“A responsabilidade política era minha”, diz Fleury sobre Carandiru

Governador à época do Massacre, Luiz Antônio Fleury Filho justifica a ação como "necessária". "Hoje, eu daria ordem", afirmou, no segundo dia do julgamento

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Governador à época do Massacre, Luiz Antônio Fleury Filho justifica a ação como “necessária”. “Hoje, eu daria ordem”, afirmou, no segundo dia do julgamento

Por Igor Carvalho

No segundo dia do julgamento de 26 réus do Massacre do Carandiru, o ex-governador de São Paulo Luiz Antônio Fleury Filho deu seu depoimento como testemunha de defesa. Fleury tentou justificar a ação, dizendo que, diante do cenário, ela era “necessária”, embora tenha ressaltado que não deu pessoalmente a ordem para que o presídio fosse invadido. “A minha polícia nunca se omitiu”, disse, aludindo ao fato de que haveria um confronto entre os presos, “que estavam se matando”.

Ele conta que estava em Sorocaba no dia em que ocorreu o episódio. De acordo com o depoimento, às 15 horas, Cláudio Alvarenga, secretário de Governo, deixou um recado dizendo que precisava falar urgente a respeito do Carandiru. Fleury ligou da casa de Paulo Mendes, candidato a prefeito de Sorocaba, e o secretário comunicou que Pedro Franco de Campos, secretário de Segurança, estava no comando da operação.

(Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Ainda de acordo com o ex-governador, às 17h, quando chegou a São Paulo, Fleury telefonou para Campos e foi informado que o Carandiru havia sido invadido. “Perguntei se havia necessidade de invadir, e ele [Campos] disse que sim”, relatou. Ele ainda afirmou que só soube do número de mortos no episódio pela imprensa, ao chegar no local em que iria votar na eleição municipal.

O ex-governador contou ainda que “um tubo de uma televisão foi arremessado contra o Ubiratan [Guimarães] e isso comoveu a tropa”, justificando o descontrole da operação. Ele disse não se recordar de quem lhe passou essa informação.

Fleury também aproveitou o depoimento para negar que o PCC tenha sido criado em função do episódio do Massacre do Carandiru, transferindo a responsabilidade para o governador que o sucedeu, Mário Covas.  “O PCC, que dizem ter sido criado em razão desse episódio, no meu governo, era apenas um time de futebol para disputar o campeonato interno das penitenciárias”, disse. “O PCC surgiu no governo do meu sucessor, Mário Covas.” Para fundamentar sua tese, o ex-governador afirmou que, após o episódio do Carandiru, não houve mais nenhuma rebelião em sua gestão, destacando que nos primeiros dois meses do governo Covas teriam havido 22 rebeliões.

Ao ser indagado sobre sua responsabilidade no episódio, Fleury disse que “a responsabilidade política era minha, a responsabilidade criminal cabe a esse júri examinar.”

Juízes dizem que ordem de invadir veio de Ubiratan

Durante a manhã deste segundo dia de julgamento, as perguntas se concentraram no que teria acontecido nos instantes antes da invasão da Polícia Militar. Os desembargadores Ivo de Almeida e Fernando Torres eram juízes corregedores à época.

Assim como no primeiro dia de julgamento, compareceram 24 dos 26 réus. Os juízes foram chamados ao Carandiru para negociar com presos sobre a possível rebelião. A advogada dos acusados insistiu nos questionamentos sobre de onde teria partido a ordem para a invasão do Pavilhão 9. Para Almeida, “houve consenso”, porém, a ordem teria partido do coronel Ubiratan Guimarães. “Apurei que o secretário [de Segurança Pública] teria dito [ao Ubiratan] que se houvesse necessidade, poderia entrar.”

Segundo Almeida, estavam no Carandiru, quando ele chegou, Ubiratan Guimarães; o coordenador dos Estabelecimentos Penais de São Paulo, Hélio Nepomuceno; o agente penitenciário Moacir Santos, além do assessor de assuntos penitenciários da Secretaria de Segurança Pública, Antonio Fillardi Luiz. O desembargador Torres confirmou a presença das mesmas pessoas e imputou também a Guimarães o comando para a invasão do Pavilhão 9.

Ambos concordaram sobre os “excessos” na invasão. “A tropa entrou de forma desorganizada”, lembrou Almeida. Para Torres, “era necessário invadir, não o resultado que se tornou”, recordando as mortes dos 111, “é inegável que houve excessos”, afirmou.

A participação da Rondas Ostensiva Tobias de Aguiar (Rota) tem sido um dos pontos mais debatidos no julgamento. Para os dois desembargadores, não há registro de outros casos em que o agrupamento tenha sido chamado para entrar em um presídio. Torres lembrou que, no momento da invasão, o diretor Pedrosa quis evitar a entrada da polícia, mas o “coronel Ubiratan tinha autoridade para entrar.” Apesar de não questionar a invasão, o desembargador Torres insistiu no ineditismo da participação da Rota. “Eu nunca tinha visto, para mim foi novidade.”

Policiais feridos e armas

Caso consiga convencer os jurados de que os presos estavam armados, a advogada Ieda pode sustentar a tese de que teria havido um conflito entre detentos e policiais nas dependências do Pavilhão 9. Assim, ficaria patente, para a defesa, a necessidade do uso da força policial.

No dia do Massacre, policiais entregaram ao comando da PM 13 armas que estariam de posse dos presos. O perto Osvaldo Negrini Neto, ouvido ontem (15), afirmou que nenhum tiro partiu de dentro das celas e que os presos não portavam armas. Os desembargadores afirmaram que viram policiais com ferimentos de bala saindo do Pavilhão 9.



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