OS YAWALAPÍTI – cultura, sustentabilidade e resiliência

Hoje recebi uma mensagem de um professor da aldeia dos Yawalapíti, ele procurava textos e reflexões que eu havia escrito sobre sobre aquele povo. Aprendi tanto com eles que a mensagem reacendeu-me histórias. E...

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Hoje recebi uma mensagem de um professor da aldeia dos Yawalapíti, ele procurava textos e reflexões que eu havia escrito sobre sobre aquele povo. Aprendi tanto com eles que a mensagem reacendeu-me histórias. E aqui reapresento um capítulo do meu livro (PONTO de CULTURA – o Brasil de baixo para cima – quem quiser acessar gratuitamente para download, pode faze-lo em meu site www.celioturino.com.br ). Como estamos em abril, mês que se fala dos índios  – infelizmente apenas neste mês e sem ir fundo -, quem sabe este meu texto possa ajudar em alguma escola perdida por aí. Ao cacique Aritana, a Wantsu e tod@s os bons amig@s que fiz por lá.

 

Os Yawalapíti

Cultura, sustentabilidade e resiliência no canto de uma mulher

 

 

No princípio as mulheres tocavam jacuí (flauta sagrada) e cantavam para toda a aldeia; aos homens, cabia ouvi-las com reverência. Certo dia, os homens rebelaram-se, não queriam mais as mulheres no centro da aldeia. Tomaram-lhes as flautas sagradas e criaram a Casa da Música, construída na uikúka (praça, centro). Desde então, as mulheres foram proibidas de tocar a jacuí ou mesmo entrar na Casa da Música, que se transformou em um ambiente restrito aos homens. A mulher que se atrevesse a tocar a flauta sagrada, ou adentrar a Casa da Música, teria que ser possuída por todos os homens da aldeia, como punição e ensinamento. Mas se os homens as impediram de tocar, não puderam impedi-las de cantar, pois não havia como roubar-lhes a voz da garganta. Com o tempo, perceberam que era possível fazer música juntos. E assim as mulheres cantam.

Esta história foi-me contada pelo putaki wikiti (dono da aldeia, chefe) Aritana, o líder dos yawalapíti. Filho de Kenato, o lendário cacique que ajudou os irmãos Villas-Boas na criação do Parque Nacional do Xingu, Aritana é um líder, não apenas de seu povo, mas dos muitos povos que habitam aquele imenso território de 2,6 milhões de hectares de diversidade biológica e cultural. No Parque vivem 5 mil índios de 14 diferentes etnias. Chamamo-los de índios generalizando diferentes povos, pois quando os europeus aportaram por aqui pensaram estar chegando às Índias do Oriente. Eram muitos os povos que habitavam a terra que viria a ser chamada de Brasil; no Xingu: kalapalo, wauja, meniako, kuikuro, kamaiurá…, várias etnias, troncos linguísticos, culturas. Para ser líder no meio de tanta diversidade, é preciso compreender o outro, ser tolerante, aprender a ouvir, falar muitas línguas; o idioma kamaiurá é do tronco tupi-guarani, enquanto o kuikuro pertence à família linguística Karib e o Yawalapíti, à família Aruak. Aritana é poliglota, fala oito idiomas e os exercita no conselho dos povos do Alto Xingu.

Os yawalapíti habitam a região desde tempos imemoriais e seu território fica entre os rios Tuatuari e Kuluene. O primeiro contato registrado entre eles e o homem branco foi em 1887, com a expedição chefiada pelo alemão Karl von den Steinen. Os líderes yawalapíti eram Mapukayaka e Moritona, descendentes diretos do primeiro putaki wikiti, Tatiwãlu. Naquele encontro, ficou registrada a extrema pobreza em que viviam. Pobreza sob o olhar do europeu, pois todos eram fortes e saudáveis. Após esse contato, aí sim, a miséria se abateu sobre os descendentes de Tatiwãlu.

Os yawalapíti são descendentes diretos de Kuamuti ou Mavutsinim, o criador de diversos povos do Alto Xingu, e que plantou os troncos do Kuarup fazendo gente renascer a cada ciclo de morte, brotando do tronco. Renascer a partir das dificuldades, até mesmo da morte, foi um dos sábios ensinamentos que Mavutsinim deixou como herança. Ensinamento que foi de grande valia quando a presença do homem branco se tornou mais frequente. Peste, vírus e bactérias tomaram conta do lugar e, com eles, gripe, sarampo, diarreia… Boi, pasto, soja, muita carne criada e comida plantada e, com elas, fome, sujeira, terra cercada… Pressão, assédio, sedução. Ataques de todo tipo, com armas letais ou com açúcar, bem doces, e com eles, mortes, cárie, desespero…

Em 1948, havia apenas 28 yawalapíti. Nos anos seguintes, novas epidemias. Eram um povo em extinção. A solução encontrada pelos irmãos Villas-Boas e por Kenato foi uni-los em uma única aldeia e realizar casamentos com outros povos do Xingu. Povos que antes brigavam entre si, agora teriam que se juntar para brotar de novo, como no Kuarup. Em 2005 eram 230 yawalapíti, mas muito poucos, apenas cinco, dominam plenamente o idioma e as histórias de seu povo.

Os povos do Xingu podem não conhecer as leis da física ocidental e o conceito de resiliência, mas conhecem os ensinamentos de Mavutsinim e a força do Kuarup. Mesmo quando submetidos a todo tipo de deformações e à adversidade, obrigados a recolher-se, encolher-se, dobrar-se e recuar, mesmo assim sua capacidade de recuperação faz com que retornem à forma original. São resilientes os yawalapíti. São resilientes porque fazem o Kuarup.

Para ser resiliente no mundo de hoje e brotar de novo é preciso transitar entre mundos, dominar códigos, ter conhecimento. Só assim os yawalapíti se sustentam. O grande desafio para que o povo yawalapíti brote com força é recuperar seu idioma. Apesar dos casamentos interétnicos terem sido fundamentais para o renascimento do povo yawalapíti, a linha de transmissão de cultura foi quebrada. Junto a isto, a pressão do mundo exterior ao Parque do Xingu, as tentações da televisão, do consumismo. Pouco antes da minha primeira visita à aldeia, metade dela pegou fogo. Aquelas imensas naves xinguanas, catedrais em palha e madeira construídas em círculo, uma a uma, pegando fogo; e leva seis meses para reconstruir cada casa. Não tem sido fácil a vida dos yawalapíti.

“Você sabe como era antes, quando você chegava numa aldeia. Todo mundo pintado, tudo muito bonito. Não era assim como hoje. Antigamente, de tardezinha, o centro da aldeia estava cheio de gente. Velhos, jovens, meninos, todos reunidos, conversando sobre o que tinha feito, o que ia fazer, contando alguma história, conversando sobre o dia… hoje não, só os velhos vão no centro. Parece que aquela alegria acabou.” (Ichimã Kamayurá).

Mesmo o processo de educação indígena, tão fundamental para que transitem entre mundos, gera dúvidas.

“Estamos confusos. Eu mesmo fui contra a educação do branco. Eu não quero que nosso povo fique sem saber nada, mas não pode perder a cultura…” (Aritana Yawalapíti).

O professor indígena, por ser jovem, é visto com desconfiança pelos mais velhos e a própria relação política interna na aldeia vai sendo subvertida. Mas são fortes as raízes dos yawalapíti, eles conhecem suas histórias e as mantêm vivas em suas danças e cantos cotidianos. Com isso cantam: Awapá (nosso canto).

“Então eu estive pensando muita coisa à noite, como é que se pode fazer isso agora. Porque só uma pessoa tem os cantos. Só ele tem? E o resto? Não pode… Ele tem de passar isso já, para os mais jovens. Essa música da jacuí é mais e mais importante, a gente não pode perder isso. Meu pai tinha tanta música, já levou. Não passou para ninguém. Por que não passou para ninguém? Porque ninguém se interessou… É muito importante agora a gente gravar essa música, o rapaz novo aprender, não ficar só ouvindo esse tum tum [se referia às batidas eletrônicas que já começam a ser escutadas no Parque Nacional do Xingu]. Pode ter tum tum, mas pouquinho. Isso que eu fiquei pensando à noite. Como é que se pode fazer tudo isso?” (Aritana Yawalapíti).

São espertos os yawalapíti. Entre eles há um que ganhou o apelido de MacGyver (personagem de um seriado americano de televisão que construía engenhocas apenas com um grampo, cola, arame ou fósforo) por parte dos visitantes, é o cientista da aldeia, opera aparelho de rádio, conserta motor de carro, inventa coisas. A cultura também se preserva na invenção e no contato com o que vem de fora. E se recria. Assim eles se propuseram formar um Ponto de Cultura.

O conceito de Ponto de Cultura é o que eles já praticam: trabalho compartilhado e o desenvolvimento de atividades culturais respeitando a autonomia e o protagonismo das comunidades. Como um Ponto de Cultura não se cria, nem se inventa, mas se potencializa a partir do que já existe, foi fácil a assimilação do conceito por parte deles. “Ponto de Cultura é como o tronco do Kuarup”, disse Aritana.

As atividades do Ponto de Cultura Yawalapíti, na terra indígena do Xingu, conforme proposta do Ipeax (Instituto de Pesquisa Etno Ambiental do Xingu), prevê uma escola de idioma, publicação de cartilha, dicionário e gramática em yawalapíti, registro das músicas tradicionais, de cenas indígenas, da moda xinguana e do grafismo corporal, artesanato, arquitetura tradicional e yawalapíti na web. O Ipeax é presidido por Aritana e seu conselho diretor é composto em sua maioria por índios do Xingu. Têm memória os índios do Brasil e eles sabem o que acontece quando transferem para outros o destino de seus povos. Mesmo que num primeiro momento o preenchimento de planilhas e documentações pareça difícil para um índio que mora no Xingu, melhor falarem por si mesmos, sem intermediação; a ajuda externa, quando honesta e desinteressada, é bem-vinda, mas sempre a última palavra é deles. O que eles precisam fazer, fazem por si mesmos e com isso conquistam autonomia.

O trabalho começou antes mesmo que o convênio do Ponto de Cultura fosse assinado com o governo. Os yawalapíti sabem que precisam de apoio externo, mas também sabem que, se quiserem desenvolver ações sustentáveis, é necessário contar primeiro com os recursos de que dispõem. De imediato, reconstruíram a Casa da Jacuí, a Casa da Música, também conhecida como Casa dos Homens, assim chamada desde quando os homens tiraram a flauta sagrada das mulheres. Com esta iniciativa, outros povos do Xingu também refazem a morada tradicional da jacuí, bem no centro de suas aldeias circulares.

No Kuarup de que participei (2007) não eram apenas os velhos que cantavam o repertório da festa. O jovem Ianukulá surgia, como resiliente que é, do tronco do Kuarup e encantou a todos com a música tradicional dos yawalapíti. Mas o repertório dos yawalapíti é grande e está se perdendo, e cantar uma música não depende apenas de decorar a letra, é preciso conhecer os contos, os ritos, emoções, tudo isto está contido numa cultura. Como são poucos os que dominam plenamente o idioma yawalapíti (a maioria dos moradores da aldeia até fala, mas misturado com idioma kuikuro, kamaiurá, que fazem parte de troncos linguísticos completamente diferentes), é necessário aprimorar o uso da língua, do contrário a raiz fica fraca.

Antes desta minha segunda viagem, já no processo de discussão do Ponto de Cultura, eles aplicaram mais um ensinamento que Mavutsinim deixou para o mundo dos homens. Desde muito tempo, o centro da aldeia cabe aos homens, assim como o direito exclusivo de tocar a jacuí. As mulheres só chegam mais próximo quando chamadas, pois todas conhecem o castigo a que estarão submetidas se infringirem as regras, e apenas se aproximam do centro para seguir os homens na dança, e cantam. Durante dez dias, uma equipe de gravação e pesquisa acompanhou o repertório de dança e música da aldeia. Foi um grande momento, jovens, adultos e crianças esforçavam-se para que sua língua fosse registrada plenamente por Jaqueline, uma doutoranda em linguística pela Unicamp. Mas, apesar do esforço, nem todos dominam a música.

De repente, um canto sai de dentro de uma das casas.

Para surpresa de todos, a voz saía da menor das casas, a mais pobre e esquecida, a menos conservada. O canto vinha bem do fundo escuro da casa de palha. Ali morava uma velha, Wantsu. Uma das cinco yawalapíti a ter pleno domínio do idioma. Para os mais jovens, algumas estrofes pareciam incompreensíveis. Era yawalapíti clássico. Sim, clássico, porque clássico é tudo aquilo que serve de modelo para o novo. Wantsu cantou músicas que nem os homens mais velhos se lembravam, tirou do fundo de sua alma, como que vindo do tempo em que as mulheres, além de cantar, tocavam a jacuí.

 

“Yamurikumalu

Ayawa, ayawa rinari

Iyawa riyari Yamurikumari nawikamina

Atsanhia putapa nupikani nukamani

Kamatawira”

 

Traduzindo:

 

“As mulheres guerreiras

Yamurikumã merecem ser respeitadas

Vocês não sabem como estou me sentindo

E que eu morrerei”

 

Como no Kuarup, os yawalapíti revivem. E revivem pelo canto de uma mulher. Como com os yawalapíti, a cultura brasileira, apesar da pressão, resiste. É resiliente, encontra pontos de apoio e alavancas. E, ao se mover, se recria.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



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2 comments

  1. George Responder

    Olá Célio
    Fico feliz por minha mensagem ter trazido essas memória ao presente!
    Saiba que, aqui na aldeia, estamos lutando para que, de uma certa forma, não exista mais o dia do índio – lutamos para que todos os dias sejam desses povos belos e acolhedores, e que não precisemos apenas de um dia para lembrar deles.

    Seus votos já foram repassados ao Cacique Aritana, que os recebeu com muita satisfação.

    Grande abraço

  2. Adilson Fernandes Responder

    O grande povo yawalapiti é dos poucos que ainda vivem em conformidade com a natureza, um exemplo a seguir por toda a humanidade, é pena existirem os pseudó-governos que só se interessam pela economia.


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