a la vida”, “Volver a lós 17”, “El Gavilán”, “La Jardinera” e muitas outras que correram o mundo nas vozes de Mercedes Sosa, Joan Baez, Milton Nascimento e Elis Regina, entre vários outros.

Hoje, Violeta Parra é exemplo para vários jovens do mundo. Sua militância, sua paixão pelo seu povo, sua cultura, seus movimentos transformadores e libertadores inspiram outras Violetas em várias partes. Um exemplo definitivo de ser humano e, sobretudo, mulher que transformou o próprio sofrimento na produção da felicidade. Uma alma irradiadora de energia pura que soube como poucos, muito poucos, encontrar o valor do seu caminho, da própria obstinação e colocá-lo adiante, à disposição de todos.

 

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Poucos artistas atravessam três ou quatro gerações com uma obra tão digna, renovada e bela quanto Chico Buarque. Na década de 1960, era ídolo dos nossos pais, até virar o artista que fez a trilha das nossas vidas, das nossas mazelas afetivas e políticas para, logo em seguida, cair nos braços dos nossos filhos.

A explicação para isso está, evidentemente, na sua obra, na sua música. São canções com capacidade de enxergar o mundo que se transforma a cada dia com um nível de detalhes comovente. De forma lírica e camuflada, Chico nos entrega uma canção moderna, rica, repleta de observações afiadas com o mundo novo. Uma canção cheia de acordes inesperados, melodias sinuosas, cada vez mais trabalhadas e novas.

E são principalmente essas composições que Chico nos apresenta no seu recém-lançado Chico Buarque – Na carreira, o álbum duplo ao vivo da turnê do disco Chico, lançado em 2011. Ao contrário do disco de estúdio, que trazia apenas dez delas, este Na carreira é um álbum duplo no qual, além das canções novas, estão várias outras basicamente da década de 1980 para cá.

As mais antigas de todas talvez sejam “Desalento”, lindo samba-canção em parceria com Vinicius de Moraes, lançado no álbum Construção, de 1971, e “Baioque”, um rock nunca gravado por Chico, que fez sucesso na voz de Bethânia também na década de 1970. Daí para frente, Chico mostra várias da sua profícua parceria com Edu Lobo, como “Choro bandido”, “Valsa brasileira” e a própria faixa-título “Na carreira”, do antológico Grande Circo Místico.

Algumas boas surpresas como “Geni e o zepelim”, clássico da Ópera do malandro, a linda “Tereza da praia”, um dos primeiros sucessos de Tom Jobim em parceria com Billy Blanco, aqui cantada em dueto com Wilson das Neves, e, principalmente, o “Rap de Cálice”, uma linda adaptação do rapper Criolo para a canção de Chico e Gilberto Gil.

A banda que acompanha Chico é a mesma que gravou o disco. Com isso, a sonoridade das novas canções não tem grandes novidades. Já o mesmo não acontece com as canções anteriores, todas de roupa nova, invenções sutis sem grandes malabarismos musicais.

Na mixagem final, o produtor Vinícius França optou por deixar vários ruídos da plateia, gritos de “lindo” e congêneres, além de um trecho de “Na carreira”, no qual o compositor tropeça na letra e reclama das próprias palavras: “É muita letra!”. Com isso, deu mais vivacidade à gravação.

No final das contas, Na carreira é mais um lindo disco de Chico Buarque, com um tom um tanto mais emocionado do que costumam ser seus discos ao vivo. Chico está mais solto com variações vocais, mudança de oitavas, enfim, muito mais à vontade. E quem ganha com tudo isso somos nós.



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