A morte e a morte de uma travesti

Transfobia também se dá quando lemos uma notícia terrível em que o jornalista está o tempo todo tratando uma mulher trans* como um homem

634 1

Transfobia também se dá quando lemos uma notícia terrível em que o jornalista está o tempo todo tratando uma mulher trans* como um homem

Por Daniela Andrade, no Blogueiras Feministas

(Foto: Elza Fiuza/Abr)

No início do ano, na primeira quinzena de janeiro, tivemos a trágica notícia de mais um assassinato TRANSFÓBICO.

Segue a notícia tal e qual registrada no site Banda B: Jovens mataram travesti depois que um deles o beijou achando que era uma mulher, diz polícia, (acessado em 08/01/2013 às 21h00).

“O travesti Bruno Borges Generoso, de 20 anos, também conhecido como “Nicole Galisteu”, foi assassinado no último domingo (5) no bairro Santa Cândida porque os homens que estavam em um encontro com ele descobriram que Galisteu não era uma mulher. As informações foram passadas pela Delegacia de Homicídios de Curitiba (DH) nesta terça-feira (8). De acordo com a especializada, três suspeitos de envolvimento no crime foram presos e apesar de negarem os indícios confirmam a participação deles.

“Saíram em uma balada e dois dos amigos começaram a tirar sarro de um deles dizendo que estava beijando um homem. Quando viram que realmente era um travesti, pegaram a arma em casa e mataram o Bruno Galisteu por conta disto”, informou o delegado Rubens Recalcatti, da DH.

A Balada

Segundo o delegado da DH, Maicon dos Santos Straub, de 19 anos, Sidnei Augusto Bueno, de 30, e Daniel Moraes dos Santos, de 26, resolveram ir para a balada na noite de sábado. Um dos rapazes teve então a ideia de fazer um esquema com uma mulher que ele tinha contato, que na verdade sempre foi o travesti Nicole Galisteu.

“Eles foram buscar ele e outras meninas em Araucária e durante a balada um dos rapazes percebeu que a Galisteu era um travesti e começou a tirar sarro de um dos amigos que estava dando beijos nela. Indignados, dois foram para casa buscar a arma e o terceiro ficou na balada com o travesti, como que mantendo ele lá”, informou Recalcatti.

O delegado descreveu que os amigos deram carona para o travesti até o bairro Santa Cândida, onde o mataram. “Atiraram e passaram com o carro por cima dela, em um crime homofóbico. O Sidnei e o Maicon atiraram enquanto o Bruno teria ficado no carro”, concluiu.

Leia também:
Elas são mais corajosas
Direito à identidade: Viva seu nome

A prisão

Depois de cometerem o assassinato do travesti, já na manhã de domingo, os amigos foram presos em outra ocorrência policial. Eles foram reconhecidos como assaltantes de uma farmácia no bairro Colombo, situação que terminou com um suspeito morto depois de confronto com a Polícia Militar (PM), já no bairro Santa Cândida, na capital. Devido a esta situação, eles foram autuados em flagrante pelo delegado Geraldo Celezinski, de plantão no domingo no Centro de Atendimento Integrado Cidadão (Ciac-Sul).

“Naquela situação houve uma troca de tiro entre policiais militares e estes conseguiram informações privilegiadas de que os presos participaram da morte deste travesti. Testemunhas estão sendo mantidas em sigilo e temos a informação de que o Sidney e o Maicon mataram o travesti, enquanto o Bruno ficou no carro”, contou Celezinski.

Sidney e Maicon estão presos. Já Daniel é mantido sobre guarda da PM enquanto se recupera de um tiro que recebeu no confronto policial depois do assalto à farmácia. Para finalizar o inquérito, a DH irá realizar uma perícia nas armas dos suspeitos, para assim confirmar que eles de fato foram os responsáveis pelo crime, apesar de negarem”

Antes de mais nada, quero fazer a diferenciação entre transfobia e homofobia.

Homofobia é ódio/repulsa contra a existência e/ou comportamentos de alguém em função de suas homoafetividade e, portanto, um sentimento que arcaicamente se dá no plano da orientação sexual e essa, por sua vez, liga-se ao desejo afetivo/sexual que nutrimos uns pelos outros. Já a transfobia é o ódio/repulsa contra a existência de alguém em função de sua identidade e/ou papel de gênero.

Identidade de gênero diz respeito ao(s) gênero(s) com o(s) qual(is) nos identificamos para nós mesmos e para o mundo. O papel de gênero é como demonstramos e exercemos nosso gênero socialmente, de forma que a sociedade nos leia como homem ou mulher (dentro da nossa sociedade em que se prevalece o binário de gêneros — a ideia de só existirem os dois gêneros: masculino e feminino).

Feitas as apresentações, é importante lembrar a ligação entre a transfobia e o gênero exercido pela pessoa — o que NADA TEM A VER com orientação sexual.

Primeiro, pelo fato de que as pessoas trans* (vítimas da transfobia) podem ter orientações sexuais diversas, dado que podem se atrair pelos diferentes gêneros dentro da sociedade. Segundo, que as agressões e crimes transfóbicos expõem uma ferida macabra, que sangra cotidianamente: a ideia de que uma mulher SÓ e SOMENTE SÓ é alguém com vagina e que um homem SÓ e SOMENTE SÓ é alguém com pênis.

É importante derrubar aqui o determinismo biológico e o empoderamento que as pessoas fazem das ciências biológicas, como se apenas elas fossem capazes de estudar, traduzir e diferenciar tudo quanto é possível no que tange a sexualidade humana.

Como se já não fosse acordado entre os mais influentes estudiosos da atualidade que simplesmente não dá mais para entender sexualidade humana como um destino biológico, como se o ser humano não fosse um organismo que é o tempo todo modificado pelo meio em que vive e que modifica esse mesmo meio. Como se o cérebro humano, também conhecido como aparelho mental superior (diferenciando-o em relação aos dos demais animais) não fosse um universo em si mesmo, capaz de não só questionar o próprio corpo biológico de forma consciente e/ou inconsciente, como também manipular esse corpo de acordo com a sua própria formação, estrutura e organização que são únicas para cada indivíduo.

É importante desmistificar a ideia de que a natureza é uma fábrica de produção, produzindo robôs sem vontade e sem consciência, embalados e dirigidos por um pênis ou uma vagina.

Uma vez que as ciências sociais ganhem toda a visibilidade necessária dentro do debate da sexualidade humana e possamos trazer, para o discurso, todos os demais estudos que não concebem o ser humano como organismo “comandado” exclusivamente por cromossomos, hormônios e genital, poderemos caminhar um pouco mais à frente no que diz respeito ao entendimento da identidade das pessoas trans*. Agora, não mais vistas como seres patológicos, que fugiram a um destino que foi escrito no DNA dos ditos “normais”.

Inclusive, a própria ideia do que vem a ser a “normalidade” passa a ser refutada, quando entendemos que todos somos seres únicos e organismos diferentes uns dos outros, já que cada um experencia a própria vida de maneiras diversas. Então, passamos a autorizar-nos a dizer que todos nós somos anormais. Pois, o conceito de normalidade cai por terra, dada a excepcionalidade de cada vida humana, de cada visão de mundo única e de cada forma de se viver vidas ímpares, ainda que em ambientes muito similares. A normalidade só existe diante de uma visão superficial de cada um de nós. Haja vista que não somos seres genéricos e nem produtos de uma esteira de fábrica.

Mas, embasados pelo discurso da normalidade é que os transfóbicos irão agir: todos aqueles que não se identificarem como homem por possuírem um pênis ou como mulheres por possuírem uma vagina, deverão perecer.

E veja, a transfobia se dá em diferentes graus e níveis. Não só no caso de um crime hediondo que resulta em morte. A transfobia também se dá quando vemos e tratamos pessoas trans* por um gênero que não é o seu de fato — lembrando aqui que o papel (registro de nascimento) aceita tudo, inclusive equívocos. Mas, é difícil alguém sustentar pertencer a um gênero diferente do registrado diante de uma sociedade extremamente violenta e agressiva com as pessoas trans*.

É extraordinariamente difícil que alguém sustente um equívoco diante de uma horda enfurecida de pessoas que a todo tempo estão fazendo sarro, rindo entre os dentes, gritando palavrões, fazendo questão de frisar que aquela pessoa trans* é uma farsa, um erro, um engodo, um engano, já que “resolve” assumir aquilo que a sociedade cisheteronormativa não está a fim de aguentar, a de que mulheres podem ter pênis e homens vagina.

E, se não está a fim de aguentar é por que teria de repensar e se reposicionar dentro de todos seus velhos e engessados comportamentos, dentro de sua visão repetida à exaustão, como papagaio, do que é homem e mulher, aprendidos ainda na infância. E, aprendidos dentro de uma sociedade que exclui, mortifica, violenta e invisibiliza tudo que não for considerado “normal”. Mesmo que, inclusive os normais tenham que fazer todo esforço necessário para estarem dentro da normalidade o tempo todo, ainda que se anulando.

Transfobia também se dá quando lemos uma notícia terrível em que o jornalista está o tempo todo tratando uma mulher trans* como um homem. É importante notar que, ainda que o autor do texto diga que não foi por preconceito, que não foi por querer, ou por que está reproduzindo falas, tudo que ele consegue em relação às pessoas trans* é contribuir ainda mais um pouco para que o restante da sociedade continue acomodada na sua visão binária e cisdependente (homem deve ter pênis e mulher deve ter vagina). E, esse acomodamento mata mais uma vez a vítima, e as vítimas que virão — já que nisso está a força do argumento transfóbico do crime: “ela/ele era um engano”. Já que é na perpetuação e consumação de que o corpo da pessoa trans* é inadvertidamente o corpo errado e o corpo a ser evitado pelos “homens e mulheres de bem” que se alimenta a transfobia.

Daniela Andrade é uma mulher transexual que luta ansiosamente por um presente e um futuro mais digno às todas as pessoas que ousaram identificar-se tal e qual o são, independente daquilo que a sociedade sacramentou como certo e errado. Não acredito no certo e o errado, há muito mais cores entre o cinza e o branco do que pode supor toda a limitação hétero-cis-normatizante que a sociedade engendrou.

Escreve no site: Transexualidade. Em seu blog pessoal: Alegria Falhada. E administra a página do facebook: Transexualismo da Depressão.

* Texto originalmente publicado no blog Transexualidade 

Leia também:
Elas são mais corajosas
Direito à identidade: Viva seu nome



No artigo

1 comment

  1. Raquel Lira Responder

    Muito bom Daniela, parabéns pelo texto. Mudei o canal no último domingo porque não aguentei as caras e bocas da reporter entrevistando a Lea T


x