“Tudo isso existe, tudo isso é triste, tudo isso é fado”

Em Lisboa, Fórum acompanha a rotina da cidade nos dias que antecederam e sucederam o mais duro pacote fiscal da história do país

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Em Lisboa, Fórum acompanha a rotina da cidade nos dias que antecederam e sucederam o mais duro pacote fiscal da história do país

Por Pedro Venceslau, de Lisboa

Enquanto a seleção de Portugal sofria no estádio do Dragão, no Porto, para arrancar um empate contra a sofrível equipe da Irlanda da Norte, na eliminatória da Copa do Mundo de 2014, os garçons da Servejaria (assim mesmo, com s) esperavam algum cliente dar o ar da graça para entrar em ação. Apesar do jogo, o tradicional boteco localizado nas redondezas da Praça dos Restauradores, em Lisboa, estava às moscas. Pelas conversas entre os funcionários e o relativo desinteresse pela partida, percebia-se logo que boa parte deles era do Brasil. Depois do apito final, o garçom Ventuir Silveira lamentou o resultado. “Agora está mais difícil esse time ir ao Brasil. É uma pena. Eu gostaria de vê-los jogando lá.” Com 35 anos de idade, o gaúcho Ventuir vive há uma década em Lisboa, mas faz planos de regressar no começo de 2013. “Antes da crise, a Servejaria ‘bombava’ em dia de jogo. Agora, ninguém mais come fora.”

Além do jogo oficial, o assunto naquele dia 16 de outubro era o dramático anúncio do orçamento português para 2013. No rádio, na TV e na internet borbulham exemplos e histórias de como as medidas draconianas do governo, tomadas para que o país permaneça na zona do euro, afetarão diretamente a vida já espartana dos portugueses. A partir do ano que vem, a carga fiscal atingirá nada menos que 36% do PIB e será a mais elevada dos últimos 35 anos. Mais de 40% dos pensionistas da administração pública serão afetados e terão seus vencimentos reduzidos entre 3,5% e 10%, no caso de valores superiores a 1.350 euros. As tarifas dos serviços públicos também serão agressivamente reajustadas e os impostos sofrerão aumentos generalizados.

No salão da “Servejaria”, os funcionários não entendem ainda exatamente o alcance das medidas em suas vidas, mas reconhecem que está muito difícil continuar morando em Portugal. “Eu já parei de enviar dinheiro para o Brasil, deixei de comer fora e senti que meu salário compra cada vez menos coisas no supermercado. E pensar que consegui comprar uma casa no Brasil com meu salário”, desabafa o garçom. Ele revela que o aluguel de seu modesto apartamento na periferia de Lisboa subiu 100 euros no mês passado. “Ganho 700 euros aqui, mas pago 550 de aluguel. Com água, luz, gás e comida, não sobra mais nada. Minha passagem de volta, comprei parcelada no cartão. Vou de navio.”

Protestos e greve geral

Assim que o veículo dá a partida na saída do aeroporto internacional de Lisboa, o taxista Antonio Lourenço, de 41 anos, avisa que não conhece muito bem as vias da cidade e, por isso, precisaria usar um GPS. “Sou taxista há apenas dez meses.” Antes disso, ele era dono de uma lucrativa imobiliária. “Ninguém mais queria comprar casas porque o banco parou de emprestar dinheiro. Eu tinha uma vida confortável, mas hoje trabalho 15 horas por dia e sete dias por semana apenas para pagar as contas e encher a geladeira.” Enquanto a conversa flui, o rádio informa sobre mais uma greve, dessa vez no metrô de Almada.

Lourenço conta que tem sido assim nos últimos tempos: greves pontuais são anunciadas diariamente enquanto o país espera a greve geral de 1° de novembro, organizada pelos sindicatos com apoio dos partidos de esquerda. “Essas medidas do governo são inevitáveis para que Portugal permaneça na União Europeia. Os nossos sindicatos não evoluíram. Eles ainda estão na época da Revolução Industrial.” A opinião do ex-empresário que virou taxista reflete o sentimento da média da população: resignação. Apesar das manifestações diárias em todos os cantos de Portugal, os conservadores encontram respaldo político e eleitoral para tomar medidas amargas. “A culpa é dos bancos. Eles avaliavam que uma casa valia 100 mil euros, mas davam 120 mil ao proprietário, dizendo que ela seria valorizada. Hoje, a mesma casa é vendida por 60 ou até 50 mil euros.”

Apesar da letargia, o desespero começou a bater à porta dos lusos. O radar político da coalizão que está no poder sentiu o golpe, e rumores de um racha começam a pipocar, com ministros e parlamentares do PSD e da CDS batendo boca pelo Facebook. O estopim foi a decisão de remunerar apenas 25% dos dias trabalhados em feriados nacionais. Um cerco ao Parlamento português terminou com 11 feridos, sendo dez deles policiais. Nas ruas, o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista Português vencem a batalha visual com seus outdoors e cartazes fixados por toda parte: “As pessoas não são números”, “Pôr fim ao desastre”.

“A estratégia de uma austeridade ‘custe o que custar’ levou ao asfixiamento da economia e ao aumento do desemprego. Com este orçamento de 2013, confirma-se a bomba atômica fiscal. É um aumento inaudito de uma série de impostos, elevando a carga fiscal para além de tudo o que era imaginável”, avalia o ex-eurodeputado Antonio José Seguro, secretário-geral do Partido Socialista e ex-europarlamentar. O PS apoia a greve geral marcada para novembro, mas não está na cabeça do movimento. “O partido olha para essa greve geral e seus resultados com respeito e com atenção. Todas as manifestações da sociedade portuguesa, sobretudo no atual contexto social, devem ser escutadas com a máxima atenção por um partido com as responsabilidades históricas do PS. As pessoas vivem com muitas dificuldades.”

Com as mudanças, o governo pretende arrecadar 4,3 bilhões de euros em impostos, incluindo 2,8 bilhões de euros por meio de um corte no número de faixas para tributação sobre a renda. No próximo ano, as alíquotas do imposto de renda passarão a ser de 14,5% a 48%, além de uma sobretaxa extraordinária de 4%. Após o anúncio do pacote, um cerco ao Parlamento foi convocado por um grupo chamado “Movimento dos Sem Emprego”. Depois de um começo morno, o clima foi ficando tenso. Não se via no meio da multidão bandeiras de partidos ou sindicatos, indicando que aquela era uma legítima manifestação espontânea convocada pelas redes sociais. Quando a multidão avançou para as barreiras de ferro que protegiam a Assembleia da República, a polícia entrou em ação. Duas mulheres com os seios descobertos tentaram furar o bloqueio e deixaram os policiais desconcertados. No dia seguinte, elas estavam nas capas de todos os jornais sensacionalistas como as “musas da crise”.

Na planilha do orçamento português de 2013, fica evidente a preocupação do governo com a chamada “ordem pública nos tempos de crise”. Enquanto as pastas da Saúde (- 17%), Educação (-3,8%) e Economia (-2,9%) sofreram reduções em seus orçamentos, a Defesa (+14,1%), a Justiça (+2,5%) e a Administração Interna (+12%) receberão mais recursos no ano que vem. Escolhido como alvo preferencial das críticas, o ministro das Finanças, Vitor Gaspar, repete em entrevistas o mantra de que não há alternativa. É curioso ver que até o presidente Cavaco Silva parece discordar dele, mas nada abala seu emprego.

O “pacote de maldades” tem um alcance tão grande que até mesmo os economistas mais ortodoxos ficaram perplexos. O valor das horas extras caiu pela metade no caso dos funcionários que trabalham até sete horas. A idade mínima para aposentadoria foi expandida em dois anos: de 63 para 65 anos a partir de janeiro de 2013.

Cerca de meia hora depois do fim da partida de Portugal contra a Irlanda do Norte, os funcionários já começam a arrumar as cadeiras para fechar a Servejaria. Os brasileiros conversam sobre em qual casa poderiam se encontrar para um happy hour. Sobram, porém, poucas opções. A Lisboa que um dia foi o paraíso na Europa para os brasileiros que sonhavam com uma vida melhor ganhando em euros hoje assiste ao efeito inverso. No táxi a caminho do hotel, um fado clássico toca no rádio, com uma letra que resume a ópera: “Tudo isso existe, tudo isso é triste, tudo isso é fado.”



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