Sobre Adelaide, Zorra Total e o racismo sem graça

Os defensores do programa e do quadro apresentam a argumentação de sempre, em prol da “liberdade de criação”, e de que se trata apenas de um programa humorístico. Mas será que a expressão humorística é descolada da realidade?

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Os defensores do programa e do quadro apresentam a argumentação de sempre, em prol da “liberdade de criação”, e de que se trata apenas de um programa humorístico. Mas será que a expressão humorística é descolada da realidade?

Por Dennis de Oliveira

O programa Zorra Total, da Rede Globo de Televisão, está sendo questionado na Justiça por causa da personagem “Adelaide”, interpretada pelo ator Rodrigo Santanna. O ator global se faz passar por uma mulher negra, desdentada, com toda a estética de uma pedinte e que, em determinado programa, expressou falas de conteúdo preconceituoso. Na mais impactante das cenas, ela, ao encontrar uma palha de aço, diz que se tratava do cabelo da filha. Várias pessoas denunciaram o quadro à Ouvidoria Nacional da Igualdade Racial, órgão ligado à Secretaria de Promoção da Igualdade Racial.

O advogado Humberto Adami protocolou ação civil pública contra o programa, alegando desrespeito ao capítulo VI do Estatuto da Igualdade Racial (Lei 12.288). Adami lembra que essa é a única personagem negra do programa e que aparece nessa condição.

Os defensores do programa e do quadro apresentam a argumentação de sempre, em prol da “liberdade de criação”, e de que se trata apenas de um programa humorístico. Mas será que a expressão humorística é descolada da realidade?

Sobre humor e risos

O filósofo Henri Bergson é costumeiramente citado nos estudos sobre comicidade e riso. Segundo ele, o riso é um despertar da consciência que se liberta do automatismo e do mecanicismo das ações; por isso, é uma interpelação à inteligência pura. Por essa razão, Bergson atribui à narrativa cômica uma qualidade cognitiva; para ele, o riso é uma expressão de entendimento de determinado(s) fenômeno(s).

Já o pensador russo Mikhail Bakhtin atribui ao riso uma possibilidade crítica presente nas culturas populares com as metáforas da inversão. Analisando os carnavais medievais, Bakhtin demonstra que as figuras cômicas e grotescas – o rei Momo, os bufões, homens vestidos de mulheres, entre outros – representam olhares invertidos de uma ordem rigidamente hierarquizada, transformando-se, assim, em um espaço de crítica. Rir da inversão é uma forma de retirar a seriedade (construída ideologicamente) da ordem, principalmente pelo fato de que a comicidade expressa o fato de que uma outra ordem é possível.

O humor construído a partir da sedimen­tação de preconceitos, em uma leitura bersoniana, significa uma interpelação a um pensamento que se “liberta” de comportamentos automatizados contidos pelos mitos da democracia racial, ainda vigentes na sociedade brasileira. Expressam a inteligência pura do racismo.

Por outro lado, a inversão simbólica de um comportamento desejável e reivindicado pelos movimentos sociais antirracistas (o comportamento racista como algo cômico) é uma crítica ao antirracismo, é a sua desqualificação e desmoralização.

Em um país no qual o racismo é uma prática vigente, mas envergonhada, e negada peremptoriamente por quem o pratica, o deslocamento simbólico do racismo para o humor cumpre duplo papel – o de ser uma expressão pura, sem qualquer “amarra” de códigos éticos e normativos, do racismo mais cruel, e também de ser uma forma de desqualificação do discurso antirracista.

As reações às atitudes de quem critica programas como esse se encontram neste mesmo diapasão: defesa da “liberdade” de criação e ridicularização das ações propostas.

Tendências do racismo à brasileira

O avanço do movimento antirracista brasileiro nos últimos anos, no sentido de buscar a equidade de posições entre brancos e negros por meio de ações afirmativas, toca fundo no coração da estrutura social brasileira: uma sociedade erigida com base em privilégios concedidos racialmente. Incomoda lutar por vagas na universidade pública, por empregos, por igualdade de oportunidades. Buscar a igualdade significa redistribuir oportunidades, e isso, por sua vez, implica mexer em privilégios.

O incômodo dos privilegiados racialmente encontra dificuldades em se expressar em um espaço público já contaminado pela condenação moral do racismo enquanto prática política. Daí o seu deslocamento para o campo simbólico, em especial o midiático e, particularmente, o espaço do entretenimento e do humor (lugares de fala em que se consolidam estilos de vida e comportamentos cotidianos).

O racismo midiático tenderá a ser uma das formas mais agudas de expressão da ideo­logia racista. De qualquer forma, o que se conclui desta rápida análise do caso é que o racismo do programa Zorra Total – e de qualquer outro programa – não tem graça nenhuma. F



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5 comments

  1. Ricardo Rolim Xavier Responder

    Me parece que o humor se torna um momento para escancarar os preconceitos que estão encobertos. O meio midiático, em especial a Rede Globo de TV, procura se fazer de defensora dos direitos da mulher e da população afrodescente, mas nos programas humorísticos e nas omissões ( vários problemas da população negra e feminina noticiados pela imprensa alternativa não são noticiados pelos telejornais e jornais tradicionais) revela o que é esta emissora.
    Mussum militante? Ele e todo grupo Trapalhões “militou” é pela indústria cultural.
    Se as emissoras valorizassem realmente a beleza negra não compararia cabelo crespo com palha de aço. Realmente estão aparecendo mais artistas negros, mas provavelmente por ter havido pressões e criticas no passado recente e também por terem percebido a que população negra é um grande mercado que eles não estavam atendendo. A concepção de beleza da midia é muito conforme a indústria da moda, de cosméticos e de serviços estéticos. Buscam convencer que para ser bela tem que ser diferente das características naturais.

    1. Moisés Leite Responder

      Um pouco fora do contexto do racismo, mas também concordando com a crítica ao padrão capitalista ocidental, que prega nas entrelinhas a perfeita família Claybon, com brancos louros. Cor e condição social ainda será um divisor da sociedade por muitos anos. Até em países ditos desenvolvidos ainda é um divisor.

      Mas outra coisa que acho estúpida é o tipo de humor sem graça, repetitivo, até mesmo abusivo a inteligência mais evoluída do povo, que já tem acesso a mídias de mais sucesso e pode acessar quando quiser pela internet ou tv por assinatura(agora mais acessível).

      Um exemplo chulo é a desgastada Lady Kate, se não bastasse a mesma temática de sempre, agora está forçando a inteligência do povo ao pronunciar palavras erradas de maneira mais difícil até que o português clássico. A culpa não é dela, é do editor que deveria saber que o falar errado vem de vícios de linguagens, pronuncia incorreta, linguajar popular e nada se aproxima ao termo “Tus”, querendo remeter ao pronome “Vocês”. É tão forçado que ela gesticula para ajudar ao povo a perceber que é o pronome no plural. Ele (o editor) deveria fazer um laboratório nos locais mais populares ou mesmo pedir uma consultoria ao um professor de português. Emissora tem um consultor de língua portuguesa muito bem conhecido por sinal.

  2. Doug Ferr Responder

    bem se o programa caçoa de homossexuais é engraçado (ninguém reclama da valéria vazques), mas é so ter um personagem que é negro tem um alvoroço danado. axo q o racismo não e bem do zorra total, e de quem acha que tudo é racismo, nem sempre é. e um programa de humor, humor não e pra se levar a serio.

  3. liberdade Responder

    Concordo com Doug, qdo o programa fala de homossexuais, de bêbado, de loura, (como por exemplo: a própria Lady Kate que só pq ela é loura e fala errado não quer dizer q estejam chamando as louras de burras), até dos políticos, ninguém se ofende e os próprios negros acham graça disso, mas qdo colocam algum personagem na cor deles fazendo alguma sátira, aí eles se ofendem. Ah! parem com isso! Já está virando palhaçada, Já vi até novelas em q uma personagem chamava um cara branco de branco azedo,… e aí os negros podem falar dos outros e qdo um programa não está nem falando deles e sim fazendo uma crítica aos pedintes q pedem esmolas mas na verdade não precisam, e já q a maioria deles é de cor negra, por isso a Globo fez as personagens dessa cor, aí eles se sentiram ofendidos. Faça me um favor, eu acho q a justiça tem coisas mais importantes com q se preocupar ( como estupros, mortes, …) Afinal de contas, cadê a democracia (liberdade de expressão)!