A cultura que vem da periferia

Programa debateu a atual cena cultural das regiões periféricas de São Paulo e os meios pelos quais o poder público é capaz de estimular ainda mais a produção local

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Programa debateu a atual cena cultural das regiões periféricas de São Paulo e os meios pelos quais o poder público é capaz de estimular ainda mais a produção local

Por Igor Carvalho

A sexta edição da TV Fórum, programa transmitido pela internet às terças-feiras, debateu a cultura na periferia. O encontro abordou temas diversos ligados ao fomento de arte nas áreas mais pobres da cidade de São Paulo, como o papel dos aparelhos públicos, a linguagem própria, as políticas públicas que poderiam ser desenvolvidas na área e o mercado editorial. O debate, conduzido por Renato Rovai, teve a participação dos escritores Sérgio Vaz, Binho, Marcelino Freire e do rapper MC Mamuti, além do professor da Universidade Federal do ABC, Sérgio Amadeo, da blogueira e historiadora Maria Frô e um dos coordenadores da Ação Educativa Antonio Eleilson.

Uma das principais pautas foi o cerceamento às iniciativas culturais independentes nas periferias. Recentemente, o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (PSD), fechou o Bar do Binho, onde ocorria, desde 2004, um sarau que era um dos principais pontos de encontro cultural da região. O bar nunca teve autorização oficial para funcionar, por isso recebeu multas que, somadas, chegavam a R$ 8 mil. Renato Rovai lembrou que o fato pode ser tido como uma “perseguição”, já que, na capital paulista, muitos shopping centers tiveram problemas com alvarás e nem por isso foram fechados. O poeta Sérgio Vaz foi além: “O Brasil não tem alvará de funcionamento.”

Um dia antes do programa da TV Fórum, Binho realizou o último sarau no bar que ajudou a tornar um ponto de cultura. “Aquelas paredes estavam impregnadas de nossa gente. São Paulo está perdendo sua memória coletiva, levamos anos para construir aquele espaço onde as pessoas podiam se encontrar e, agora, uma ordem nos tirou de lá.” O Sarau do Binho, agora, será itinerante.

Assim como Binho, Sérgio Vaz também é um dos pioneiros no fomento à cultura da periferia paulistana. Há 11 anos, ele começou o projeto que o tornaria uma das maiores referências na área, a Cooperifa. Atualmente, o cenário, influenciado também por ele e seu coletivo, é bem diferente daquele do início. “Sem medo de errar, posso dizer que a periferia de São Paulo vive, hoje, a mesma efervescência cultural que viveu a classe média nos anos 1960, mas sem qualquer apoio da prefeitura e da televisão.”
Vaz alertou que a preocupação de seu coletivo é trabalhar com a comunidade e formar leitores e cidadãos, não escritores. “A gente não administra vaidade, a gente administra frustrações. Nosso interesse é nosso bairro, não quero mudar o mundo”, disse. Entre as atividades realizadas pela Cooperifa na zona Sul de São Paulo, onde fica sua sede, estão o Sarau, o Cinema na Laje e a Mostra de Cultura da Cooperifa, que terá sua quinta edição e ocorrerá entre 3 e 11 de novembro, com presenças confirmadas de KL Jay, dos Racionais MC’s, do rapper Emicida e do autor moçambicano Mia Couto.

O escritor pernambucano Marcelino Freire, idealizador e organizador da Balada Literária, que terá sua sétima edição em 2012, e homenageará o escritor Raduan Nassar, falou sobre a persistência dos artistas militantes em fomentar a cultura nas periferias. “Compactuo dessa mesma teimosia de Vaz e Binho. A literatura é muito chata, muito morosa, pedestal, ela é muito patê de fígado e vinho branco, e o que eles [Vaz e Binho] fazem é fantástico. São pessoas que me emocionam profundamente por essa teimosia.”

Artistas marginais e o uso da língua

“Sérgio Vaz e Gilberto Freire fazem parte do mesmo catálogo”, disse Eleilson, lembrando que o poeta e o sociólogo têm suas obras comercializadas pela mesma editora. Para o coordenador da Ação Educativa, isso é sintomático dos resultados obtidos pela “efervescência cultural” da periferia. “Essa cena já produz grandes artistas. O Binho tem um livro publicado nas Edições Toró, ele vai na linha do Manoel de Barros e do Graciliano Ramos, pensa uma periferia mais idílica. Já há muita qualidade artística no movimento”, analisa.

O mercado editorial também já começa a prestar atenção a esses autores. “Nos últimos dez anos, foram lançados mais de cem livros de escritores das periferias”, contou Eleilson. “A maioria deles foi lançada na Cooperifa, mas circula nos saraus”, ressaltou Vaz. A Edições Toró surgiu justamente para satisfazer a grande demanda de autores surgidos na periferia e em busca da publicação de suas obras. A editora já tem 16 livros em seu catálogo. “A poesia é responsável pela maior parte dos livros, vinculados ao rap. Prosa e romance são poucos”, explicou Freire. Para Vaz, um dos grandes responsáveis por esse fenômeno são os saraus. “O cara quer divulgar sua obra e o sarau está lá para isso. Na Cooperifa, com 60 poetas por noite, se você ler um conto vão te pegar de porrada, tem que ser uma poesia.”

Sérgio Vaz ainda atentou para uma característica única dos escritores da periferia. “A literatura feita na periferia é uma literatura que não se identifica, o nosso linguajar é proposital, é desobediência linguística. Se você nasce preto e pobre, vai sofrer preconceito linguístico, isso vai para o papel, mas quando você lê um texto do cara que nasce na favela, você vai ouvir o tiro”, defendeu Vaz.

Um roteiro cultural

A Agenda da Periferia é um guia cultural feito pela Ação Educativa desde 2007. Eleilson participou do seu desenvolvimento e conta que a ideia surgiu depois de analisar o que era oferecido em outras publicações. “A agenda nasceu de um incômodo que sentimos, tive o cuidado de analisar os guias culturais de Veja, Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo. Observei que toda a oferta cultural naqueles guias não passava de 20 distritos, e São Paulo tem 96 distritos.” A publicação, quando lançada, divulgava apenas 49 eventos, com seis saraus; hoje, já são 24 saraus e 20 rodas de samba, além das demais atividades.

A ampliação da atuação dos coletivos aconteceu à margem das iniciativas do poder público. “O bairro do Grajaú, com 450 mil moradores, possui apenas uma Casa de Cultura, construída na gestão da Luiza Erundina [1988-1991]. A cultura na periferia depende do protagonismo dos idealizadores, não tem apoio”, ressaltou Binho. Maria Frô se mostrou incomodada com o discurso de enfrentamento ao poder público. “Eu fico preocupada com a fala de vocês de ‘deixar o Estado’ para lá. O Estado somos todos nós.” Para Sérgio Vaz, não se trata de “desobediência civil, mas não vamos ficar esperando o Estado nos dar, se não temos, vamos ocupar o bar e ressignificar o espaço.” Mamuti já enxerga algumas vantagens nessa adaptação de bares em pontos culturais. “Nos centros culturais não se pode beber e fumar, nos botecos você fica mais à vontade, pode tomar sua cervejinha.”

Mamuti esteve envolvido recentemente em uma polêmica com o candidato à prefeitura de São Paulo, José Serra (PSDB). “Ele disse, no site dele, que ‘com Serra, o rap ganha espaço no CCJ [Centro Cultural da Juventude]’, mas isso é mentira, ele nunca nos deu nada.” O rapper, então, fez uma música contradizendo e desmentindo o tucano. “O Serra citou o meu coletivo e o festival que organizamos como iniciativas incentivadas por ele.” A música foi encaminhada para a campanha de José Serra, como um pedido de resposta, porém não foi publicada. O vídeo, divulgado no YouTube, já teve mais de 25 mil visualizações.

Os caminhos para se conseguir ocupar os espaços de cultura foram criticados por Mamuti e Binho. “Temos que utilizar as ruas e não temos acesso a equipamentos, é muita burocracia e somos obrigados a ficar próximos das subprefeituras, que hoje estão todas militarizadas”, disse o rapper.

Uma das poucas iniciativas do poder público para incentivar a cultura na capital paulista, o Programa para Valorização de Iniciativas Culturais (VAI), projeto idealizado pelo ex-vereador Nabil Bonduki e implantado durante a gestão da ex-prefeita Marta Suplicy, em 2004, também foi discutida no programa. “Serra não conseguiu tirar, e nem o Kassab, a equipe do VAI é uma equipe muito boa. Existe uma geração que já cresceu com a cultura do edital, sabem preencher os formulários e lidar com essa burocracia”, contou Eleilson. Em oito anos de atuação, o VAI investiu R$ 16 milhões em projetos. “Nós corremos sozinhos, ninguém nos oferece estrutura, o Estado poderia facilitar os acessos a equipamentos e espaços. Queremos parceria, não intromissão”, manifestou Binho. “Gosto de falar com pessoas, não com instituições, detesto ter que ficar explicando em edital quem é Raduan Nassar, Binho ou Sérgio Vaz. É um desrespeito, gente como Sérgio Vaz e Binho ter que correr atrás de edital.” F



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