A internet e as mudanças na música

Gustavo Anitelli, do Teatro Mágico, fala sobre conhecimento livre na rede; tema de debate no Conexões Globais

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Produtor do Teatro Mágico fala sobre conhecimento livre na rede.  Gustavo debate o tema no Conexões Globais, que acontece até o dia 25 de maio, na Casa de Cultura Mario Quintana, em Porto Alegre (RS). No site do evento, onde foi publicado o texto a seguir é possível assistir à transmissão ao vivo. 

Por Gustavo Anitelli

Iniciar este texto afirmando a importância da internet seria redundante. Hoje, a rede mundial se tornou ferramenta chave no mundo do trabalho, da cultura e nas nossas vidas pessoais. Organizamos compromissos, pesquisas acadêmicas, tarefas do trabalho, relacionamentos com a família e amigos e até namoramos pela rede. Já existem aqueles que anunciam a transformação do ser humano em ciborgue, ser vivo que se funde às novas tecnologias na ação que mais nos torna sociedade: a ação de se comunicar.

A banda Teatro Mágico libera suas músicas na internet (Foto: Divulgação)

No próximo dia 23, estou sendo convidado a debater o tema do conhecimento livre na rede, no Conexões Globais, que tem se tornado referência nacional no tema das novas tecnologias de comunicação e suas consequências no mundo de hoje. No entanto, depois de quase 20 anos de internet no Brasil e no mundo, qual é o balanço possível de se fazer: quais são as transformações em curso e quais são as mudanças que virão no mercado de trabalho, no uso de novas ferramentas digitais ou mesmo nas nossas vidas?

É evidente que seria impossível dar conta de todas essas questões neste artigo, em um debate ou até mesmo num amplo seminário recheado de boas e novas ideias, como o Conexões Globais. Partirei da minha experiência na música para relatar transformações que modificaram radicalmente nosso comportamento e o próprio funcionamento desse mercado.

Em casa venho de uma tradição de músicos na família, já era a terceira geração tentando sobreviver deste duro ofício. Meu irmão cantor e meu pai coruja passaram metade da década de 1990 correndo atrás de um contrato de gravadora, e a outra metade tentando sair dele. A situação era clara: poucas gravadoras e os meios de comunicação absolutamente verticalizados caracterizavam um cenário de domínio total dos engravatados do mercado sobre a produção e a difusão da música para as pessoas. Meu querido irmão, corajoso e com uma inocência utópica, só queria ter o direito de gravar suas canções da forma como tinha pensado originalmente, mas o dono da gravadora dizia que a moda era ska. Fernando, logicamente, não quis se adaptar e foi engavetado durante anos, sem poder produzir e difundir seu trabalho.

Essa história teve uma reviravolta nos anos 2000. Com a popularização da internet, a audiência não mais dependia das mídias tradicionais como a TV e o radio para orientar seu gosto musical – saíam os atravessadores da comunicação para uma conexão direta entre público e artista, e foi assim que construímos, passo a passo, a banda Teatro Mágico. Liberávamos nossa música na rede, distribuíamos nossos CDs nos shows e éramos chamados de loucos e inconsequentes pelos experientes produtores do mercado. Construímos uma relação direta com as pessoas e, hoje em dia, observamos o mesmo comportamento destes que nos criticavam – a diferença é que pensamos tudo isso 10 anos antes.

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Isso significa que o antigo mercado acabou, que a TV e o rádio não têm mais relevância para a construção de uma carreira musical? Os artistas de massa vão acabar?

A indústria da música, como foi uma das mais afetadas pelas novas tecnologias com a troca de arquivos pela rede, talvez possa nos oferecer pistas do que acontecerá com os outros mercados. Este é o exercício deste texto e de meu projeto de mestrado que será defendido em junho, Mercado da Música em Transição. Apesar de haver muita futurologia quando falamos em novas tecnologias, sou um sociólogo cético, não acredito em sorte e nem em superstição.

Vamos aos fatos: na atual sociedade em rede, vivenciamos uma época sem precedentes de troca de informação, nunca fomos tão bombardeados por notícias, campanhas publicitárias, e-mails , recados em redes de relacionamentos. É um fato incontestável que a informação é o bem mais valioso e ao mesmo tempo mais dinâmico e presente em nossas vidas. Neste sentido, aqueles que procuram se resguardar deste processo, não liberando seu conteúdo nas redes ou mesmo dificultando seu acesso, estão fora do jogo.

O que parece óbvio se tornou disputa na sociedade em que convergem mídias tradicionais com um formato verticalizado de um emissor (TV rádio) para muitos receptores, com a comunidade global de comunicação interativa de massa, como diria o teórico Manuel Castells: a sociedade da autocomunicação de massas.

Acredito que um dos feitos do Teatro Mágico foi justamente entender isso desde o início, liberando suas canções na internet e procurando dissipar sua música ao máximo. Conquistamos um público grande e até mesmo os veículos de comunicação de grande audiência passaram a nos procurar. Mas para ninguém dizer que somos exceção que confirma a regra, podemos observar que até mesmo os maiores fenômenos de vendas – Luan Santana, Michel Telló, entre outros – se apropriam da tática de disponibilizar seu conteúdo no YouTube e distribuir gratuitamente seus álbuns nos shows. Será que estamos todos errados?

A verdade é que o conhecimento livre, para além de benefício para a humanidade, também é ferramenta de construção de trabalho e lucro, e para alguns o lucro é grandioso. O conhecimento livre foi capaz de democratizar a cultura, gerando oportunidades de uma série de novos artistas se conectarem com seu público, muitas vezes sem produzir sucessos e hits que envolvam enormes quantias financeiras, mas empregando muita gente, e ajudando a diversificar a cultura.

Vamos nos lembrar também que foi a mesma rede mundial que, a partir de um vídeo no YouTube, fez um cantor sertanejo de sucesso no Brasil se transformar em artista mundial, simplesmente porque as pessoas acessaram sua música na internet (Michel Telló).

A internet e as mídias tradicionais de comunicação hoje coexistem, muitas vezes em conflito, e as gravadoras demonstram isso quando procuram leis que criminalizam a troca de arquivos na rede. Enquanto isso, artistas pequenos, médios e de grande porte se aproveitam de um cenário no qual há espaço para todos. É por isso que não precisamos fazer profecias para perceber que, apesar da derrocada das gravadoras, este é o momento dos artistas de nicho e também dos artistas de massa, a convergência é harmoniosa para o público e para os compositores, que ganham mais em direitos autorais, ou mesmo para os intérpretes que realizam mais shows. Na sociedade em rede, há lugar para todos, desde que difundam seu conteúdo de forma inteligente, da maneira mais simples, livre.

Gustavo Anitelli é sociólogo e produtor da banda Teatro Mágico

 

 



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