Edição de março da Fórum traz entrevista com Mano Brown

Confira parte da entrevista com Mano Brown, destaque de capa da Fórum de março

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Confira abaixo parte da entrevista com Mano Brown, destaque de capa da Fórum de março

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Por Glauco Faria, Igor Carvalho e Renato Rovai

“Eu sou o Brown mais velho, macaco velho. Estou menos óbvio, menos personagem e mais natural. Comecei a tomar cuidado. Nunca fui oportunista, vivo de música, não sou um político que faz música”. Essa é uma das formas pelas quais o líder e vocalista do Racionais MC’s se define hoje, 25 anos depois de o grupo de rap conseguir levar sua mensagem não apenas às periferias de todo o Brasil, mas também a muitos lugares e pessoas que não tinham intimidade com o ritmo.

A mensagem de Brown sempre foi forte e contundente, mas hoje o músico prepara o lançamento de um álbum solo, no qual o soul e o romantismo predominam. Isso não significa, nem de longe, que o seu pensamento tenha se modificado, até porque muito do contexto que propiciou o nascimento do Racionais ainda está presente na realidade brasileira. “Eu não estava falando de chacina, de nada disso, estava preparando um disco de música romântica, aí começou a morrer gente aqui e tive que fazer alguma coisa.”

O músico se refere à chacina que matou sete pessoas na região do Campo Limpo, zona sul paulistana, em 5 de janeiro. Entre as vítimas, o músico DJ Lah, em um primeiro momento tido como autor de um vídeo que denunciava a execução de um comerciante no mesmo local, feita por policiais. A informação foi desmentida depois, mas o espectro de que se tratava de uma vingança paira sobre a população do lugar. E Brown fala sobre as possíveis consequências para quem viu e sentiu a tragédia de perto. “Essa ferida não vai cicatrizar, quem mora naquele lugar onde morreu o Lah não vai esquecer, os moleques vão crescer, mano. Quem viveu aquilo não vai esquecer.”

Na entrevista a seguir, Mano Brown fala sobre a falta de oportunidades na periferia, do racismo, de um sistema que oprime, mas também ressalta o que ele considera ser o nascimento de um novo Brasil, destacando o papel da nova geração. Assim, ele mesmo tenta se “reinventar” para seguir na luta que sempre foi dele e de muitas outras pessoas. “Para dar continuidade ao trabalho, temos que caminhar pra frente, a juventude precisa de rapidez na informação, não dá pra ficar debatendo a mesma ideia sempre. É fácil para o Brown ficar nessas ideias, fácil, é até covarde ficar jogando mais lenha, então fui buscar as outras ideias, que passam pela raça também, com certeza.”

Fórum – Você esteve em uma reunião do pessoal do rap com o então candidato a prefeito de São Paulo Fernando Haddad, e ali disse que não iria falar sobre cultura, mas sim denunciar que os jovens estavam morrendo na periferia. Recentemente, houve o assassinato do DJ Lah e mortes violentas de músicos da periferia têm sido muito comuns em São Paulo, na Baixada Santista, por exemplo. Como definir essa situação?

Mano Brown – Esses moleques cantam o que eles vivem. Geralmente, quando você chega nas quebradas, tem poucos lugares que são espaços de lazer, e o lugar onde teve a chacina era um ponto de lazer, querendo ou não. Um ponto meio marginal, mas tudo que é nosso é marginal. Era um bar, tinha a sinuca, tinham os amigos, o bate-papo com a família, tem o fluxo, é o centro da quebrada. O barzinho vende de tudo, vende pinga, vende leite, vende tudo, e o Lah gostava de ficar por ali, vários caras gostavam, era o quintal das pessoas.

O que aconteceu ali foi execução, crime de guerra. Tem a guerra e tem os crimes de guerra. As pessoas não estavam esperando por aquilo ali, não estavam preparadas pr’aquilo. É o que tem acontecido nesse final do ano passado, começo de ano, as mortes todas têm o mesmo perfil: moleque pobre em proximidade de favela. Os caras encontram várias fragilidades ali, várias formas de chegar, matar e sair rápido, e o governo simplesmente ignora o que aconteceu. Tem as facilidades. O cara vai lá e mata sabendo que não vai ser cobrado.

Fórum – Mas você acha que por conta dessas ocorrências tem uma coisa dirigida contra o rap?

Brown – Acho que não, se dissesse isso seria até leviano porque muitas pessoas que morreram não tinham nada a ver com o rap. Gente comum, motoboy, entregador de pizza, moleque que saiu da Febem e estava na rua, com uma passagenzinha primária e morreu… E o rap tá na vida da molecada mesmo, tá nos becos, nas esquinas, no bar, na viela, geralmente o moleque que curte rap tá nesses lugares. É uma coisa dirigida, mas é dirigida à raça. Dirigida a uma classe.

Se você for fazer a conta de quantas pessoas morreram no final do ano, mortes sem explicação, crimes a serem investigados, e somar o tanto de gente que morreu em Santa Maria… Morreu muito mais aqui. Lá foi comoção total pela forma que foi, lógico, todo mundo é ser humano, mas veja a repercussão de um caso e a repercussão de outro caso, quanto tempo demorou pra mídia acordar pra chacina? Quanto tempo demorou pras pessoas perceberem a cor dos mortos? Coisa meio que normal, oito pretos mortos, quatro aqui, três ali… É uma coisa meio cultural, preto, pobre, preso morto já é uma coisa normal. Ninguém faz contas.

Fórum – E quem está matando nas periferias?

Brown – A polícia. O braço armado, conexões armadas, de direita.

Fórum – Você tem um histórico de estranhamentos com a polícia…

Brown – Houve a época em que soava o gongo, a gente saía dando porrada pra todo lado, não olhava nem em quem. Outra época, a gente procurava a polícia pra sair batendo. Hoje em dia, espera pra ver quem vai vir. Não é só a polícia, são vários poderes. A gente não foca na polícia, a polícia é um tentáculo do sistema, o mais mal pago. Mas é armado e chega com autoridade, é um tentáculo perigoso. E tem várias formas de matar, de matar o preto.

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17 comments

  1. Henrique Mascarenhas Responder

    Muito boa entrevista! Colocações reais, que ha muito assola pessoas, sociedade, pq querendo ou nao, a sociedade é o que vive “dentro” e oq querem que viva fora… Mas esta ali, acola, aqui…. Diante dos olhos de quem quer ver… O problema é q os olhos de muitos veem so o que a superficie mostra, e julga as pessoas pelo o que elas aparentam e nao pelo o que são! Um governo ganancioso, escandalos atrás de escandalos e a certeza de impunidade! Pena outros artista não terem as ideias e coragem do Mano Brown, de expor o que pensa, mais ainda, o que ve em seu caso! A maioria quer posar para foto e bla,bla,bla…. Nao querem ser incomodados com suas vidinhas, viagens e o kralho a 4. “Olha, tem pobre nas ruas mamae” – Nao olhe filho, nao olhe” .. Esse é o discurso e ideia dos “felizes” da sociedade. Que calam, julgam, e aprovam governos que destroem o pais, desde que tudo esteja bem para si! É olho por olho e o mundo acabará cego. Mas penso..Talvez seja pior… E eu? Será que faço parte disso? E voce parceiro? Ou começamos a nos importar com o pais, com o proximo, com a fome, com as necessidades basicas de um povo que precisa de edução… Ou entao seremos sempre, o lema de musicas como: “Que país é esse” É P… Do Brasil (zil?) .

  2. Luciano Responder

    Sempre com palavras fortes com muita autoridade gênio da musica e das favela que tem ele como exemplos sem esquecer dos outros caponetes da banda

  3. Brunno Álan Responder

    100 palavras Brow vóz forte da perifa!!

  4. Anderson Responder

    Parabéns a revista forum por trazer essa entrevista com o gênio da musica brasileira MANO BROWN!, MELHOR EDIÇÃO DE TODAS!

  5. Zé Roberto Responder

    Melhor banda de Rap de todos os tempos no Brasil e a mais politizada, poesia crua da favela, soco na boca do estômago. É isso aí Mano Brown!

  6. edlei_p Responder

    como sempre o mano brown representando a favela, moro em osasco e aqui tmbm morreu trabalhador nessa gerra

  7. Fabricio Batista Responder

    Ele é simplesmente um “assessor de imprensa” da periferia. A favela não é mais minoria, a favela tem poder de compra e até shopping será feito no RJ.
    A violência bate na porta do rico e do pobre, do branco, do amarelo, do negro de diferentes formas. Não tem centro comunitário no centro da cidade, não tem lazer em bairro rico se não dentro de condomínios.
    O que ele reclama é o que qualquer cidadão brasileiro poderia reclamar.
    Os culpados são os eleitores, o governo que pensa enquanto partido e não em ajudar… é um círculo vicioso que será difícil mudarmos para o círculo virtuoso.
    “Você pode sair do gueto, mas o gueto nunca sai de você”.

    1. Francisco Penha Responder

      Vc ta tentando dizer que o povo da periferia tem o mesmo tratamento e condições da classe média do centro? é isso??? vc mora onde NA LUA?

  8. Rê Cruz Responder

    Linha de frente nessa guerrilha! #MANOBROWN

  9. Filipi Augusto Batinga Responder

    Tem que ter coragem para encarar essas idéias de frente!

  10. Flávio Moreira Responder

    Mano Brown é uma grande inspiração de homem do povo, homem que erra e acerta como qualquer outro, mas, acima de tudo, homem que quer o bem do seu povo e não se deixa amedrontar por um sistema feito de polícia arbitraria e políticos corruptos. Parabéns, Mano!

  11. Vinny Calmon Responder

    brown é brown né…

  12. Roberto Locatelli Responder

    Nota mil para os entrevistadores e para o entrevistado. As verdades que precisam ser ditas e não serão ditas na Globo.

  13. Paulo Ayres Responder

    Como ele mesmo já disse, “você sai da favela, mas a favela não sai de você” Ele é uma das grandes vozes daqueles que não são ouvidos. E muitas vezes ele está falando apenas o óbvio!! como nossa sociedade pode se conformar com milhares de mortes à bala nos centros urbanos do país todos os anos?! Estatistas já se esgotaram de mostrar que a PM brasileira é a força armada que mais mata no mundo, comparando inclusive com países em guerra civil!! Como o paulista pode eleger um fascista dum Geraldo Alkmin, que só tem cara de bonzinho??! Como pessoas que se dizem cristãs podem dizer “…tem que matar mesmo!” diante do fato de uma mãe perder, de uma vez só, os três filhos, executados pela polícia? Como nossa classe média alta abastada pode pensar que uma mãe da favela ama menos seus filhos? Já vi muitas dondocas se queixando de estarem estressadas com um filho de 5 anos, tendo babá, empregada, o marido, a mãe, a sogra pra auxiliar – e não trabalha!! Ou seja, o buraco é mais embaixo, mano!

  14. Diego Responder

    Eu com 25 anos hj,vejo no Brown,no Eduardo Facção,e em poucos figuras da musica uma determinação e muita atitude,tenho obstinçãopor várias mudanças em meio a essa sociedade que vemos ai,hj eles estão vivos e cobram com seriedade uma mudança…mudança essa que necessita de aliados de pessoas que zelam pelo respeito,pela dignidade,não pelas esmolas ou favores…nós temos que nos organizar,nós temos que unir nossas forças,se informar questionar participar de forma honesta e coerente,que Deus o abençoe e os proteja sempre…

    fé em Deus,fé!!!


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