Luz Obscura

Correspondentes do Overmundo estiveram em um dos locais mais controversos de São Paulo (SP) para ouvir direto dos usuários de crack o que eles acham sobre internação compulsória, direitos humanos e quais são seus sonhos

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Correspondentes do Overmundo estiveram em um dos locais mais controversos de São Paulo (SP) para ouvir direto dos usuários de crack o que eles acham sobre internação compulsória, direitos humanos e quais são seus sonhos

No Overmundo

Samuel tem o sonho de ter um salão de beleza.

-Você fuma cigarro, não fuma?
-Fumo
-Você sabe como é a abstinência de cigarro, não sabe?
-Sei
-Já pegou bituca no chão pra fumar, não pegou?
-Sim
-Isso com cigarro. Agora imagina uma sensação 100 vezes pior. Isso é o crack.

O diálogo se deu quando já passava das 9h de domingo, cerca de 4 horas depois que chegamos a um dos locais mais controversos de São Paulo: a Cracolândia, no bairro da Luz. Um lugar no centro antigo da cidade, cheio de prédios vazios, cortiços, ocupações, catadores, moradores de rua e, claro, usuários de crack. Há cerca de um ano atrás, o então prefeito Gilberto Kassab intensificou o patrulhamento na região da rua Helvétia, antigo foco de venda e utilização de crack nas madrugadas paulistanas.

Foi a alguns quarteirões dali que encontramos Thiago. De Salvador, ele já serviu o exército, trabalhou em uma ONG e hoje vive na rua. “Já tem um ou dois anos, não me lembro direito”. Com hematomas nos dois joelhos, no peito, nas mãos, no rosto e com pontos na parte de trás da cabeça, ele conta como a Polícia o espancou depois que ele negou entregar R$ 20,00 que possuía só porque foi encontrado com algumas pedras da droga. “Minha ficha tá limpa, nunca fui acusado de nada”. Ele se diz arrogante.

O crackeiro, nóia, mendigo – ou qualquer outro nome preconceituoso rapidamente associado ao usuário “padrão” de crack – foi o último que entrevistamos, um dia antes de o governo federal dar início ao programa “Crack, é possível vencer”, que destinará R$ 4 bilhões para combater a droga. O destino do dinheiro traz a tona uma série de debates marginais relacionados à questão. Na mesma semana, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, se mostrava a favor da internação compulsória de usuários.

“Não adianta!”, diz Jefferson, firme e seguro, quando perguntado sobre a internação forçada. “Eles te levam pra uma clínica, te prendem, te dão um monte de remédio que te deixa lesado e não cuidam de nada”. Usuário há cerca de 20 anos, ele teve oportunidade de estudo, foi adotado aos 3 anos, tem uma filha da qual, com os olho marejados, diz sentir muita falta, e conta como começou a usar a pedra: “eu lembro da primeira vez que botei essa fumaça na minha boca, eu ainda era um pivete. Foi um barato, eu tava em casa curtindo um rock. Tava tocando Smashing Pumpkins na MTV, cara, foi um barato”. Ele diz sentir muita falta de um psicólogo quando perguntado como o governo poderia ajudar as pessoas naquela situação. “Meus pais eram ricos, cara. daora. nunca me faltou nada, só carinho.”

Tudo isso se passava em frente à estação da Luz, onde poucos quarteirões à frente centenas de pessoas ocupavam as ruas com cachimbo nas mãos e sem nenhuma menção de dormir. Alguns estranhavam nossa presença, outros já procuravam se enturmar. Todos os dias, essas pessoas enfrentam o que alguns deles chamam de inferno. A falta de banheiro, o olhar de desprezo das pessoas, a saudade da família, as más condições de higiene, a falta de opções de recuperação saudável, o tratamento da polícia e da Guarda Municipal, estão entre os fatores apontados pelos usuários como agravantes de suas condições.

“Isso aqui é um jogo louco. Quem nunca experimentou e não sabe a reação dessa maldita droga, que não experimente. Se eu soubesse que era assim, nunca tinha colocado um cachimbo na boca”. Quem dá a declaração é Anderson, que não se mostra esperançoso com tudo que acontece ali. “O que me machuca mais é essa molecada, que não tem passado, não tem história, tá estragando tudo desde o começo. Eu trabalhei com artesanato, já fiz de tudo na vida, só não matei nem me prostituí”. Ele carregava um conjunto de 5 ferramentas na mão, e dizia que iria tentar trocar pra comprar mais pedra, e se emociona muito conforme a conversa avança. Lembra do término de seu casamento, fala sobre sua filha e como voltaria atrás se pudesse. “Eu sou carpinteiro. Me dá um lugar pra trabalhar, me dá uma perspectiva”.

Entre conversas em off e conversas gravadas, os moradores da região aos poucos se abrem e falam sobre os 800 usuários que sumiram após a operação da Polícia há mais de um ano, a ação dos agentes locais de saúde e seus anseios e sonhos pessoais, a maioria genuinamente altruísta. Ninguém fez menção de roubar a nossa câmera, e se mostravam muito mais lúcidos e embedecidos de realidade do que com aspecto de ansiedade, degeneração ou loucura que muitos costumam prever nos ocupantes da região.

O Lado B da situação do crack no país envolve olhar para o problema de forma livre, e iniciar uma revolução muito mais profunda do que a criação de um centro de recuperação. A especulação imobiliária, a militarização excessiva da Polícia, a abordagem da mídia e o próprio olhar torto da sociedade ainda contribuem e muito para que o debate não avance.

“Se eu pudesse voltar atrás eu teria evitado o crack. preferiria ser um zé povinho, um nerd ou algo do tipo. Mas, desejaria a sabedoria e a malícia que eu tenho hoje.”

Há quem diga que a droga foi feita para matar mendigos. Se sim, cumpre esplendidamente e simbolicamente a missão.



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1 comment

  1. Mario Marcelo Ramos Marcelo Responder

    O grande problema, e que a sociedade e muitas pessoas historicamente sempre tiveram um olhar preconceituoso para qualquer tema polemico e assim com o crak, com o aborto, com a redução da maioridade penal entre muitos outros. Na minha humilde opinião devemos entender que a briga com o crack especificamente e uma briga de todos governos, sociedade, movimentos, sociais, Universidades sem olhar a quem estamos fazendo e quem tera o credito no futuro e sim pelo amor a vida.


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