Coletivo de trocas virtuais, Escambaria tem base na autogestão

Um dos eixos da projeto é a autogestão, sem ligação oficial com qualquer instituição

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Um dos eixos da projeto é a autogestão, sem ligação oficial com qualquer instituição

Por Moriti Neto

Nascido em agosto de 2011, na cidade de Ribeirão Preto, interior de São Paulo, o grupo de trocas virtuais Escambaria tem pouco mais de 1 ano de existência. Isso, apenas via rede social Facebook. Um dos eixos da proposta é a autogestão, sem ligação oficial com qualquer instituição.

Inspirado pelo conceito de economia solidária e em modelos surgidos na própria cidade, caso das feiras de trocas promovidas pelo Coletivo Óbvios Mexidos, que contribui espontaneamente com a divulgação de projetos solidários, o funcionamento se baseia na ação de participantes que solicitam a entrada no grupo e são rapidamente aceitos. Depois, a pessoa pode “passear” pelos posts com as ofertas de escambos. Se algo lhe interessar, faz a oferta, que será analisada por quem postou. Se for interessante para ambos, combinam a concretização da troca e tiram o objeto de circulação.

Em entrevista à Fórum, uma das moderadoras do coletivo no Facebook Renê Ribeiro explica o conceito do Escambaria e detalha os objetivos do coletivo. A ideia é não ter uma administração hierárquica e incentivar a espontaneidade presente entre os integrantes para organização e divulgação.

Fórum – Como funciona a estrutura da Escambaria para quem quiser usar? Quem quiser entrar hoje, como pode fazer o escambo ? 

Renê Ribeiro – A pessoa pede para ser adicionada ou é convidada. Após ser aceita, o ideal é que ela monte um álbum de fotos, que será a sua banquinha, contendo os produtos ou serviços que deseja trocar. Se tiver algo específico que esteja querendo, pode ser informada, tem gente que entra para conseguir algo específico, outros estão abertos a sugestões. Depois da banca montada, é só aguardar os interessados ou começar a observar as ofertas dos outros participantes. Quando duas pessoas concordam com a “negociação”, o item é reservado, o que quer dizer que está em negociação, aguardando para ser efetivamente trocado. Às vezes, a troca dá certo, às vezes, não. Quando não dá certo, o item volta a ficar disponível na “banca” e pode ser negociado novamente. Não tem ordem de chegada, ou seja, uma pessoa postou um item de que gostei, eu fui a primeira a ver, comentar e oferecer o link da minha “banca”. Logo depois, outras pessoas também gostaram do mesmo item e também ofereceram produtos. A pessoa dona do item não tem nenhuma obrigação com ninguém, ela pode trocar pelo item que ela gostou mais, independentemente de quem pediu primeiro.

Fórum – Tem um exemplo prático para dar? 

Renê – Tenho uma prima que emagreceu muito, passou do manequim 44 para o 38. Ela trocou todo o guarda-roupa sem gastar um tostão, somente pela Escambaria. Isso, sem falar em todas as amizades que fez.

Fórum – Como se dá a proposta de autogestão do grupo? Qual a estrutura garantidora do modelo?

Renê – É um grupo aberto, que tem como moderadores a Amanda Fulana, o Marcos Vinicius e eu, que fui promovida recentemente, provavelmente porque sou viciada no grupo. Entro todos os dias e acompanho todas as atualizações para ajudar a cuidar do grupo, no sentido de orientar o pessoal quanto à forma de montar as bancas [álbum de fotos] e também quanto à maneira de se comportar. Na Escambaria, é proibido falar em venda, compra, preço, valores em si. São permitidas apenas trocas, de todo e qualquer bem, por qualquer pessoa interessada. Se as pessoas colocam posts que contrariem o grupo, elas são avisadas, às vezes, até mesmo pelos usuários que nem são moderadores. A maioria altera ou deleta o post, mas alguns insistem. Após serem notificados por algum dos moderadores, o post pode ser excluído. Não tenho notícia de que algum participante tenha sido excluído do grupo por causa de desrespeito às regras, mas pode ter acontecido com algum dos outros moderadores.

Fórum – Vocês têm quantos participantes? Possuem algum contato pessoalmente? 

Renê – Atualmente, são mais de 1,7 mil. Os contatos são feitos, inicialmente, pelo próprio Facebook. Após a concretização da negociação virtual, começa-se a combinar a efetivação das trocas, o que, geralmente, é feito pessoalmente. Estou no grupo há mais ou menos oito meses e já fiz trocas pessoalmente com mais de 40 integrantes. Os objetos trocados são os mais diversos possíveis, como instrumentos musicais, aulas de música, eletrônicos, roupas, sapatos, patins, bijuterias, móveis, serviços de costura, serviços de cabelos etc.

Fórum – Onde e como ocorrem as trocas? 

Renê – O local das trocas também varia muito. Muitas pessoas foram à minha casa ou ao meu local de trabalho. Eu também já fui até elas, em casa ou no trabalho. Em outros casos, combinamos locais neutros, como shoppings, Sesc, Senac, por ser de mais fácil acesso. Outro meio de troca que já utilizei, e sei que outras pessoas também, é o serviço de motoboy. Enfim, a gente sempre dá um jeito de fazer o nosso produto chegar às mãos do outro e vice-versa.

Fórum – Existe meta para o número de participantes?

Renê – Não, a tendência é crescer naturalmente mesmo.

Fórum – Como divulgam a experiência? Quais canais usam? 

Renê – O próprio Facebook é um canal de divulgação, pois alguns posts aparecem na página principal dos integrantes. Às vezes, tem a curiosidade, e a pessoa entra no grupo para conhecer e ver como funciona. Outro canal que comigo tem funcionado muito é o boca a boca. Tenho comentado nos locais que frequento sobre as trocas que faço, e as pessoas acabam querendo conhecer a proposta. F



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