Toques musicais

Os álbuns de Aíla e Barbatuques

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Os álbuns de Aíla e Barbatuques

Por Julinho Bittencourt

Sabe aquele disco divertido, antenado, bem tocado, cantado e gravado, inteligente, suingado, daqueles que você e todos os seus amigos vão ouvir repetidas vezes, dançar, consagrar e daqui a muito anos vão lembrar com carinho como uma bela trilha da própria vida? Pois é, ele existe e se chama Trelêlê, e foi ousadamente gravado pela cantora paraense Aíla.

A moça chega com referência naquelas várias coisas boas que andam acontecendo lá pelas suas bandas, no Pará, e o Brasil começa a se dar conta. Naquele pedacinho do país quente e cheio de vida, com o seu jeito mais caribenho do que brasileiro do sul, com as suas guitarradas, o tecnobrega, tudo isso aliado a canções bonitas, com uma linguagem clara, direta e bem humorada.

A desfaçatez e irreverência de Aíla surgem com uma ironia cortante e, ao mesmo tempo, um incrível bom gosto. Uma mistura muito rara e surpreendente de sons, com versos como “Preciso ouvir música sem você, você com seu falatório, você com seu blábláblá, você com fala de otário… você que não desliga o celular”; ou “Garota, não seja louca não, veja pra quem você dá seu coração” ou ainda “Todo mundo nasce artista, depois vem a repressão… faça arte, faça arte, mesmo que a sua mãe diga que não”.

São quase todas composições de amigos próximos do pedaço, como o produtor Felipe Cordeiro, Antônio Novaes, Eliakim Rufino, Renato Torres e Ana Flor, Pinduca, entre outros, que se encaixam na sua voz como se tivessem nascido dentro dela. Aíla parte de certa discrição para chegar ao máximo. Chega cantando como quem não quer nada e surpreende a cada faixa do disco. É uma cantora/intérprete pronta, das melhores do Brasil, com personalidade intensa, um timbre muito próprio e indolente. É daquelas cantoras que, com a sua voz, traz todo o seu mundo, o cheiro e o jeito da sua terra, sem folclorizar e, principalmente, sem abrir mão de tudo o que há de mais novo.

E muito disso se deve à produção impecável de Felipe Cordeiro e também de músicos como Arthur Kunz, Léo Chermont, Du Moreira, João Paulo, Delatuche, Jó, Harley, Camila Barbalho, Otto Ramos e, ainda, às participações de Dona Odete e da já consagrada conterrânea Gaby Amarantos. Vale também chamar a atenção para o projeto gráfico, direção de arte e fotos de Roberta Carvalho.

Enfim, é isto. O disco Trelêlê, da cantora Aíla, além de ser lindo, deixa todo mundo curioso, querendo ouvir mais o Pará, sua gente, seus músicos e cantores. Um mérito irreparável que só os grandes artistas têm.

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O grupo Barbatuques existe há 16 anos e vive, pela própria natureza, um desafio diário. Seus integrantes se dedicam, única e tão somente, aos sons orgânicos, ou seja, os sons que são produzidos pelo corpo. E aí valem os sons da voz, batuques corporais, estalos, roncos, guinchos, palmas e tudo o que se possa produzir por conta própria, sem a ajuda de instrumentos. Uma vez desfeita a curiosidade, há um risco enorme de que a música que fazem soe chata, repetitiva.

Qual nada. Vencida a etapa do espanto, o que o Barbatuques consegue é despertar cada vez mais curiosidade e encanto, a cada canção que executam, a cada arranjo que inventam, a cada disco que gravam. Acabam de chegar ao terceiro álbum, o lindo Tum Pá, além de um DVD ao vivo e uma profícua carreira de viagens mundo afora, sempre com grande receptividade.

Tum Pá é primeiro disco do grupo totalmente dedicado às crianças, o que abre de vez as portas da imaginação já tão profícua dos seus músicos e arranjadores. A cada tema levantado nas canções são propostos jogos de imaginação, de imitação dos sons da natureza, dos bichos, onomatopeias, enfim, uma série de invenções sonoras que são agrupadas orquestralmente, formando texturas sonoras surpreendentes.

Como o disco foi realizado a partir de um espetáculo, toda a sua intenção soa ao vivo. Os cantores/batuqueiros, em vários momentos, interagem com um público imaginário de crianças, dão instruções, ensinam as canções e descrevem imitações de instrumentos como se estivessem num espetáculo.

O resultado final, com gosto de farra, é uma bem engendrada série de canções, tanto originais compostas pelos próprios compositores do grupo quanto alguns dos nossos temas folclóricos, todos com arranjos notáveis, diferentes e, especialmente, surpreendentes. Invenções sonoras de arrebatar plateias, tanto infantis quanto de marmanjos, como o lindo pot-pourri com “Repetisom-Marcha da Borboleta-Marcha do Soldado” ou a linda construção rítmica para “Samba Lelê”.

Sobre um universo puramente brasileiro, no melhor sentido que isso possa ter, ou seja, sem xenofobias e outros medos, o Barbatuques entrega, com Tum Pá, um grande presente às nossas crianças, que é um brinde à criatividade e ao bom gosto. Com a proeza de ter uma intenção didática sem chatices, o grupo ensina o quanto é possível a cada um de nós. Que grande brinquedo é esse feixe de ossos, músculos, pele e pensamento que é o nosso corpo e, sobretudo, em que medida nos tornamos invencíveis quando somados.

Não à toa, na linda capa de Tum Pá, um versinho traduz toda a história: “Você sabe o que o Barbatuques é? É uma banda que toca da cabeça ao pé!”



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