O preço da passagem e o protesto que parece não ter fim

Manifestantes pararam São Paulo. Milhares de pessoas caminharam por mais de cinco horas pelas principais vias da cidade e foram alvo de violência da PM

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Milhares de pessoas caminharam por mais de cinco horas pelas principais vias da cidade, foram alvo de violência da PM e pararam São Paulo

Por Igor Carvalho

Manifestante são alvos de chuva de bombas da PM (Foto: Mídia Ninja)

O terceiro protesto contra o aumento das passagens, em São Paulo, já caminhava para três horas de duração. Eram 19h50. Os 12 mil manifestantes, segundo os organizadores, que aceitavam pacificamente os destinos traçados pela Polícia Militar (PM) durante o ato, decidiram que queriam terminar a manifestação dentro do Terminal Parque Dom Pedro II. A PM impediu, da forma mais violenta possível.

Naquele momento os manifestantes já tinham marchado pelas principais vias de São Paulo mais de 8 quilômetros. Os ativistas partiram da praça dos Cliclistas, na avenida Paulista, atravessaram a rua da Consolação, entraram no túnel que dá acesso à avenida 23 de Maio e quando queriam seguir para a Radial Leste, aceitaram pacificamente a instrução da PM, que lhes pediu para ir pela avenida Liberdade. Do bairro oriental, os ativistas caminharam até a praça João Mendes e desceram a Rangel Pestana até o Terminal Parque Dom Pedro II, local do confronto.

O governador Geraldo Alckmin já havia dado uma declaração à Rádio França Internacional (RFI), em Paris, onde sinalizava sobre a postura que seria adotada por seu governo durante os protestos. O mandatário afirmou que bloquear vias é “caso de Polícia.” Uma das representantes do Movimento Passe Livre,  Mayara Vivian, respondeu à Alckmin. “O lado dele é claro, ele defende os empresários e fará de tudo para nos criminalizar, inclusive mandar uma polícia repressora e racista aqui.”

Mayara lembrou que Alckmin e o prefeito Fernando Haddad estão em viagem internacional no momento em que a cidade é palco de protestos. “Só o povo na rua fará o governo ceder. Eles foram para Paris e nos abandonaram aqui, mas vão saber o que está acontecendo em São Paulo.”

Parque Dom Pedro II

Foram dez minutos de tensão, que terminaram com dezenas de pessoas chorando, com a garganta fechada, os olhos irritados e dificuldades de respiração. Bombas de gás lacrimogêneo, tiros de borracha e spray de pimenta foram lançados contra os ativistas, que responderam com pedras e sacos de lixo. O ato poderia ter acabado ali, após a dispersão da multidão, mas não foi o que aconteceu. Os manifestantes surpreenderam quando voltaram a se organizar na Praça da Sé e decidiram seguir com o protesto até a avenida Paulista. Eram aproximadamente 2 mil pessoas, marchando pela rua Brigadeiro Luiz Antônio.

Conflito no Terminal Parque Dom Pedro II foi mais violento, mas não impediu que o protesto fosse retomado (Foto: Mídia Ninja)

Desde o princípio, ficou claro que o aparato policial, 400 homens, era “quase histérico”, como definiu o jornalista e professor da Universidade Federal do ABC, Gilberto Maringoni. Nos cordões de isolamento, provocações eram trocadas de ambos os lados. “Bichinha, se eu te pego sozinho te mato”, disse um PM para um dos manifestantes. Em seguida, o agente cobriu o nome e saiu para o meio dos demais agentes.

O ato retomou o vigor e seguiu pela avenida Paulista. Na frente do Masp, um manifestante foi preso. A população começou a gritar: “solta, solta, solta”. Alguns chegaram a correr atrás do jovem preso. A resposta da PM veio com balas de borracha e bombas. No vão livre do Masp, jovens encurralados se aglutinavam nas miras das armas de agentes, que atiravam.

A avenida Paulista foi fechada, nos dois sentidos. Um jovem, negro, sentado na calçada, parecia conformado. “Eu sou da periferia, sei como a polícia trata gente de bem”, afirmou Carlos Cerqueira.

Movimento popular

As cenas de guerra provocadas pela ação da Polícia Militar não arrefeceram o vigor político da manifestação, que ficou marcada pela presença democrática de vários setores e de classes distintas da população. “Apoio o movimento e acho que precisava estar aqui, temos um transporte incompatível com o preço que pago”, disse o professor de português Junior Vieira.

Para o operador de telemarketing Cláudio Tavares, que mora em Campo Limpo, “a passagem pesa demais no orçamento. Para ir em um cinema com minha namorada, no centro, gasto mais de R$ 20 de passagem.” O fotógrafo Wes Nunes explicou porque estava no ato: “Eu vim aqui para demonstrar aos governantes que o povo não está em casa vendo tudo acontecer.”

Fernando Ferrari, fundador do Sarau da Fundão, no Capão Redondo, zona sul da capital, também  ressaltou a relevância da manifestação. “Isso que está acontecendo aqui é muito importante.”

O Ministério Público agendou uma reunião com o Movimento Passe Livre para a próxima quarta-feira (12), para discutir sobre os protestos e a Secretaria Municipal de Transportes anunciou que enviará um representante ao encontro.

Presos e feridos

O dia terminou com 20 presos e três feridos, na manifestação. Todos os detidos foram encaminhados para a 78º DP (Jardins). A fiança foi fixada em R$ 20 mil. O trânsito na avenida Paulista só foi liberado após às 23h.  A PM informou que segundo sua contagem, haviam 5 mil pessoas no protesto.

Enquanto isso, na praça dos ciclistas, de onde partiu a marcha, sete manifestantes pulavam e repetiam o mantra cantado e alertado por milhares durante a noite. “Quinta vai ser maior”, lembrando a data do próximo protesto contra o aumento das passagens em São Paulo, dia 13, às 17h, na frente do Teatro Municipal. O que surpreende nas manifestações do Movimento Passe Livre é que ele parece não ter fim.

Foto de capa: Movimento Passe Livre



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8 comments

  1. Flávio Prieto Responder

    O Movimento Passe Livre é de um catarinense que vive em Florianópolis, pelo que li por aí. O sul do país virou um celeiro de organizações que promovem protestos em todo o país, como foi o caso da ocupação do prédio onde havia sido o museu do índio, no RJ, desativado há mais de 30 anos e relocalizado em Botafogo. A ação contra a desocupação era promovida por uma ong de Porto Alegre e a militância de partido no RJ trouxe índios de fora do estado para participarem, junto com alunos da UERJ e outras agremiações estudantis. Era um prédio abandonado há anos e não despertava interesse algum, até o anúncio da Copa. 20 centavos é a inflação do período (6,5%), mais nada. Protestar é válido quando o protesto é legítimo. No caso dos estudantes, boa parte já tem direito a gratuidade. A maior parte dos trabalhadores também recebe vale-transporte dos patrões. Existe um oportunismo político nessa parada. Isso deslegitima outros protestos que seriam de fato válidos e necessários.

  2. Maria Atalaia Responder

    ola, o proximo é quinta dia 13/06 e não 12/06, Dia dos Namorados, afinal, os que estão nas passeatas tem o direito de namorar também, num dia criado pelo capitalismo, para comprar e gastar, nesta o capitalismo venceu, não está somente na cobrança de passagens de ônibus, prova de que estas pessoas são realmente muito espertas…kkkkkk

  3. Marcia Chinelato Responder

    Esta tal Mayara devia ir estudar um pouco sobre DEMOCRACIA. Se ela não tem
    competência de manter o grupo com um “comando pacífico” (já que
    alega inocência total do “movimento” nos atos de vandalismo), não
    devia se meter a liderar nem a turminha do prédio. O patrimônio público desta
    cidade, tem dono! E somos todos nós,sendo assim, ela e sua
    “trupe” não têm o direito de direta ou indiretamente vilipendiar o
    que eu e todos os demais trabalhadores decentes desta cidade, pagamos para
    estar aí, bem ou mal funcionando. E eles deviam também estudar um pouco de
    economia, porque devem viver num outro planeta, se acham que alguma coisa nos dias de hoje podem ter TARIFA ZERO! Independente da polícia agir com
    truculência em várias ocasiões (e isso ninguém nega!), esta cidade já foi
    testemunha SIM de várias manifestações de protesto, em que a polícia inclusive
    dá respaldo, por mais que a maioria da população preferisse ver a av.
    paulista livre destas manifestações. A polícia não está aí para levar paulada e
    pedrada e ficar quieta. Esta gente devia divulgar os endereços onde vivem, se
    suas famílias tem negócios pela cidade e levar o protesto para estas ruas.
    Queria muito ver se iriam apedrejar o patrimônio de suas próprias famílias.
    Porque com certeza, boa parte desta “TCHURMA” tem família sim, tem
    propriedades sim! Poucos trabalhadores que suam a camisa das 8 as 18h e a noite tentam ir para a faculdade estudar, se metem a protestar com esta violência.
    Quem tem responsabilidade protesta na porta do palácio do governo ou da Camara dos Deputados, vereadores, etc etc. Parabéns ao prefeito que não aceita receber vândalos irresponsáveis.

  4. Rafael Guerra Responder

    Enquanto um grupo que foi dispersado pela PM no Pq. Dom Pedro subiu para a Paulista outro foi caçado pelas ruas do Glicério pela policia. Felizmente a ação da policia foi ridícula e não impediu que esse outro grupo conseguisse chegar a Paulista. Foram momentos de tensão, mas o grupo se mostrou muito unido diante da truculência e nos seus objetivos!! Ontem fiquei orgulhoso dessa juventude que é tão criticada pelo recalque dos “mais velhos”.

  5. Mário Barreto Responder

    importante verificar que a imprensa de um modo geral faz uma abordagem pejorativa e taxativa, os veículos de imprensa nacional são amarrados a opinião de uma unica e potente empresa, a rede Globo de televisão, acho o movimento importante e desde as diretas já não víamos uma manifestação não orquestrada pela mídia corrupta, parabéns a UNE que após anos de hibernação finalmente acordou.

  6. Yonissa Responder

    Bela reportagem, um pouco de lucidez e informação frente a enxurrada de preconceitos da grande mídia. Parabéns Igor!

  7. HeDC Responder

    Além das arbitrariedades a polícia, ela é TÃO INCOPETENTE que prendeu até jornalistas, e muitos que até atacaram pessoas estão livres. Vide também a onda de assaltos em SP/SP e outras situações lastimáveis que deveria agir mas nada!

  8. JEFERSON Responder

    A LIDERAÇA É MAYARA VIVIAN EU TENHO ÉLA NO FACEBOOK

    https://www.facebook.com/mayara.vivian.1?fref=ts


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