O mercado é quem vai ditar a inserção de negros no ensino superior?

A expansão do ensino superior privado, incrementada de forma intensiva no governo de Fernando Henrique Cardoso, sob a batuta do ex-ministro da Educação Paulo Renato de Souza, ainda é um problema

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A expansão do ensino superior privado, incrementada de forma intensiva no governo de Fernando Henrique Cardoso, sob a batuta do ex-ministro da Educação Paulo Renato de Souza, ainda é um problema

Por Dennis de Oliveira

O Censo da Educação Superior de 2011, produzido pelo Ministério da Educação (MEC), apontou que, entre 1997 e 2011, o percentual de negros e negras no ensino superior passou de 4% para 19,8%, isto é, em torno de 13 milhões de jovens negros de 18 a 24 anos estão nas faculdades.

Esse número é superior ao de negros e negras que estão nas universidades nos Estados Unidos, país que sempre é referência quando se discutem ações afirmativas para afrodescendentes. Lá, são 3 milhões, ou o equivalente a 13,8%. Entretanto, os EUA praticamente igualaram o percentual de negros na população (14%) com o de participantes no ensino superior. Aqui, a disparidade é muito maior, pois o percentual de negros na população brasileira é superior a 50%.

Outro dado importante do censo é o aumento de pessoas oriundas de famílias de baixa renda no ensino superior. Em 1997, 0,5% dos alunos vinha das famílias localizadas entre os 20% mais pobres do País. Esse percentual manteve-se inalterado até 2004, ficando em 0,6%. A subida rápida ocorreu nos anos seguintes, já nos governos Lula/Dilma, indo para 4,2%. Por sua vez, os alunos das famílias 20% mais ricas aumentaram sua participação no ensino superior, de 22,9% para 41%, entre 1997 e 2004. Em 2011, houve ligeiro aumento dessa participação, para 47,1%, demonstrando que o ensino superior continua privilegiando a elite.

Problemas a serem enfrentados

O aumento da participação de jovens negros e pobres no ensino superior se deve ao ProUni (que tem cotas para alunos negros e vindos do ensino público) e ao aumento da oferta de vagas em universidades públicas localizadas nas regiões mais pobres do País.

Porém, a expansão do ensino superior privado, incrementada de forma intensiva no governo de Fernando Henrique Cardoso, sob a batuta do ex-ministro da Educação Paulo Renato de Souza, ainda é um problema. Hoje, 72% dos alunos do ensino superior estão nas instituições privadas (esse percentual pouco mudou apesar da expansão da oferta de vagas no ensino público). O ProUni possibilitou a capitalização das universidades privadas ao dar uma garantia de que as mensalidades serão pagas, mesmo que por alunos trabalhadores que sofrem sempre com as instabilidades do mercado de trabalho.

Essas universidades privadas têm uma minoria de professores doutores (menos de 20%) e 73% de professores trabalhando em regime de hora-aula, impossibilitando as atividades de pesquisa, extensão e orientação de trabalhos extra-aula. Mais de 95% das pesquisas se localizam nas universidades públicas. Pior: as pouquíssimas universidades particulares que se preocupam com a pesquisa e a extensão – em geral, as confessionais e comunitárias – sofrem uma concorrência predatória das “unis” da vida, que oferecem cursos a preços baixíssimos, visando a atrair esse aluno de baixa renda, mas oferecendo em troca um ensino de qualidade duvidosa.

Outro fenômeno que está ocorrendo é a formação de grandes monopólios de instituições de ensino superior privados. Conglomerados como Anhanguera, Unip, Estácio, Universo, entre outros, estão impondo, via mercado, um “padrão” de ensino superior que, se consolidado, será difícil de modificar. A profusão de cursos sequenciais e tecnológicos que oferecem uma formação rápida (dois anos) e “voltada para o mercado” desfigura a natureza do espaço universitário. O mercado profissional ditando as regras cria distorções, como a presença maciça de cursos na área de Administração e Gestão e uma redução nos cursos voltados à formação de professores. Teremos um país apenas de administradores e sem professores?

Este fosso entre a qualidade das universidades públicas e privadas pode construir um novo abismo racial entre pessoas com diplomas de um tipo de ensino superior e outro. Daí a necessidade urgente de se implementar as políticas de ação afirmativa e de cotas nas universidades públicas. E também de se aperfeiçoarem os mecanismos de avaliação institucional e de cursos das universidades privadas por parte do MEC, principalmente levando-se em conta que tais instituições estão recebendo recursos públicos.

Os números indicam uma grande mudança para a nova geração de negros e negras. Mas é preciso avaliar se essa inserção vai ser ditada majoritariamente pelo mercado da educação privada.



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