Quem encontrei no manifesto contra o aumento das tarifas

Um estudante de Jornalismo descreve o roteiro que percorreu na manifestação e as pessoas com quem cruzou no caminho

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Um estudante de Jornalismo descreve o roteiro que percorreu na manifestação e as pessoas com quem cruzou no caminho

Por Kaluan Bernardo, do Um blog para esse texto.

Nesta quinta-feira, 13, eu, Kaluan Bernardo,  fui para o 4º Manifesto Contra o Aumento das Tarifas. E essas foram as pessoas que encontrei:

 

18h30

5 policiais conversando na escada rolante. “Jovem de barba, maconheiro… esses estudantes da USP é que temos que pegar”, disse.

 

18h45

Galera discutindo o preço do ônibus enquanto andava tranquilamente pelo centro.

Pessoas no restaurante do Copan, comendo tranquilamente e vendo cena na TV em que vários policiais surravam um cara em um posto.

 

19h00


Jailson. Ele já tinha tomado 5 tiros de borracha. “Joguei pedra de volta e apanhei mais ainda, mas não quero ficar quieto”. Ele chorava pela perda da moto. “Joguei minha moto em cima deles. Eu uso ela todo dia, mas valeu a pena”, continuou.

Um pessoal dentro do apartamento, que xingava as pessoas na rua de vagabundas.

Um senhor com uns 70 anos. Xingava efusivamente os PMs de “filhos da puta” e dizia que “na ditadura não viu nada diferente”.

Um molequinho de uns 8 anos que corria no meio do lixo e estilhaços de bombas.

Um cara que queria jogar uma garrafa nos policiais. “Esperei minha vida inteira por isso”. As três garotas que o impediram. “Todos estão nervosos. Mas não precisa fazer isso”.

(Reprodução)

19h25

Um monte de gente dividida. Alguns desceram a Frei Caneca, outros subiram a Augusta. Ninguém estava depredando nada e mantinha distância dos policiais. A ideia era tentar reunir a multidão e fazer algo novamente.

As pessoas que subiam a Augusta calmamente, discutindo os protestos ou até falando sobre assuntos aleatórios. Nesse percurso, ouvi cerca de 6 bombas estourando por perto

 

20h00

A sequência de bombas.

A multidão. Parada, na Paulista, perto da Praça do Ciclista. Todos batiam palmas e apenas olhavam para a PM.

A PM. A Cavalaria. O Batalhão de Choque. Todos armados até os dentes, jogaram mais 3 bombas diretamente onde estavam as pessoas, paradas e quietas. Claramente um ato iniciado por eles, sem nenhum motivo mesmo.

A correria.


Um cara que foi jogar pedras nos policiais e as três pessoas que o impediram de fazer isso.

O Coreia, um antigo amigo de escola. “Eu nem estava no protesto. Estava aqui, parado, esperando meu ônibus e apanhei pra caralho. Me deram cacetadas”. Quando a polícia voltou, ele continuou sentado no ponto de ônibus respirando gás lacrimogênio. Não sei o que aconteceu depois.

 

20h15

As pessoas que andavam e gritavam “SEM, VIOLÊNCIA!”. Os gritos ecoaram pela Paulista inteira e todos foram em direção aos policiais apenas gritando a frase — sem fazer mais nada.

A PM, a Cavalaria, e o Batalhão de Choque que vinham dos dois lados, espremendo todos com suas bombas, escudos e cavalos.

E todos que ficaram e apanharam, simplesmente por estar “no lugar errado, na hora errada”

Os gritos: “FASCISTAS! EI POLICIA, VAI TOMAR NO CU! COVARDES!”

Os policiais que pararam a Paulista, estouraram bombas e quebraram vidraças de prédios e locais – tanto particulares quanto públicos.

 

20h30

Pessoas que jogavam os sacos de lixo no chão e os incendiavam para atrasar o avanço da Cavalaria.

 

21h00

O garçom do bar Violeta, que não queria deixar ninguém entrar. Após muito insistir, ele me deixou usar o banheiro.

As pessoas dentro do bar, com todas as janelas e portas fechadas. Algumas tomavam cerveja como se estivessem em outro mundo e outras discutiam o que acontecia ali do lado de fora.

O pessoal de uma mesa. Me chamaram para sentar com eles e contar o que acontecia. Lá também tinha um baiano, de Salvador, que participou da Manifestação e dizia que, em seus 38 anos, nunca viu tanta violência do governo.

 

21h15

Um cara que fumava ao meu lado, na calçada de esquina com a Augusta. Foi atropelado por um policial de moto. “Eu te vi lá em cima, filho da puta!” – dizia a “autoridade”, que acelerou pra cima do cara. O garoto não chegou a ser atropelado e não se machucou.

– Agora vocês atropelam civis aleatórios? – perguntei.

– Você também quer ser atropelado, rapaz?, retrucou outro policial.

– Por quê? Tá na Constituição? Eu to te desrespeitando?

O policial, que desceu da moto e veio para cima de mim com o cassetete. “Aproveita que você tá em um dia de sorte e que ainda dá tempo de correr”.

Vi minha versão reprimida por ter que escolher entre correr dessa “autoridade” ou apanhar dele e de seus colegas. Corri.

 

21h30

Mais um monte de gente na porta de suas casas discutindo. A palavra “ditadura” era a mais comum.

Os policiais ao longo da Paulista. Uma moça perguntou se estava seguro chegar ao metrô. Um dos PMs respondeu: “Se você não estiver protestando por nada, talvez esteja”.

 

21h45

Encontrei eu mesmo. Fui para a manifestação ver com meus olhos o que estava acontecendo.

Obviamente não confiava na mídia tradicional, mas estava cheio de receios dos discursos que li e do que “mídias alternativas” diziam.

Acreditava que, no geral, os protestos estavam bagunçados por não encontrar um foco certo. Ainda não vi uma proposta concreta para diminuir o preço dos ônibus. Do jeito que as coisas estavam acontecendo, acredito que: ou teríamos um rombo no orçamento público, ou São Paulo venderia a alma para o governo federal, ou os 20 centavos seriam, discretamente, roubados de nossos bolsos em outros impostos. Enfim…

Fui e vi que a questão agora é maior do que o preço do ônibus. Vi que a polícia bateu em muita gente sem motivo. De graça. Vi mesmo. Era tudo covardia. Bombas em quem estava sentado pedindo por “não-violência”.

É claro que estou falando de uma forma generalizada. Com certeza havia policiais que estavam lá e não concordavam com isso ou não agiam desse jeito. Alguns estavam apenas porque é sua profissão. Mas, como um todo, a cena policial é vergonhosa.

Após ouvir as palavras “Fascista” e “Ditadura” tantas vezes; ver que as pessoas apanharam por esperar um ônibus; e ver que rolou pouca depredação por parte dos manifestantes, (e muita por parte dos policiais), comprei para mim que a luta não é mais pelos 20 centavos. É pelo seu direito de liberdade, de manifestar. Pelo seu direito de ficar na rua, não tomar bomba, borracha e não temer a polícia – aquela que, muito teoricamente, existe para te proteger.

Espero que, se abaixarem os 20 centavos, as pessoas não se contentem e fiquem quietas. Porque o seu direito de se expressar em São Paulo está limitado. E você pode ser preso por “formação de quadrilha” por protestar. O preço do transporte público precisa ser discutido e precisamos encontrar uma solução concreta. Mas, agora está claro que tem muito mais a se defender.



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