Espécies camaradas

Opor o afeto a animais domésticos ao afeto por pessoas, como se um excluísse o outro, é ficar preso a uma dicotomia sem solução

692 0

Opor o afeto a animais domésticos ao afeto por pessoas, como se um excluísse o outro, é ficar preso a uma dicotomia sem solução

Por Vange Leonel

Fato curioso: o candidato a vereador mais votado na cidade de São Paulo nas eleições de 2012, Roberto Trípoli (PV), fez toda sua campanha com um cachorro estampado nos santinhos e cavaletes advogando a causa da proteção aos animais. Em entrevista após a vitória, deu a infeliz declaração: “Quanto mais conheço humanos, mais gosto de animais.” Por atitudes e frases como essa, protetores de animais são tomados por cabotinos ou vistos, equivocadamente, como pessoas que realmente preferem os bichos às pessoas. Mas é verdade também que alguns amantes de bichinhos esquecem que nós, humanos, também somos animais.

Opor o afeto a animais domésticos ao afeto por pessoas, como se um excluísse o outro, é ficar preso a uma dicotomia sem solução. Meu entendimento da relação entre as pessoas e seus animais domésticos se aprofundou muito após ler o “The Companion Species Manifesto”, da filósofa, bióloga e feminista Donna Haraway. A autora usa o conceito de “Espécies camaradas” (“Companion Species”), para refletir e jogar luz sobre o longuíssimo tempo de convivência e coevolução entre nós e nossos bichanos, sejam gatos, cachorros ou tartarugas.

Darwinista e marxista (sim, isso é possível), Haraway enxerga o processo coevolutivo entre espécies camaradas (humanos e seus bichanos) como uma longa história que engloba inúmeras narrativas de natuculturas (tradução livre para “natureculture”). Por que natucultura? Porque Haraway dispensa, para suas reflexões, a obsoleta cisão entre natureza e cultura. Nesse sentido, tanto nós domesticamos (bioculturalmente) nossos bichanos quanto eles nos domesticaram. Há milênios compartilhamos vírus e germes com animais domésticos, e nossos sistemas imunológicos contam esta história. Para Haraway, “sistemas imunológicos podem determinar onde organismos (incluindo pessoas) conseguem viver e com quem. A história da gripe seria inimaginável sem o conceito de coevolução entre seres humanos, porcos, galinhas e vírus.”

Podemos estender essa convivência aos vegetais também. Ao domesticar grãos, selecionando as melhores sementes, nós, humanos, descobrimos como plantar. Ao plantar, nos fixamos num pedaço de terra e, dizem alguns, teria surgido assim a propriedade. Poderíamos então dizer que a domesticação dos grãos teve, dessa forma, um impacto enorme na nossa cultura. O mesmo vale para a domesticação de cavalos selvagens, lobos, felinos e ungulados, que se tornaram depois, cavalos domésticos, cachorros, gatos e vacas.

A parte mais interessante do Manifesto das Espécies Camaradas, no entanto, é o reconhecimento de que o espaço do encontro é o lócus de toda a teoria de camaradagem entre espécies. Haraway não suporta o endeusamento dos bichanos ou a elevação de seu status a “filhos”. Para ela, relacionamentos são sempre multiformes, incompletos, sujeitos a questionamentos e implicam consequên­cias: “Enxergar seu cachorro como uma criança felpuda é menosprezar tanto cães quanto crianças.” A beleza, a delícia, está nessa zona conflituosa do encontro entre essas espécies camaradas. Porque nunca estivemos sós nessa vida.



No artigo

x