Boff: Papa Francisco e a Teologia da Libertação

Não importa que o papa Francisco não use a expressão “teologia da libertação”. O importante mesmo é que ele fala e age na forma de libertação

787 2

Não importa que o papa Francisco não use a expressão “teologia da libertação”. O importante mesmo é que ele fala e age na forma de libertação

Leonardo Boff  – texto publicado originalmente no Brasil de Fato.

Para Leonardo Boff, os conflitos entre o Papa Francisco e a presidenta da argentina se devem à opção dele pelos pobres – Foto EBC.

Muitos têm se perguntado que pelo fato de o atual papa Francisco provir da América Latina seja ele um adepto da teologia da libertação. Esta questão é  irrelevante. O importante não é ser da teologia da libertação, mas da libertação dos oprimidos, dos pobres e injustiçados. E isso ele o é com indubitável claridade.

Este, na verdade, sempre foi o propósito da teologia da libertação. Primeiramente vem a libertação concreta da fome, da miséria, da degradação moral e da ruptura com Deus. Esta realidade pertence aos bens do Reino de Deus e estava nos propósitos de Jesus. Depois, em segundo lugar, vem a reflexão sobre este dado real: em que medida aí se realiza antecipatoriamente o Reino de Deus e de que forma o cristianismo, com o potencial espiritual herdado de Jesus, pode colaborar, junto com outros grupos humanitários, nesta libertação necessária.

Esta reflexão posterior, chamada de teologia, pode existir ou não pois pode não haver pessoas que tenham condições de exercer esta tarefa. O decisivo é que o fato da libertação real ocorra. Mas sempre haverá espíritos atentos que ouvirão o grito do oprimido e da Terra devastada e que se perguntarão: com aquilo que aprendemos de Jesus, dos Apóstolos e da doutrina cristã de tantos séculos, como podemos dar a nossa contribuição ao processo de libertação? Foi o que realizou toda uma geração de cristãos, de cardeais a leigos e a leigas a partir dos anos 60 do século passado. Continua até os dias de hoje, pois os pobres não cessam de crescer e seu grito já se transformou num clamor.

Ora, o papa Francisco fez esta opção pelos pobres, viveu e vive pobremente em solidariedade a eles e o disse claramente numa de suas primeiras intervenções: “Como gostaria uma Igreja pobre para os pobres”. Neste sentido, o papa Francisco, está realizando a intuição primordial da Teologia da Libertação e secundando sua marca registrada: a opção preferencial pelos pobres, contra a pobreza e a favor da vida e da justiça.

Esta opção não é para ele apenas discurso mas opção de vida e de espiritualidade. Por causa dos pobres, tem se indisposto com a presidenta Cristina Kirchner pois cobrou de seu governo mais empenho político para a superação dos problemas sociais que, analiticamente se chamam desigualdades, eticamente, representam injustiças e teologicamente constituem um pecado social que afeta diretamente ao Deus vivo que biblicamente mostrou estar sempre do lado dos que menos vida têm e são injustiçados.

Em 1990, havia na Argentina 4% de pobres. Hoje, dada a voracidade do capital nacional e internacional, se elevam a 30%. Estes não são apenas números. Para uma pessoa sensível e espiritual como o bispo de Roma, Francisco, tal fato representa uma via-sacra de sofrimentos, lágrimas de crianças famintas e desespero de pais desempregados. Isso faz-me lembrar uma frase de Dostoiewski: “Todo o progresso do mundo não vale o choro de uma criança faminta.”

Esta pobreza, tem insistido com firmeza o papa Francisco: não se supera pela filantropia, mas por políticas públicas que devolvam dignidade aos oprimidos e os tornem cidadãos autônomos e participativos.

Não importa que o papa Francisco não use a expressão “teologia da libertação”. O importante mesmo é que ele fala e age na forma de libertação.

É até bom que o papa não se filie a nenhum tipo de teologia,  como a da libertação ou de qualquer outra. Seus dois antecessores assumiram certo tipo de  teologia que estava em suas cabeças e se apresentava como expressões do magistério papal. Em nome disso, se fizeram condenações de não poucos teólogos e teólogas.

Está comprovado historicamente que a categoria “magistério” atribuída aos papas é uma criação recente. Começou a ser empregada pelos papas Gregório XVI (1765-1846) e por Pio X (1835-1914) e se fez comum com Pio XII (1876-1958).  Antes o “magistério” era constituído pelos doutores em teologia e não pelos bispos e pelo papa. Estes são mestres da fé. Os teólogos são mestres da inteligência da fé. Portanto, aos bispos e papas não cabia fazer teologia: mas testemunhar oficialmente e garantir zelosamente a fé crista. Aos teólogos e teólogas cabia e cabe aprofundar este testemunho com os instrumentos intelectuais oferecidos pela cultura em presença. Quando papas se põem a fazer teologia, como ocorreu recentemente, não se sabe se falam como papas ou como teólogos. Cria-se grande confusão na Igreja; perde-se a liberdade de investigação e o diálogo com os vários saberes.

Graças a Deus que o papa Francisco explicitamente se apresenta como Pastor e não como Doutor e Teólogo mesmo que fosse da libertação. Assim é mais livre para falar a partir do Evangelho, de sua inteligência emocional e espiritual, com o coração aberto e sensível, em sintonia com o mundo hoje planetizado. Que o Papa deixe aos teólogos fazer teologia e ele presida a Igreja no amor e na esperança. Papa Francisco: coloque a teologia em tom menor para que a libertação ressoe em tom maior: consolação para os oprimidos e interpelação às consciências dos poderosos. Portanto, menos teologia e mais libertação.

Leonardo Boff é autor de Teologia do cativeiro e da libertação, Vozes 2013.

 



No artigo

2 comments

  1. GIL TEIXEIRA Advogado Responder

    Meus Amigos

    As palavras do Prof. Leonardo Boff dirigidas ao Papa Francisco adquirem particular importância vindas sobretudo dum expoente máximo da teologia da libertação. Com o devido respeito penso que toda a teologia não é concebível sem a liberdade, física e mental, do indivíduo. Como “declaração de interesses” esclareço que não estou ligado à religião católica, embora considere que esta não teve suficiente fé por ter aberto mão do criacionismo, em detrimento da heresia evolucionista da evolução das espécies propalada por Charles Darwin, e seus seguidores.

    Aliás em Fev. de 2002 expus esta minha opinião ao Papa João Paulo II, que mereceu uma resposta por parte do Monsenhor Pedro Lopes Quintana, e Secretário de Estado, Primeira Secção, Assuntos Gerais, de grande elegância, e compreensão.

    A meu ver o transcendente, é algo do interior da pessoa, e pode ser alcançado quer pela fé, quer pela inteligência. Penso que os dogmas são algo contra a obra divina, consubstanciada no ser humano. Também penso que o ateísmo, ou agnosticismo, ou cepticismo, é uma consequência do maniqueísmo religioso, e que serve os interesses de muitos alegados religiosos. Em rigor um ateu é um
    crente tão convicto como um beato, com a diferença que o primeiro crê no
    intranscendente e o segundo no transcendente. Ambos são obra divina e como tal não podem ser maus ou bons porque têm convicções diferentes.

    Na verdade Deus não pode existir ou inexistir em função das crenças dos mortais. A divindade é algo real, que existe, impalpável e invisível, e não é pertença de nenhuma religião ou de nenhum mortal, seja muito ou pouco crente na instranscendência, ou intranscendência.

    Tudo isto para dizer que estou um pouco com o Prof. Leonardo Boff quando este coloca a substância acima da forma, o conteúdo da teologia da libertação sobre o seu formalismo. Porém, sendo o Papa o autor duma encíclica dificilmente não será ou deixará de ser um teólogo.

    Aproveitando o ensejo, vamos todos trazer o criacionismo para o nosso dia-a-dia, e nos bancos das escolas, – o que não significa aderir à proveniência dos avoengos Eva e Adão -, e deitar no lixo a teoria da evolução das espécies de Charles Darwin?

    Aguardo a vossa adesão.

    Gil Teixeira
    Advogado
    Lisboa/Portugal
    http://www.oa.pt/Servicos/PesqAdvogados/pesquisa_adv.aspx?idc=31897&nome=Gil+Teixeira&ordenacao=0

    pt.linkedin.com/pub/gil-teixeira/34

    1. EDINALVO RAIMUNDO DE LIMA Responder

      Edinalvo Raimundo de Lima, professor.

      Parabenizo Leonardo Boff pela sua contribuição intelectual e material ao projeto de construção do Reino de Deus, onde a libertação de toda forma de pobreza, miséria, opressão e exproração é uma condição “sine qua non” para viver a plenitude do evangelho de Cristo. Sensibiliza-me a humildade de Boff, perante o nosso PAPA dos POBRES. Mais do que teologizar, precisamos libertar…Precisamos sair das teorias, das idéias , das racionalidades e compreender o mundo material construído pela ganância e pela usúria, soberba de uma sociedade capitalista, egoísta e individualista. Lutar contra o que está destruindo o projeto do Reino, que nada mais é que viver plenamente a fé em Cristo é se por a favor da Vida em plenitude, em favor da doutrina católica, em favor do PAPA e da Igreja (construtores do Reino). Nenhuma teologia leva o homem a lugar nenhum. Nenhuma teologia satisfaz as necessidades do homem. Produzir a libertação dos pobres e oprimidos é seguir fielmente o evangelho de Cristo, viver e morrer por Cristo e em Cristo. Este é o verdadeiro testemunho cristão.


x