A política do futuro já chegou

Manuel Castells fala sobre democracia direta e a crise institucional da Espanha.

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Uma iniciativa popular na Espanha propõe exercer a democracia direta. A ideia se disseminou na internet e evidenciou a crise institucional do país, e também, a necessidade de outro sistema de representação.

Por Manuel Castells*

No dia 8 de janeiro foi anunciada, na internet, a criação do “partido do futuro”, um método experimental para construir uma democracia sem intermediários, que substituiria as atuais instituições deslegitimadas na mente dos cidadãos. A repercussão social e midiática tem sido considerável. Apenas no primeiro dia de lançamento, apesar do colapso do servidor ao receber 600 petições por segundo, foram 13 mil seguidores no twitter, 7 mil no Facebook e 100 mil visitas no Youtube. Mídias estrangeiras e espanholas têm repercutido o futuro que anuncia o triunfo eleitoral de seu programa: democracia e ponto. (http://partidodelfuturo.net).

Movimento 15-M em Madri: nova política (Foto: Wikimedia Commons)

Sinal de que já não se pode ignorar o que surge do 15-M (nascimento do movimento dos indignados). Porque este partido emerge do caldo  criado pelo movimento, embora de forma alguma se equipare ao mesmo. Porque não há “o movimento” com estrutura organizada, nem representantes, e sim pessoas em movimento que compartilham de uma denúncia básica das formas de representação política que tem deixado pessoas indefesas diante dos efeitos de uma crise que não foram culpadas, porém sofrem os resultados a cada dia. O 15-M é uma prática coletiva e individual diversificada e de mudanças, que vive na rede e nas ruas, e cujos componentes tomam iniciativas de todo o tipo, desde a defesa contra o escândalo das hipotecas até a proposta de lei eleitoral que democratize a política.

Porém, até agora, muitas destas iniciativas parecem condenadas a um beco sem saída. Por um lado, as pesquisas mostram que uma grande maioria dos cidadãos (cerca de 70%) concorda com a crítica do 15-M e com muitas de suas propostas. Por outro lado, toda esta mobilização não se traduz em medidas concretas que aliviem as pessoas, pois há um bloqueio institucional para a adoção destas propostas. Os dois grandes partidos espanhóis são corresponsáveis pela submissão da política aos poderes financeiros no tratamento da crise, compartilhando, por exemplo, a gestão irresponsável dos diretores do Banco da Espanha, com um governador socialista, no caso de Bankia e do sistema de caixas, que tem conduzido a ruína milhares de famílias. Por isso, o 15-M se expressou no espaço público, em acampamentos, manifestações, assembleias de bairro e em ações pontuais de denúncia. Mas, embora esta intervenção seja essencial para criar consciência, se esgota em si mesma quando se confronta com uma repressão policial cada vez mais violenta.

Felizmente, o 15-M tem freado qualquer impulso de protesto violento, e tem feito um papel de canalizador pacífico da ira popular. O dilema é como superar as barreiras atuais sem deixar de ser um movimento espontâneo, auto-organizado, com múltiplas iniciativas que não são um programa. E por isso, podem unir potencialmente os 99% que sabem o que não querem, e que concordam em buscar um conjunto de novas vias políticas de gestão pela vida.

Para avançar nesse sentido, tem surgido uma iniciativa espontânea de ocupar o único espaço em que o movimento é pouco presente: as instituições. Mas não imediatamente, porque seu projeto não é ser uma minoria parlamentar, e sim de modificar a forma de fazer política, mediante uma democracia direta, instrumentada na internet, propondo referendos sobre temas-chaves, elaborando propostas legislativas mediante consultas e debates no espaço público, urbano e cibernético, implantando medidas concretas de debates entre os cidadãos e utilizando a plataforma com propostas que saiam do povo.

Na realidade, não é um partido, embora esteja inscrito no registro dos partidos, mas sim um experimento político, que vai se reinventando conforme avança. No horizonte vislumbra-se um momento em que o apoio do povo para votar contra todos os políticos de uma vez e em favor de uma plataforma eleitoral que tenha como único ponto no programa, permitir uma ocupação legal do parlamento e o desmantelamento do sistema tradicional de representação por dentro dele mesmo. Não é tão descabido. É muito o que aconteceu na Islândia, referência explicita do partido do futuro.

Mas, como evitar reproduzir o esquema de partido no processo de conquistar a maioria eleitoral? Aqui é onde surge a decisão, criticada pela classe política e alguns meios, das pessoas que têm tomado esta iniciativa de manter-se no anonimato. Porque se não há nomes, não há lideres, nem cargos, nem comitês federais, nem porta-vozes que dizem falar pelos demais, mas que acabam representando a si mesmos. Se não há rostos, o que sobra são ideias, práticas, iniciativas. De fato, é a prática da máscara como forma de criação de um sujeito coletivo composto de milhões de indivíduos mascarados, como fizeram os zapatistas, ou como fazem os Anonymous com a sua famosa máscara reconhecida em todo o mundo, mas com múltiplos portadores. Inclusive o anonimato do protesto se encontra em nossos clássicos: “Fuenteovejuna todos a una”.

Talvez chegue o momento em que as listas eleitorais queiram nomes, mas não necessariamente serão líderes, porque poderão ser sorteados os nomes entre milhares de pessoas que estejam de acordo com uma plataforma de ideias. No fundo se trata de pôr em primeiro plano a política das ideias com a que os políticos enchem a boca, enquanto fazem sua carreira entre cotoveladas. A personalização da política é maior sequela da liderança ao longo da história, baseada na demagogia, na ditadura do chefe e na política do escândalo para destruir pessoas representativas. O X do partido do futuro não é para esconder-se, mas sim para que seu conteúdo preencha as pessoas que projetem neste experimento seus sonhos pessoais em um sonho coletivo: democracia e ponto. A definir.

*Tradução: Carolina Rovai. Artigo publicado originalmente no La Vanguardia

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