“O gás queimava os olhos, o nariz, a pele e a garganta”

Um depoimento emocionante de uma estudante de jornalismo da Faculdade Cásper Líbero a respeito da repressão policial de ontem (13)

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Um depoimento emocionante de uma estudante de jornalismo da Faculdade Cásper Líbero a respeito da repressão policial de ontem (13)

Por Camila Lafratta

Cheguei à concentração do movimento em frente ao Teatro Municipal às 17h30. E, cara, que coisa linda de se ver. Eu, que não ia em manifestação desde 2010, que precisei me dobrar e desdobrar para conseguir sair do trabalho a tempo, que há tempos questionava a validade do papel que escolhi desempenhar na minha vida, senti uma coisa inexplicável ao ver aquele mundaréu de gente cantando, gritando, pulando, aquela bateria, aquela vontade de ser um. Depois de quase uma hora, começamos a marchar. A polícia fala em cerca de 7 mil manifestantes, os movimentos de organização, em mais de 20 mil. Algumas pessoas menos comprometidas arriscaram números entre 16 e 18. Fico com elas. Ou seja, gente que não acabava mais.

(Foto publicada em http://feridosnoprotestosp.tumblr.com/)

Seguimos pelo centro da cidade cantando (quase) em uníssono. Das janelas, as pessoas batiam palmas, acenavam, incentivavam. Depois de cerca de uma hora, paramos por um bom tempo. Recomeçamos a andar e mais ou menos 10 minutos depois, ficou evidente que algo estava errado. Nós, que estávamos quase na frente, pudemos ver que a polícia tinha chegado. Já estava preocupada até então que alguém fizesse uma idiotice que os levasse a reagir com violência. Preocupação besta, já que o que aconteceu em seguida não teve nada de reação: foi ação bruta, calculista e sádica.

Com os primeiros estouros de bomba, as pessoas começaram a recuar, amedrontadas. Muito empurrão, muito grito, gente desesperada, outras gritando “Calma!”, “Não empurra!”,  “Devagar, gente!”. Fomos sendo empurrados, até que os mesmos barulhos se repetiram, agora vindo de trás. Quem tentava recuar, virava para a direita, tentando escapar pelas ruas menores. Mais barulho daquela direção. A multidão, agora em desespero, se voltou para a única opção possível, subindo a Praça Roosevelt. Que se tornou rapidamente um campo de batalha. Só que não, porque batalha pressupõe que os dois lados têm uma chance. Agarrei o braço de um amigo, nos perdemos de outros dois e saímos correndo sem nem olhar para onde. O gás queimava os olhos, o nariz, a pele e a garganta e não havia condições nem de raciocinar. Com uma mão enganchada no braço de meu amigo e a outra apertando um lenço com vinagre contra o rosto (vinagre, aliás, que as pessoas ofereciam aos gritos aos manifestantes que passavam correndo), corremos para um lado, o choque vinha vindo; para o outro, mureta bloqueando; subimos uma escada e, nesse momento, uma bomba caiu ao lado do meu pé. Não sei se foi de gás ou de efeito moral, só sei que, 4 horas depois, ainda estou ouvindo um apito no ouvido, junto ao cheiro de vinagre que parece que nunca vai sair do meu corpo.

Finalmente conseguimos escapar para uma viela. Quase comicamente, algumas pessoas corriam nas esteiras da vitrine de uma academia. Decidimos abandonar o movimento que se reagrupava para encontrar nossos amigos. Finalmente conseguimos ligar para eles, que disseram que estavam em um posto de gasolina a algumas ruas de distância, mas que não podiam sair, pois um camburão tinha acabado de chegar e a rua estava cercada. Ficaram escondidos num banheiro enquanto nós, já respirando melhor, começávamos a nos dar conta do que tinha acontecido.

Foi a violência mais gratuita que já sofri. Até agora, comprava o discurso de que todos os “conflitos” (palavra bonita) tinham sido provocados pelos manifestantes. Mas não foi isso que eu vi. O que eu vi foi um grupo enorme de pessoas que exerciam seu direito de ocupar as ruas de uma cidade que há muito vem implorando para ser ocupada. O que eu vi foram pessoas que acreditam que pode haver mais amor em SP, contanto que também haja força da população. O que eu vi foram pessoas que não fizeram absolutamente nada para provocar, nem um olhar torto, e foram recebidas com uma violência tão brutal que até agora não tenho palavras para descrever. Aquelas bombas não estavam lá para dispersar. Eles não permitiram que nós fugíssemos. Aquelas bombas foram calculadas para arrebanhar e ferir. Nunca antes eu tinha me sentido um animal pronto para o abate. Hoje eu me senti exatamente assim na Praça Roosevelt. Fica o meu desabafo e a esperança de que tudo isso não tenha sido por nada.



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