A primeira vez

A saga do primeiro texto de Ferréz para a revista Fórum

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A saga do primeiro texto de Ferréz para a revista Fórum

Por Ferréz

Saí de casa duas horas antes, como sempre faço quando vou para Pinheiros, e em uma hora e vinte estava na Fórum. Como não estou dirigindo por causa das dores, haja paciência.

Entrei na redação e logo ele veio com seu sorriso, casa nova, novas expectativas, isso é muito louco, pois fiquei dez anos na Caros, tive prazer de trabalhar com o Sérgio, com a Marina, com o Thiago.

Mas hoje é uma nova etapa, eu com a cinta por causa da hérnia, e o Rovai me chamando para fazer a reunião num almoço, segurei a dor enquanto caminhava pelas ruas arborizadas, bem diferentes da minha quebrada.

Fomos na Mercearia São Pedro e me senti um pouco como os escritores da Vila Madá, mas só durou um almoço, em uma hora eu estaria no Capão de novo.

Agora era só escrever o primeiro texto para a Fórum, e começar essa nova caminhada, durante esse tempo longe de uma revista mensal, eu sempre preparei textos todos os meses, acho que nunca perdi o costume.

A revista é um meio que gosto muito, a internet é legal, o Face dá um puta acesso, mas as fotos, o texto montado, o cheiro do papel, foda. Sabe, você num dobra uma página de um blogue e leva para mostrar a um amigo.

O prazo é sexta-feira, como sempre sem muito tempo para não ficar mamão, a vida é contramão.

Pros periféricos, Deus fez o mundo sem canto, todo redondo pra nenhum de nóis se esconder.

Peguei um trecho de um texto já feito, o “literatura vilã” falava da cena atual da quebrada, olhei, mexi, retoquei, mutilei e não senti firmeza para ser o primeiro.

Olhei e peguei outro texto, num sei se rola, e vou fuçando o computador até que sinto a primeira pontada, depois outra em seguida, olho para os livros na estante, e tudo começa a girar.

Sentido Santo Amaro, hospital. Elaine me deixa no pronto-socorro e vai fazer minha ficha, a cinta me aperta, eu vou tomar água, mas volto, o hospital está lotado, não tem uma cadeira vazia, eu pego minha carteira de convênio pra ter certeza de que tenho um.

Pego o número, vou para outra sala, lotada também, um painel com números, gente olhando, uma TV com uma programação onde um jovem liga para o médico e recebe conselhos em casa, dicas de vida saudável, gente andando na praia, comendo salada e sorrindo, ficção.

Eu penso no texto, tenho que entregar no prazo, é o primeiro, e periferia num pode errar, tudo pra gente é mais foda de explicar.

Uma hora sentado, nada. Vou à sala da médica, peço licença, explico a dor, ela fala que minha ficha não chegou, eu saio e olho outras salas, vejo fichas num acrílico, vou ver se a minha está lá, um homem de jaleco aparece, diz que não posso mexer nas fichas, explico que só tô vendo se a minha tá lá, ele diz que não posso nem estar ali.

Regras, eu grito, regras pra caralho.

Volto pras cadeiras, a médica aparece, acreditou na minha cara de dor, me chama, eu explico que a operação foi marcada muito longe, em dezembro, e estou com muita dor, ela questiona, diz que tinha que ser antes, vai pedir minha internação, mas antes vai ter que ligar. Em seguida, escreve e me entrega, eu vou para a medicação, só tem uma cadeira, sento.

Uma enfermeira com cara de desgosto me olha, e diz que não posso esperar ali, eu mostro a receita.

Tramil na veia, Buscopan na veia.

Duas horas se passam, as pessoas chegam e saem, alguns choram, outros gemem.

Outra enfermeira vem, com papéis, eu precisava escrever o texto, olho os papéis, não vai dar tempo de entregar.

Joga uma garrafa no colo, contraste.

– O senhor toma e depois vai fazer tomografia.

Eu tomo, ela volta, eu devolvo a garrafa, ela diz que demora três horas para fazer efeito e poder fazer o exame.

Três horas depois eu volto, vou à sala da médica, ela diz que demora mais uma hora para chegar o exame.

Já é de noite, eu estou lá desde as 11 da manhã, não comi nada, a fome aperta, vou à portaria.

– O senhor não pode sair assim com a medicação.

Recebo a notícia, vou ser internado, devo ficar em jejum, lembro da carne que comi na Mercearia, eu não acredito, vou ter que ficar num lugar improvisado, não há vagas.

Uma cortina de plástico, uma maca e uma cadeira, eu deito, me furam para pôr o soro, eu começo a pegar no sono.

O homem de jaleco que tinha discutido comigo aparece, ele vai avaliar minha hérnia, azar dos infernos, está com três enfermeiras, ele mexe, eu grito, ele aperta mais, eu grito, ele aperta mais ainda, e depois diz que não vou poder operar, que o certo é usar a cinta e agendar a operação, eu ignoro, então ele diz que a equipe de operação é que vai decidir.

Acordo à meia-noite, alguém está gritando, na frente da recepção também tem gritos, alguém fazendo barraco, as enfermeiras riem, debocham, gente que entra, gente que sai, enfermeiros falando de seus carros, do motor, da inspeção veicular que não deu certo. Penso na inspeção, você marca a hora, vai lá e num espera nem minutos, tudo funciona, no hospital não é assim.

São 3 horas da manhã, eu me reviro na cama dura, o lençol fino tenta segurar o frio em vão, eu penso num texto, algum tempo tô escrevendo sobre a América Latina, mas num ia ficar legal pra estrear com ele, tinha que ser algo escrito mesmo no calor da fita.
Um homem grita, diz que está na mesma cama há dois dias, não aguenta mais, ninguém fala de sua transferência, ele se desespera, começa a chorar.

Eu levanto, preciso ir no banheiro, desde que deitei ninguém veio falar comigo, pego o soro, saio.

Acordo, são 6 da manhã, tem um senhor com um ferimento no ombro, ele geme ao meu lado, eu sou o dez, ele é o nove, levanto novamente, um jovem no cinco me olha, me reconhece, eu pergunto de onde, ele diz que assistiu o DVD 100% Favela, está com problema no coração, eu falo da hérnia, ele lamenta, eu vou ao banheiro novamente e volto.

São 8 da manhã, o médico da equipe cirúrgica chega, faz os mesmos toques na frente da hérnia, me olha e diz:

– Senhor, se todo mundo que achar que deve operar for operar aí não tem jeito, a sua hérnia ainda não tá estrangulada, dá para ficar ainda, marca a operação com calma.

Eu retruco, digo da dor, digo do cansaço.

– Isso aqui é uma emergência, só operamos em caso de estrangulamento.

Procurei o SUS, eles operam, mas não põem a rede, e essa rede é necessária para quem é gordo, senão a hérnia volta, o tecido se rompe, mas eles não têm a rede, fui ver o preço da rede, R$ 3 mil, corri atrás do dinheiro, mas não adianta, eles não aceitam o paciente comprar a rede.

Quantas pessoas passaram por isso? Começo a pensar como é feita essa conta no governo, quanto que vale uma vida, e penso se tem matemática deles pra todas cirurgias, e vejo que estamos num labirinto.

Levanto, são 10 horas da manhã, visto a cinta novamente, vou para casa, sento no sofá com o computador na mão e vou escrever o texto.

Passei a vida toda vendo por aqui gente com a perna necrosada, com a barriga inchada a ponto de explodir, e me perguntava por que essas pessoas não se cuidavam, mas o hospital faz você voltar com a doença pra casa, parece que fala assim.

– É sua, volta com ela, em vez de dizer: “Vem aqui, vamos resolver”. F



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