Um peso, duas medidas

Buzo me falou, de favela da Leste recitou, tem gente que é tão rica que só tem dinheiro

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Buzo me falou, de favela da Leste recitou, tem gente que é tão rica que só tem dinheiro

Por Ferréz

Thor desce do céu, abandona Asgard, desfaz de seu pai, chefe do petróleo Odin, popularmente chamado de Eike. Atropela, mata, extermina pai de família humilde.

Tem como defensor o ex-ministro Thomas Bastos, advogado que não está a serviço de Hades, afinal, para lá que vão as almas, para quem as têm.

Buzo me falou, de favela da Leste recitou, tem gente que é tão rica que só tem dinheiro.

Dia da eleição, preto, pobre, alucinado, revoltado e perto da pista, onde passa o que o brasileiro mais ama, o carro.

Anderson Silva de Almeida, 34 anos, estava em cima do túnel Zuzu Angel, jogou pedra num Mitsubishi. Como ousa atacar os deuses? Foi escoltado pela cavalaria real ao décimo quinto castelo de policiamento do rei e autuado em flagrante por tentativa de homicídio.

Para ele, que desafia a hierarquia das coisas, restam as masmorras, sem ex-ministro, sem pai do Olimpo, sem boi, meu nego, achou o quê? Que é só o cheiro de esgoto, a perda dos móveis em enxurrada, as telhas voando, o barraco de madeira em fogo, a TV te mostrando o que pode levar você pra cova, made in Nordeste, luz improvisada, rato na cozinha, a cachaça do seu pai, a escola precária com sopa rala, pra não deixar a nutrição fazer o papel natural de te exterminar? Não, ainda no final não terás direito a andar nem usufruir da cidade maravilhosa, pois atacou a carruagem sagrada do País classe média que nem o mago Merlim poderia fazer ser real.

Movimentar dez milhões de uma campanha, suave, pode liberar. Roubar uma margarina? Pau no gato, manda pra cadeia pra ser tratado que nem os antepassados escravos.

A elite se protege de uma forma tão nojenta que o jornal só tem espaço para falar da mesma morte do PM, enquanto na periferia o sangue jorra, escorre, desce a ladeira.

Metralhadoras apontadas para fliperamas, disparando a esmo, afinal é tudo uma gente marrom mesmo, nem vai saber correr atrás dos direitos.

E a história se repete mais uma vez, o crime age, a polícia age, e o povo paga o preço final.

Vou colocar aqui a rota do crime, pode verificar, investigar, que vão descobrir que é verdade. Ela passa pela Vila Olímpia, desce pela Berrini, tem suas centrais na Avenida Paulista.

O governador Alckmin é tão ausente em sua função que não é difícil ver o pessoal no trem ou metrô gritar: esse Serra tá tirando.

Ninguém sabe o que faz o governador, quando a coisa aperta muito ele aparece e diz que ‘não vamos recuar’. Recuar mais o quê? Brincadeira, ficar meses numa guerra sempre negando, enquanto todo mundo sabe, o bambu tá gemendo pro lado do povo.

Todo mundo se preparando pro melhor ou pior, não somos nós que fazemos apologia, desfilando de jet, de joia que compra mais que o sonho de uma vida, uma TV eterna com os mesmos rostos hereditários, uma rádio com vozes iguais, shows com muita iluminação e pouca letra, artistas que, se colocassem saia e fossem pra uma esquina, seriam mais dignos.

O que vocês querem mais? Já têm as melhores ruas, protegidas por suas guaritas, seus pobres cativos ganhando a ração e protegendo quem oprime.

A mesma nação desilusão que dá dinheiro público para construir estádio, que patrocina residencial shopping, também fez 800 famílias saírem da favela Aldeinha, minha vizinha, onde, hoje, passando por lá, levei minha filha, mostrei pra ela o País em que ela vive. Ainda vejo o que foram um dia móveis, hoje são entulhos, o mato cresce, o lixo aumenta. Na capital da solidão onde todo mundo corre atrás do dinheiro pensando que é sinônimo de felicidade, lixo tem lugar garantido, onde devia haver moradias.

Um peso, duas medidas, uma polícia agressiva, ofensiva, mal treinada, no outro lado da ponte, o esforço para falar certo, para agradar o usuário de cocaína que mora no duplex.

O usuário aqui merece paulada, pedrada, choque, ficha criminal.

Um peso, duas medidas, uma cidade dividida, que se completa com condomínios prisões, com carros caixões, com financeiro-opiniões.



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