Educação para a violência

Ativista israelense que se recusou a servir o exército conta como o sistema militar patriarcal e sexista influencia a sociedade do país

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Ativista israelense que se recusou a servir o exército conta como o sistema militar patriarcal e sexista influencia a sociedade do país

Por Sandra Guimarães

Sahar Vardi tem 21 anos e estuda História e Educação na Universidade Hebraica de Jerusalém, cidade onde nasceu. Cresceu em uma família, segundo sua própria descrição, judia sionista, e hoje é uma das ativistas israelenses mais engajadas contra a ocupação militar na Palestina.

Aos 13 anos, Sahar foi pela primeira vez aos territórios palestinos, acompanhada pelo pai. Durante a segunda intifada (2000-2002), o pai se tornou ativista, participando das ações realizadas pelo grupo israelense Ta’yush. Foi seu primeiro contato com palestinos. “Apesar de ser muito fácil visitar uma cidade palestina, é possível viver toda a sua vida em Israel e nunca encontrar um único palestino. Jerusalém é uma cidade mista, com mais de 36% de palestinos, mas aqui a segregação é total. Existem bairros exclusivamente judeus, escolas, ônibus… Não há interação entre palestinos e israelenses”, relata.

No vilarejo palestino de No’man, ela participou de atividades com os habitantes, plantou oliveiras e ajudou a trocar o encanamento de algumas casas. “A população de No’man é bastante instruída e todos falam hebraico ou inglês, ou os dois, então foi fácil conversar com jovens da minha idade. A única diferença visível entre mim e aquelas pessoas era a cor da nossa carteira de identidade.” Ali, Sahar viu o que a ocupação significa para o povo palestino. “A estrada que ligava o vilarejo à Jerusalém tinha sido fechada pelo exército israelense, e o muro de separação construído por Israel isolou No’man dos outros vilarejos palestinos. Essa separação física estava ali para me convencer de que não, nós não éramos iguais. A escola tinha me ensinado que a ocupação só existe por razões de segurança, para proteger os israelenses judeus, mas esse argumento desmoronou quanto entrei em contato com a população de No’aman.” Depois desse primeiro contato com pessoas “do outro lado do muro”, Sahar começou a participar de ações contra a ocupação israelense na Palestina, como as passeatas semanais contra a construção do muro e o confisco de terras pelo governo israelense nos vilarejos de Al-Ma’sara e Bil’in.

Em Israel, o serviço militar é obrigatório: três anos para os homens e dois anos para as mulheres. Mas ao completar 18 anos, Sahar se recusou a entrar para o exército. Junto com um pequeno grupo de jovens objetores de consciência, escreveu uma carta aberta ao ministro da Defesa israelense. O primeiro parágrafo dessa carta diz: “Nos recusamos a servir o exército em primeiro lugar e, acima de tudo, em sinal de protesto contra a política israelense de separação, controle, opressão e assassinato nos territórios palestinos ocupados, pois acreditamos que oprimir, assassinar e semear o ódio não pode trazer paz ao mundo e que isso vai contra os valores fundamentais de uma sociedade que se diz democrática.”

Com essa carta coletiva, Sahar escreveu uma mensagem pessoal onde dizia: “Em casa e na escola me ensinaram os direitos fundamentais, como justiça, liberdade e igualdade, mas muito cedo percebi que o país onde vivo nega esses direitos a milhões de pessoas para que eu possa desfrutar da ‘liberdade’ que ele me ensinou que todos merecem. Eu não posso ficar em um posto de controle e separar uma raça de outra, um tipo de carteira de identidade de outro, não posso bombardear cidades cheias de homens, mulheres e crianças, mesmo se isso for feito como parte de uma guerra, e não posso punir milhões de inocentes pelos crimes cometidos por alguns. É nossa obrigação como seres humanos não ferir os outros, é nossa obrigação recusar a participação de qualquer ação que possa prejudicar os outros, mesmo se estivermos seguindo ordens do nosso país. Eu me recuso a agir de maneira violenta, sob ordens ou não.”

A resposta do governo israelense aos jovens que recusam o exército é a prisão. Sahar ficou dois meses na cadeia e três meses em um centro de detenção. Depois de ser liberada, continuou suas ações de ativista, mas começou a trabalhar de maneira mais intensa em Jerusalém. Trabalhou alguns anos no Comitê Israelense Contra Demolições de Casas (Icahd), onde coordenava projetos de reconstrução de casas palestinas demolidas pelo governo israelense e organizava tours políticos em sua cidade natal. Hoje ela faz parte de uma organização que promove a desmilitarização da sociedade israelense e propõe alternativas às pessoas que não querem servir o exército, oferecendo bolsas de estudos e programas de voluntariado no exterior. O sistema universitário em Israel é determinado pelo trabalho feito no exército, de modo que pessoas que não fazem o serviço militar não podem obter bolsas de estudos e, se um projeto de lei em tramitação no Congresso for aprovado, não poderão fazer certos cursos, como Medicina e Direito. Sahar explica que “embora essas leis se apliquem aos objetores de consciência, elas foram criadas para punir os árabe-israelenses, que não fazem o serviço militar”. Paralelamente aos estudos e ao trabalho, ela ainda participa regularmente de ações de solidariedade com o povo palestino e manifestações contra a ocupação.

Tive a sorte de escutar Sahar em duas conferências, a primeira logo depois que ela foi liberada da prisão; a segunda, alguns meses atrás, e acompanho com admiração o seu trabalho. Encontrei-a em uma tarde de junho, na Universidade Hebraica de Jerusalém. Ela tinha acabado de chegar de uma conferência na Grécia e já estava se preparando para a próxima viagem, à Alemanha, onde participaria de uma conferência sobre a militarização da juventude no mundo. Entre duas aulas, ela gentilmente se dispôs a responder algumas perguntas e conversar sobre sua vida e seu trabalho.

Fórum – Você se define como “uma ativista de Jerusalém”. Quanto da sua vida foi modelada pelo ativismo?

Sahar Vardi – Minha adolescência e minha vida adulta foram definidas em função do meu ativismo. Ele influencia o tipo de trabalho que faço, o que eu leio, o que eu como, o curso que escolhi na faculdade, as pessoas com quem decido conviver… Tudo na minha vida é influenciado pelo ativismo.

Fórum – Qual foi a reação de sua família quando você se recusou a fazer o serviço militar?

Vardi – Minha família não se surpreendeu, eles já imaginavam que eu faria isso. Aqui é relativamente fácil evitar o serviço militar obrigatório, e eu poderia ter usados várias desculpas para não servir o exército. Por exemplo, 12% da população evita o serviço militar alegando motivos de saúde mental, e há poucas chances que esse pessoal todo seja louco. Mas, para mim, era importante enviar uma mensagem ao meu governo, manifestar publicamente minha desaprovação. Em Israel, não existe a opção de recusar servir o exército. Ao completar 18 anos, todo israelense se torna automaticamente soldado, independentemente da vontade de cada um. Você, que é considerado um soldado, vai para a prisão não por ter se recusado a servir o exército, mas por ter desobedecido à ordem do seu comandante de ir para a sua base militar.

Depois desses cinco meses de prisão e detenção, acabei sendo liberada por motivos de saúde mental, já que não é possível sair desse sistema alegando motivos políticos. Então, sou oficialmente louca. Mas durante todo esse processo, pude contar com o apoio da minha família, que também apoiou a decisão do meu irmão de fazer o serviço militar. Hoje, ele segue carreira no exército, mas sempre se recusou a combater nos territórios palestinos. Fomos expostos à mesma realidade, mas seguimos caminhos diferentes, e minha família respeita as minhas razões e as dele.

Fórum – Você trabalha atualmente em uma organização que promove a desmilitarização da sociedade israelense. Como acontece e quando começa o processo de militarização no seu país?

Vardi – A militarização da sociedade começa muito cedo, na escola. Nossos livros nos ensinam a contar ligando imagens de tanques, a­viões de caça etc. aos números correspondentes. Nas datas comemorativas, os alunos enviam presentes para os soldados. Durante toda a nossa educação, aprendemos que segurança justifica todo e qualquer ato e que a ocupação nos territórios palestinos é a única maneira de manter um lar para o povo judeu. Tudo é uma grande preparação para o exército, principalmente quando os alunos se aproximam da idade de fazer o serviço militar. Lições de História sobre a perseguição sofrida por judeus, os combates para obter o nosso país… Esse doutrinamento aplicado à população pode ser visto de maneira explícita todos os anos nas semanas entre abril e maio. Começa com Pesach, a páscoa judaica [comemoração da libertação do povo hebreu do Egito, travessia do mar vermelho e chegada à terra prometida], depois vem o dia da memória do Holocausto, seguido do dia da memória dos soldados e, no dia seguinte, a independência de Israel.

A mensagem é muito clara: os judeus sofreram e foram perseguidos durante toda a História, o Holocausto é um bom exemplo disso, muitas pessoas lutaram e perderam a vida pra que hoje os judeus tivessem um país, e é nossa obrigação seguir lutando, se quisermos continuar vivendo aqui. O medo é um elemento importante no processo de militarização da sociedade e faz parte do sistema educacional israelense, cujo objetivo principal é formar bons soldados.

Fórum – Quais são as consequências internas dessa militarização da sociedade?

Vardi – Quando uma sociedade inteira passa por um sistema militar em que a única maneira de resolver problemas é por meio da violência, cria-se uma sociedade muito violenta. Quando todos os jovens de 18 anos passam por um sistema que é por definição patriarcal e sexista, com estereótipos muito claros sobre o papel da mulher e do homem no exército, isso acaba se reproduzindo na nossa vida civil. Ao entrar no exército, cada soldado homem recebe um cartão postal com a foto de um soldado sentado em cima de um tanque, o canhão estrategicamente posicionado entre suas pernas, com a seguinte frase: “Muitas coisas são duras no exército”. O cartão vem acompanhado de uma camisinha, caso a mensagem não tenha sido clara o suficiente. Nos ensinam que o serviço militar é uma parte indispensável da vida de todo israelense e, se é assim que homens devem tratar as mulheres no exército, por extensão, é assim que elas devem ser tratadas na sociedade.

Fórum – Você faz parte do pequeno grupo de ativistas israelenses cujo trabalho e posições políticas vão contra a opinião da maior parte da população. Qual é a sua relação com o israelense médio?

Vardi – Depende da situação. Se sou confrontada com pessoas cujas opiniões são extremamente diferentes das minhas, o que acontece o tempo todo, procuro manter a calma e ser paciente. Houve uma época em que um extremista sionista descobriu o meu número e me ligava constantemente dizendo montanhas de insultos. Eu sempre escutava e tentava responder educadamente, com argumentos racionais. Depois de algumas semanas, ele acabou se acalmando e tivemos algumas conversas interessantes. Não sei se mudou de opinião, mas pelo menos escutou, talvez pela primeira vez na vida, uma opinião diferente. Alguns dos meus amigos de infância cresceram em colônias ilegais na Cisjordânia, e ainda tenho contato com eles. Já aconteceu de encontrar colegas de escola durante uma manifestação na Cisjordânia, eu ao lado dos palestinos e eles, em uniforme de soldado. Nessas ocasiões, o diálogo é limitado, geralmente um olha para o outro e diz: “Então é isso que você está fazendo agora…”.

Fórum – Qual o papel dos ativistas israelenses na luta contra a ocupação militar nos territórios palestinos? O que você acha do conceito de “coresistência”, segundo o qual israelenses lutam contra a ocupação ao lado dos palestinos?

Vardi – Como israelense, é minha obrigação denunciar os crimes cometidos pelo meu governo e tentar fazer com que isso cesse. São meus impostos que financiam o exército, foi o meu voto que elegeu esse governo e é meu dever lutar por uma sociedade mais justa. Nas ações contra a ocupação na Cisjordânia, a presença de ativistas israe­lenses consegue conter um pouco a reação dos soldados, que seria muito mais violenta se houvesse somente palestinos ali. O fato de falar hebraico também ajuda a acalmar um pouco os soldados. Durante essas ações, ativistas israelenses também podem tentar impedir que palestinos sejam presos. Se formos presos durante uma ação, as consequências para nós serão mínimas [israelenses presos durante ações contra a ocupação são liberados algumas horas depois, enquanto um palestino preso nas mesmas circunstâncias pode ficar anos na cadeia]. Claro que um ativista palestino e um ativista israelense não correm os mesmos riscos nem sofrem o mesmo tipo de repressão, mas coresistência, para mim, não significa que estamos lutando da mesma maneira, no mesmo nível.

Mesmo entre israelenses a resistência é diferente: como mulher, apanharei menos do que um ativista homem durante uma ação, mas ele será levado mais a sério do que eu. São exatamente essas diferenças que nos permitem agir de maneiras variadas, em vários setores. Porém coresistir, hoje é complicado, devido à falta de visão comum entre os ativistas israelenses. Há muitas divergências de opiniões entre nós. Existe uma diferença clara entre gerações também. Os ativistas mais velhos, por exemplo, ainda servem o exército [hiperlink: depois do serviço militar obrigatório, todo israelense deve servir o exército um mês por ano até a idade de 45 anos]. Se Israel e Palestina fossem um único país, haveria uma unidade na luta por justiça e a coresistência seria mais fácil.

Fórum – De que tipos de ações você se recusa a participar, por divergências de opinião com os organizadores ou por não concordar com os métodos empregados, por exemplo?

Vardi – Ações que usem violência. Tenho minhas prioridades, mas se eu concordar com o objetivo da ação, participo mesmo sabendo que alguns dos participantes têm opiniões políticas diferentes das minhas. Apesar das divergências, se sinto que estamos trabalhando por um objetivo comum, não vejo problema em participar.

Fórum – Você vê o J14¹ com otimismo ou ceticismo?

Vardi – Sou otimista neste sentido: enquanto o pessimista diz que a situação não pode piorar, o otimista diz: “Sim, sim, ela pode piorar!” [risos]. Acho que as pessoas envolvidas nesse movimento têm boas intenções, mas eles pecam por quererem ser sempre “os bonzinhos”. O Movimento por Justiça Social quer agradar a todos, quer ser mainstream, mas é impossível fazer uma real mudança na sociedade sem irritar uma parte dela. O movimento teve alguns efeitos positivos nas pessoas. Durante as manifestações, muitos participantes foram presos e, pela primeira vez na vida, sentiram na pele a injustiça e a repressão da qual o nosso governo é capaz. Nesse sentido, puderam se identificar com os palestinos, e isso é muito importante. Então, tenho esperanças, sim.

Fórum – Como você imagina o futuro pós-ocupação? Um Estado ou dois?

Vardi – Definitivamente, um Estado. Sonho com um país formado por três federações: uma judia, uma árabe e uma para quem preferir não ser identificado nem como judeu nem como árabe. As pessoas precisam sentir que o fato de fundir Israel e Palestina em um único país não mudará a vida delas e que a diversidade cultural será preservada. Então, esse país terá autonomia cultural, mas as leis serão as mesmas para todos. Como o que aconteceu na África do Sul depois do fim do apartheid. Um só país, para mim, não significa que os habitantes serão forçados a se homogeneizar nem a mudar o local de suas residências. Eu, por exemplo, não tenho nenhuma intenção de deixar Jerusalém e ir morar em Ramala [capital cultural e administrativa da Cisjordânia]com a minha namorada. Não gostaria de viver dentro da sociedade palestina. Um Estado com três federações daria essa opção à população, cada cidadão seria livre para escolher viver na federação com a qual tem mais afinidades, com a garantia de ser protegido pelas mesmas leis e usufruir dos mesmos direitos.

¹J14 – Em 14 de junho de 2011, uma israelense de Tel-Aviv colocou uma tenda no centro da cidade para protestar contra o preço elevado da moradia no país. Outros israelenses se juntaram a ela, e esse foi o início de uma série de manifestações pedindo justiça social e uma melhor distribuição de riquezas. O movimento ficou conhecido como J14, OU Movimento por Justiça Social, e continua ativo.



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