Muito Além da Vagina

Se a anatomia clitoriana agora lhe parece complicada demais, não se assuste: no fundo, é tudo muito simples

796 0

Se a anatomia clitoriana agora lhe parece complicada demais, não se assuste: no fundo, é tudo muito simples

Por Vange Leonel

Qual o problema com a palavra “vagina”? Pergunte à Apple. A fabricante de computadores proibiu que sua loja eletrônica exibisse na íntegra o título do livro da escritora Naomi Wolf, Vagina, uma biografia. Em vez de disso, a loja na web estampa “V****a”, com asteriscos para preencher aquilo que não queremos calar. Ora, a Apple é uma empresa privada e tem lá suas condutas, mas esse silêncio sobre a vagina e seus arredores apenas propaga infortúnio e desinformação. Pois, além da proibição, nas casas de família, de dizer em voz alta a palavra vagina, esta também é amplamente confundida com outras partes da anatomia íntima feminina, mesmo por mulheres que as possuem.

Uma amiga minha, médica sanitarista e feminista, ministrou durante anos uma espécie de oficina para que mulheres pudessem descobrir mais a respeito dos próprios genitais. Numa das primeiras atividades do curso, ela pedia que as moças e senhoras desenhassem a própria xoxota. Em geral, os desenhos que recebia eram um ponto no meio do púbis ou aquele clássico “V” com uma risca no meio.

O fato é que nosso conjunto vulvar é bem mais complexo e divertido do que descrevem os velhos compêndios de anatomia. A urologista australiana Hellen O’Connell foi a primeira a descrever com detalhes as extensões nevrálgicas do clitóris, afirmando que ele é bem maior do que parece. Ou seja, aquilo que chamamos de clitóris é apenas a glande do conjunto todo, a ponta de um vulcão profundo.

Para O’Connell, a glande, repleta de terminações nervosas, é o topo da pirâmide que ela chama clitóris. A base seria composta pela vulva, seus grandes e pequenos lábios e bulbos. As paredes triangulares da pirâmide envolvem a uretra e a vagina. Por fim, quando uma mulher se excita, o conjunto inteiro intumesce.

Mas por que somente no século XXI se deram ao trabalho de descrever pormenorizadamente a anatomia íntima feminina? Segundo O’Connell, “os anatomistas tradicionais nunca estiveram interessados no clitóris. O pênis era muito mais interessante para eles”.

Se a anatomia clitoriana agora lhe parece complicada demais, não se assuste: no fundo, é tudo muito simples. Lembre-se sempre que a vagina é o canal e a vulva é a parte externa; que o clitóris é maior e mais profundo do que imaginamos; que as mulheres também possuem tecidos eréteis e eles se espalham por todo vasto complexo clitoriano.

Para ficar tudo mais transparente, coloquei no meu blogue o estudo original da Dra. O’Connell (em inglês), que contém imagens detalhadas da anatomia clitoriana: vangeleonel.posterous.com/clitoris.

Desejo muito frisar que esse autoconhecimento não é apenas curiosidade científica. Conhecer a fundo a anatomia íntima feminina faz parte também da descoberta do seu próprio prazer. E pode ajudar alguns homens a achar aquele outrora pequeno e hoje grande, mas o sempre esquecido clitóris. F



No artigo

x