Chile: o movimento estudantil vai às urnas

Estudantes dominam as ruas do país desde o ano passado, mas enfrentam no fim de outubro um dos seus maiores desafios: encarar um processo eleitoral municipal no qual precisam manter a unidade e fazer as suas reivindicações continuarem na pauta política nacional

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Estudantes dominam as ruas do país desde o ano passado, mas enfrentam no fim de outubro um dos seus maiores desafios: encarar um processo eleitoral municipal no qual precisam manter a unidade e fazer as suas reivindicações continuarem na pauta política nacional

Por Victor Farinelli

Durante os últimos 15 meses, o movimento estudantil chileno conseguiu se manter em evidência e conseguiu incluir suas reivindicações na agenda política nacional. Agora, o desafio será outro. As eleições municipais chilenas, marcadas para 28 de outubro, em turno único, irão pôr à prova não só a popularidade de seus candidatos, como também o caráter extrapartidário que a Confederação dos Estudantes do Chile (Confech) assegura preservar.

São seis candidatos a prefeito no pleito marcado para 28 de outubro, metade deles pelo Partido Comunista, e 37 a vereador, a maioria deles sem partido e competindo por meio de grupos independentes. Nessa divisão entre comunistas e independentes, está o principal risco ao movimento, pois alguns incidentes ocorridos em setembro poderiam marcar um racha na unidade do movimento.

A independência em relação aos dois blocos hegemônicos da política chilena – a Coa­lición, bloco de direita do qual faz parte o presidente Sebastián Piñera, e a Concerta­ción, grupo opositor, de centro-esquerda – têm sido uma das fortalezas do movimento, segundo seus próprios líderes. Por essa razão, somente candidatos independentes contam com apoio aberto dos estudantes. Segundo o presidente da Confech, Gabriel Boric, “nossa postura é a de questionar todos os candidatos sobre suas propostas para a educação e, principalmente, seu apoio à demanda da desmunicipalização do ensino fundamental e médio, para que voltem a ser responsabilidade do Estado. O estudante chileno sabe que tem de votar em gente comprometida com a transformação do país”.

Porém, a maior iniciativa estudantil nessas eleições municipais não é encabeçada por um membro do movimento. A candidatura a prefeito da vereadora Josefa Errázuriz, na comuna de Providencia, se transformou em um marco graças ao trabalho dos jovens, que fizeram de um tradicional reduto da direita mais conservadora do Chile o cenário mais imprevisível do pleito deste ano.
Josefa Errázuriz, de 56 anos, foi produto de uma histórica primária eleitoral independente organizada pelos estudantes, com três candidatos sem partido. A vencedora terá o desafio de derrubar da prefeitura da comuna o ex-militar Cristián Labbé, que buscará seu quinto mandato consecutivo (no Chile, não existe limite para a reeleição de prefeitos). Desde sua efetivação, a candidatura tem sido impulsionada principalmente pelo movimento estudantil, principal responsável pelo trabalho de campo da candidata, embora também tenham recebido o apoio de diversas entidades de defesa dos direitos humanos.

A vitória contra Labbé seria triplamente significativa para os estudantes. Não só por ele ter sido figura conhecida da ditadura (foi guarda-costas pessoal de Pinochet), mas também por ter sido quem iniciou a campanha de desocupação violenta dos colégios da região metropolitana de Santiago, em outubro de 2011, exigindo do presidente Piñera a intervenção da Polícia Militar e das Forças Armadas para realizar a retirada dos estudantes, que chegaram a paralisar os estabelecimentos por quatro meses. Em março deste ano, Labbé também cancelou por decreto a matrícula de 14 alunas de uma escola feminina de ensino médio do município por terem participado das manifestações estudantis do ano anterior.

O terceiro motivo pelo qual os estudantes querem derrotar Labbé é pela demonstração de força. O ex-militar é o maior campeão de votos da direita chilena, e nas últimas três vitórias obteve mais de 60% dos votos, o que lhe confere uma reputação de candidato imbatível. Com a ajuda do movimento estudantil, Josefa Errázuriz tem aparecido em todas as pesquisas beirando os 50% de intenções de voto e com uma vantagem de dez pontos percentuais sobre o atual prefeito. Caso essa tendência se consolide, o triunfo de Errázuriz poderia ser considerado uma importante vitória dos estudantes.

Para a cientista política e especialista em marketing eleitoral Montserrat Nicolas, essas eleições servirão para o movimento como um termômetro do que os próprios estudantes consideram que pode ser o seu grande momento: as eleições presidenciais e legislativas de 2013. “As municipais chilenas são como um aquecimento para o pleito presidencial. Este ano será um aquecimento para os estudantes, que devem provar sua capacidade, ou não, de reunir votos sem deixar cair o apoio da cidadania ao movimento”, resumiu. A cientista política acredita que não está em jogo para os estudantes a mera vitória ou derrota eleitoral, e sim a manutenção ou o fortalecimento do apoio da cidadania, depois das eleições, às reformas educacionais que eles defendem.

Para a analista, o fato de muitos dos candidatos oriundos do meio estudantil não terem grande projeção, além do apoio dado a independentes de fora do movimento, significa que os estudantes entenderam que essa instância é importante como prévia. “O Partido Comunista, por exemplo, lançou três candidatos oriundos do movimento, mas não sua principal figura estudantil, Camila Vallejo, que provavelmente foi preservada visando a uma candidatura legislativa no ano que vem, trabalhando como cabo eleitoral dos candidatos comunistas este ano”, comenta.

O principal risco para o movimento estudantil, na visão de Montserrat, é a unidade interna do movimento, que tem sofrido alguns abalos em função de problemas surgidos entre os comunistas e os independentes, já que estes defendem mais radicalmente o apartidarismo do movimento.

Conflitos internos

A fria manhã de inverno de 5 de setembro foi aquecida instantaneamente por um cartaz próximo ao campus da Universidade de Santiago, que instalou a controvérsia entre os estudantes que foram protestar contra ele na federação de estudantes. A peça publicitária mostrava Camilo Ballesteros, ex-presidente da federação e um dos principais líderes do movimento estudantil chileno em 2011, ao lado da ex-presidenta Michelle Bachelet, considerada pelo movimento como uma das responsáveis pela manutenção do modelo educacional que desencadeou a crise do setor no país.

Na noite do mesmo dia, dezenas de secundaristas apedrejaram e tentaram ocupar a sede do Partido Comunista, no centro de Santiago. Ballesteros é candidato a prefeito da comuna de Estación Central pelo PC, e sua candidatura foi lançada por um “pacto de omissão” com a tradicional Concertación. A porta-voz da Confech e militante comunista Camila Vallejo respondeu ao ataque dizendo que “não temos medo dos fascistas, da esquerda ou da direita”, o que alimentou o conflito interno gerado pelo incidente.

Dos candidatos estudantis, Ballesteros é o que enfrenta o desafio mais importante (Estación Central é um dos cinco maiores colégios eleitorais do Chile) e também um daqueles que têm chances de vitória. Os principais institutos de pesquisa do país apontam uma desvantagem de pouco menos de 19% de Ballesteros com relação ao atual prefeito, Rodrigo Delgado, do conservador partido UDI, que tenta a reeleição. O apoio do movimento estudantil, agora em xeque, era uma de suas armas na tentativa de reverter o quadro.

Outro prefeiturável oriundo do movimento estudantil é o candidato do Partido Progressista na comuna de La Florida. Iván Mlynarz foi presidente da federação estudantil da Universidade do Chile entre 2000 e 2001 e hoje encabeça a principal candidatura capitalina do partido, criado há dois anos por dissidentes do concertacionista Partido Socialista, que este ano encara seu primeiro desafio eleitoral.
Segundo Mlynarz, as dificuldades existentes para os candidatos fora da dicotomia política chilena entre a Concertación e a direita são enormes. “Mesmo o ‘pacto de omissão’ a favor do Camilo [Ballesteros] não é uma grande ajuda, porque ele não conta com a máquina eleitoral da Concertación, e nenhuma outra frente partidária tem condições de se equiparar financeiramente aos dois principais blocos políticos do país”, analisa o geólogo e ex-líder estudantil.

O panorama de Mlynarz é mais difícil que o de Ballesteros, já que ele conta com dois adversários de peso: o democrata-cristão Gonzalo Duarte, candidato da Concertación, e Rodolfo Carter (UDI), atual prefeito e representante da direita. As mais recentes pesquisas mostram o ex-presidente da federação estudantil em terceiro lugar, com 11% das intenções de voto e 12 pontos atrás dos dois primeiros colocados, que estão em empate técnico.

Montserrat Nicolas concorda com as dificuldades ressaltadas por Mlynarz, mas acredita que a tarefa dos estudantes que se candidataram a prefeito é outra. “Eles precisam se posicionar eleitoralmente, essa será a principal missão de suas candidaturas, e têm a seu favor o fato de enfrentarem figuras que representam um certo continuísmo diante de uma cidadania ávida por renovação na política”, diz Montserrat.

Desafiando os aiatolás do neoliberalismo

Mario Waissbluth é um engenheiro comercial que acredita na economia de mercado. Em 2008, criou a Fundação Educación 2020 junto com diversos especialistas da área, visando a debater a educação chilena e seus problemas. Após quatro anos e muitos estudos feitos a respeito, ele acredita que a prioridade ao mercado e o conceito de educação como bem de consumo foi um dos principais fatores que levaram ao colapso do sistema no país.

Em entrevista à Fórum, Waissbluth diz que os estudantes, caso consigam ingressar no sistema político, terão que saber enfrentar os neoliberais da política chilena, que não estão só na direita e que, segundo ele, são os neoliberais mais ortodoxos do mundo.

Fórum – Como é que um engenheiro comercial não acredita na educação de mercado?

Mario Waissbluth – Acredito no mercado, não na educação de mercado. Não sou um anticapitalista, embora defenda um capitalismo mais à moda antiga, diferente do neoliberal. A economia de mercado funciona, não há nada de errado na maioria dos casos, por exemplo, o mercado de carros, de alimentos, de artigos de cuidado pessoal. Só não acredito no mercado da educação. Aliás, não é que eu não acredito, os estudos que fizemos em Educación 2020 mostra que ela não funciona.

Fórum – Por que não?

Waissbluth – Porque a lógica do mercado é a lógica do lucro, e a educação não pode ter o lucro como prioridade, a formação desses jovens sujeitos à necessidade de lucro das empresas que administram o local onde estudam é uma ameaça constante à qualidade do ensino que lhes é entregue. Esse é um dos motivos pelos quais eles estão na rua hoje.

Fórum – E agora eles vão às urnas, e alguns estão participando como candidatos. Seria um avanço para a causa estudantil chilena se alguns estudantes conseguissem se eleger?

Waissbluth – Não necessariamente, vai depender do que eles farão uma vez eleitos. Eles são todos candidatos independentes ou de blocos minoritários, como o Partido Comunista. Os que conseguirem entrar no sistema terão de enfrentar dois blocos políticos oligárquicos. Uma centro-esquerda que tampouco quer terminar com o modelo educacional que eles rejeitam, porque também possui neoliberais em suas filas e, por isso, não o fez nos 20 anos em que foi governo; e a direita chilena, que acredita no neoliberalismo como em nenhum outro lugar do mundo se acredita e segue os dogmas do sistema como se fosse uma religião política. Os estudantes não poderão eleger muitos representantes, e nós bem sabemos que as minorias não podem muito no sistema político.

Fórum – O apoio da cidadania às demandas estudantis não poderia ser um fator favorável, caso eles saibam utilizá-lo para impor suas ideias uma vez dentro do sistema? 

Waissbluth – Creio que não. Estamos há 15 meses vivendo uma crise educacional complexa, o sistema colapsou e a classe política tradicional chilena não se comoveu com nada disso, não vai mudar de postura. Aqui no Chile estão os aiatolás do neoliberalismo. É um dos países onde o modelo neoliberal é mais longevo, e me arrisco a dizer que em nenhum outro lugar ele é tão profundo. Uma vez brinquei dizendo que perto do Chile até os Estados Unidos parecem socialistas, e às vezes acho que nem isso é exagerado.

Fórum – Sendo assim, a perspectiva para os possíveis eleitos do movimento estudantil seria bastante complexa. Como o envolvimento com a política poderia ser positivo para o movimento estudantil?

Waissbluth – O mais positivo eles já conseguiram e impuseram no ano passado, e se mantém vigente. O país está pautado pela crise educacional desde a primeira marcha. Essas eleições municipais estão pautadas pela crise, e a presidencial, no ano que vem, estará ainda mais focada nesse tema. O movimento estudantil é apartidário, tanto que vemos como alguns candidatos comunistas estão sendo malvistos agora por alguns grupos mais radicais, mas a experiência dos que conseguirem se eleger este ano, ou no ano que vem, será importante também, pois vai ajudá-los a reciclar melhor as petições.

Fórum – Em que consistiria essa reciclagem?

Waissbluth – As ideias deles não são ruins, pelo contrário, o modelo que defendemos em Educación 2020 está muitíssimo mais próximo do que eles almejam do que aquilo que o governo chileno propõe, mas algumas das propostas deles, inclusive as melhores, são politicamente inviáveis neste país.

Fórum – Quais especificamente?

Waissbluth – A educação pública gratuita, por exemplo, é um princípio correto, mas o Chile é o país mais neoliberal do mundo. Aqui, não existe gratuidade integral em nenhuma etapa do sistema público de ensino. Recentemente, eles começaram a defender o que nós, na fundação, dizemos já há dois anos: que a implantação da gratuidade no sistema atual requer um processo gradual, começando com a gratuidade na pré-escola, até chegar ao nível universitário anos depois. A gratuidade total do sistema, além de ser impossível de ser alcançada com o cenário político que temos hoje, também é algo que pode gerar resultados diferentes do que em princípio se imagina, e essas convicções eles certamente irão reforçar conhecendo o sistema por dentro. F

 



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