Sem direito à rebeldia

Relançamento da obra de Wanderléa do período de 1969 a 1985 mostra as dificuldades de uma artista que quis fugir do estereótipo que a indústria fonográfica moldou para ela

513 1

Relançamento da obra de Wanderléa do período de 1969 a 1985 mostra as dificuldades de uma artista que quis fugir do estereótipo que a indústria fonográfica moldou para ela

Por Pedro Alexandre Sanches

N a memória de Wanderléa, são nebulosos os tempos que circundam o álbum …Maravilhosa, lançado originalmente no final de 1972 e mantido fora de catálogo em CD até agora, quando o selo independente carioca Discobertas relança, numa caixa com seis CDs, a peculiar obra da cantora entre 1969 e 1985. A Jovem Guarda era passado desde ao menos 1968. A cantora mineira, que fora menina-prodígio e formara o tripé do iê-iê-iê com Roberto e Erasmo Carlos, ensaiava um novo desabrochar na aurora da década de 1970.

Terminadas as filmagens de Roberto Carlos e o diamante cor-de-rosa (1970), Wanderléa havia passado por Londres, onde visitou os tropicalistas exilados, e zanzara pelos mercados de pulga ao lado do empresário e mentor do grupo tropicalista, Guilherme Araújo. Na volta, abrasileirada como nunca havia sido nos anos roqueiros, gravava compactos com marchinhas carnavalescas pós-tropicalistas como “Chuva, suor e cerveja”, de Caetano Veloso, e “Pula, pula (salto de sapato)”, de Jards Macalé e Capinan.

Quando …Maravilhosa chegou às lojas, a Ternurinha da Jovem Guarda parecia varrida do mapa. Tropicalizada pela influência de Guilherme Araújo (1937-2007), Wanderléa ostentava na capa do LP uma vistosa peruca black-power – ou ruivo-power. Era secundada por músicos virtuosos, que logo a seguir formariam a banda pop-soul-samba Azymuth, de prestígio internacional. Na faixa 2, cantava a volta dos tropicalistas do exílio, via “Back in Bahia”, de Gilberto Gil.

“Guilherme e eu talvez tivéssemos em mente os fenômenos Secos & Molhados, Ney Matogrosso e Lennie Dale”, revela André Midani, então presidente da gravadora Philips, que contratara Wanderléa para o selo popular Polydor, após quase uma década que a cantora havia passado gravando numa CBS governada pela avalanche jovem-guardista de Roberto Carlos. Os Secos & Molhados, de Ney Matogrosso, nem haviam estourado ainda. Os Dzi Croquettes, de Lennie Dale, conviviam com Wanderléa – futuramente, passariam temporada hospedados no apartamento paulista da artista, onde ela mora até hoje. Black power e gay power se embaralhavam, indefinidos e imprecisos, na peruca, no glitter e na feminilidade da ex-mocinha sexy e comportada do iê-iê-iê.

Corta para o palco do Teatro Tereza Rachel, no Rio de Janeiro, na temporada do show Maravilhosa, agitado por Guilherme para o pré-carnaval de 1973. De sutiã, saia de filó, babados, flores e lantejoulas aplicadas, a ex-Ternurinha faz do palco seu veículo de libertação. Chega ao extremo de dar um tapa na cara de uma fã, em plena cena.

“Tinha duas meninas lá, as duas sentaram e começaram a curtir o show, mas de uma forma que interferia muito”, lembra Wanderléa, entre divertida e constrangida. “Falavam, incomodavam, me chamavam de gostosa. As duas estavam muito doidas. Eu estava cantando ‘Segredo’, do Luiz Melodia, bem dramático, que eu fazia ajoelhada no chão. Meu instinto foi mais forte. Levantei, cheguei perto, cantei pra elas. Não tinha jeito, uma mostrou uma língua sacana pra mim. Pá! Foi tão forte que o público veio abaixo, no dia seguinte queriam que acontecesse de novo, achavam que estava no script.”

“Alegria já chegou/ novo mundo despertou”, Wanderléa cantava na terceira faixa do disco, “Alegria”, composta pelo soulman brasileiro (embora nascido no Paraguai) Fábio. Duas marchinhas carnavalescas do repertório de Carmen Miranda compunham o disco e o show: “Casaquinho de tricô” (1935), de Paulo Barbosa, e “Uva de caminhão” (1939), de Assis Valente. A seção carnavalesca do show incluía versões pop-soul, conduzidas pelo Azymuth, de marchinhas como “Mamãe, eu quero” (sucesso com Carmen Miranda em 1940), “Escandalosa” (Emilinha Borba, 1947), “Chiquita bacana” (idem, 1948) e “Sassaricando” (Virgínia Lane, 1951). Era alegria para dar e vender.

“Wanderléa chamou Guilherme para dirigi-la, e ele, por sua vez, chamou como vocalistas As Gatas, três senhoras que gravavam nos discos de samba”, lembra o guitarrista do show, o baiano Hyldon, mais tarde conhecido pelo sucesso samba-soul “Na rua, na chuva, na fazenda” (1975), revelado como compositor por Wanderléa em duas faixas de …Maravilhosa: “Vida maneira” (“quero ter uma vida maneira, mas eu não levo jeito de prisioneira”) e “Deixa”. “Guilherme colocou As Gatas bem na frente do palco. Elas morriam de vergonha. Iam pro boteco em frente ao teatro e tomavam umas cachaças pra criar coragem”, ele ri.

Nelson Motta, que ajudou na seleção de repertório e foi creditado como assistente de produção do disco, lembra outro episódio, este ocorrido em estúdio. “A gravação dela seria seguida pela dos Novos Baianos, e Baby Consuelo apresentou um charuto a Wanderléa, que passou malíssimo, entrou em pânico, foi um horror. Foi uma primeira vez trágica para ela.”

A artista confirma, e conta mais detalhes. “Eu estava nervosa, travada. Estava difícil pra gravar. Baby disse: ‘Olha, você vem cá, vou te aplicar um lance rapidinho aqui, você vai conseguir, vai ficar calminha, relaxada.’ E me apresentou lá dentro do banheiro um charuto desse tamanho, enorme. Foi péssimo. Minha cabeça rodou, foi uma bad trip”, ri.

“Fomos buscar um repertório diferente do que ela fazia nos discos anteriores, e uma música de um hit maker da época, Rossini Pinto, ‘Mata-me depressa’, que foi um grande sucesso”, lembra Marco Mazzola, futuro produtor estelar de MPB, que assinou a direção de produção do LP com Jairo Pires. Baladão composto por um autor e produtor jovem-guardista da CBS, a faixa de abertura “Mata-me depressa” fazia uma ponte entre a Wanderléa que estava acabando e a que lutava por eclodir.

“Para mim, com aquele papo de vender, eles desconfiguraram o disco, colocando uma música tipo ‘Sentado à beira do caminho’ (sucesso de Erasmo à época), do Rossini Pinto”, Hyldon diverge de Mazzola. “O papo era que precisava ter uma música desse tipo, para não chocar o público da Wanderléa. A gravadora resolveu trabalhar essa música, que não estourou e pôs por água abaixo todo o conceito de mudança que ela estava determinada a fazer.”

Tragédia pessoal e aproximação com a MPB

Wanderléa ouve novamente …Maravilhosa ao meu lado, na sala do apartamento onde já moraram Dzi Croquettes, Ney Matogrosso e Jorge Fernando, hoje diretor de novelas globais. E se enche de alegria e entusiasmo. Canta junto. Diz que morre de vontade de remontar aquele show. Altos e baixos de mercado à parte, muita coisa explicava, nos bastidores, o nervosismo da artista à época e a ambivalência do trabalho, entre a alegria e a melancolia, a leveza e a mais profunda tensão.

O desbunde musical-teatral de Wanderléa foi vivido em paralelo com intensa fase de dramas pessoais. No início dos anos 1970, ela namorava José Renato (filho do animador televisivo Chacrinha), que ficou tetraplégico após um mergulho numa piscina, na Semana Santa de 1971, apenas três meses após a morte do pai da artista. Depois do acidente, eles se casaram, e a carreira dela ficou dividida entre a ousadia estética e os cuidados do marido, entre a necessidade de inovar e os acontecimentos por trás das cortinas que a puxavam para baixo.

Aconteceria nesse contexto, por exemplo, a gravação abortada pela maconha de Baby Consuelo (hoje Baby do Brasil). “Meu irmão na mesma hora entendeu, passou a mão na minha cintura, foi se despedindo, todo mundo entendeu. Cheguei no carro, meu irmão bateu a porta, virei uma fera. Gritava, esbravejava, foi uma coisa… Ficamos rodando com o carro à noite, porque eu tinha que voltar pro hospital, eu era a companhia do Zé Renato aquela noite”, ela lembra.

Wanderléa reavalia aquela época, enquanto se esforça para restabelecer a cronologia exata daqueles tempos. “As coisas acontecem, você tem que continuar. O trabalho sempre foi para mim uma forma de eu transpor as dificuldades. Sempre usei o palco dessa maneira.” As dificuldades, portanto, explicavam tanto a braveza como a bravura. …Maravilhosa é o testemunho histórico, até hoje pleno de vida, do tumulto e do ímpeto de Wanderléa.

Foi um voo colhido no ato. A alegria se dissipou no álbum seguinte, Feito gente (1975), o derradeiro pela Polydor. Ali, a cantora manteve a aproximação com a MPB por um viés underground, de autores pós-tropicalistas como Jorge Mautner (“Ginga de mandinga”), Luiz Melodia (“Segredo”) e Walter Franco (“Feito gente”).

A segunda reviravolta de Wanderléa nos anos 1970 aconteceria em 1977, naquele que é talvez seu álbum mais consistente, Vamos que eu já vou, lançado pela EMI/Odeon. À moda de …Maravilhosa, o LP começava careta, com uma balada épica de Roberto e Erasmo, “A terceira força”. Mas o que vinha a seguir era de natureza bem diferente, e embalada por uma big band formidável, liderada pelo carioca Egberto Gismonti, um dos mais originais e inventivos músicos brasileiros.

Longe da Jovem Guarda e da MPB carnavalesca-tropicalista, a cantora realçava pela primeira (e talvez única) vez sua mineiridade, entre canções pop-soul-MPB de Egberto (“Calypso”, “Café”, “Carmo”, “Educação sentimental”), Rosinha de Valença (“Coisas da vida”), Altay Veloso (“Vamos que eu já vou”, “Antes que a cidade durma”, “Relva verde”) e Paulo Diniz (“Poema para Léa”) e Tibério Gaspar (“Dança mineira”).

Os preconceitos da tradicional família MPB falaram mais alto. Nem a presença de Gismonti foi suficiente para despertar curiosidade sobre Vamos que eu já vou. O contrato com a EMI/Odeon foi encerrado após Mais que a paixão (1978), novamente uma tentativa de aproximação de Wanderléa à MPB, em interpretações de canções de Egberto (a faixa-título), Gonzaguinha (“Lindo”), Djavan (“O canto da lira”), Moraes Moreira (“Fruto maduro”), Marlui Miranda (“Pitanga”) e Fatima Guedes (“Bicho medo”).

Os anos 1970 chegavam ao fim e, com eles, o experimentalismo a que Wanderléa teve direito enquanto tentava reencontrar uma personalidade musical. O contrato seguinte se daria com a CBS de Roberto Carlos. O colega dos anos iê-iê-iê deu assistência em pessoa e ofereceu um de seus produtores (Mauro Motta) para a gravação de Wanderléa (1981). O álbum veio orientado pelo romantismo exacerbado com que Roberto fazia então milhões de fãs e de dinheiros. Wanderléa conseguiu chegar às paradas, daí em diante, cantando baladas açucaradas como “Na hora da raiva” (1981), de Roberto e Erasmo, e a regravação avulsa de “Menino bonito” (1974), de Rita Lee, em 1985.

O pacote musical voltava a ficar conservador, mas a artista tentava seguir ousando em termos temáticos. Como a presença das compositoras Marlui Miranda e Fatima Guedes no LP de 1978 já anunciara, havia uma feminista doida para aflorar em Wanderléa. Se a carnavália pop-soul desempenhou esse papel nos tempos de …Maravilhosa, no início dos 1980 ela apareceu como compositora em “Um jeito novo de amar” (1981), gravou a dupla feminina Luli & Lucina (próxima de Ney Matogrosso) em “Perdidos de amor” (1983) e tentou apresentar uma nova compositora, Irinéia Maria, em “Liberdade de amar” e “Facho de luz” (todas de 1981).

Novamente, não foi ouvida. Um medley de sucessos antigos da Jovem Guarda pulava na frente no LP semidirigido por Roberto Carlos, e o sucesso modesto sobrou apenas para “Na hora da raiva”, balada de tapas & beijos bem ao gosto do Roberto dos anos 1980.

O desejo de liberdade foi o tema central da Wanderléa pós-iê-iê-iê, fosse na robustez de …Maravilhosa, fosse nas tentativas já mais titubeantes do início dos 1980. Desde então, o mercado musical seguiu exigindo da artista a saudade e o saudosismo, e ela foi exercitar liberdade ora nos palcos, ora fora deles, na vida privada. Hoje agonizante ela própria, a indústria fonográfica foi pródiga em bajular suas meninas-prodígio, mas as deixava à beira do caminho quando elas ousavam querer brincar de rebeldes. Wanderléa seguiu pela vida e pela carreira, sempre em busca de um rasgo que fosse de liberdade. F



No artigo


x