O Estado contra o povo

Não tenho o que dizer, apenas divulgo e peço para que divulguem o relato desta moça anônima. E amanhã estarei em Pinheiros, junto com meu povo! “Talvez o relato falhe por...

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Não tenho o que dizer, apenas divulgo e peço para que divulguem o relato desta moça anônima. E amanhã estarei em Pinheiros, junto com meu povo!

“Talvez o relato falhe por escaparem-me detalhes como os horários e a sequência dos fatos, pois estava sozinha – e perdida de todos que esperava encontrar, ou surda pelo terror do que não esperava encontrar. O fato é que estava lá, levando minha presença como única forma possível de apoio à manifestação que me era possível naquele momento, acreditando como todos que dessa vez algo era diferente, algo era como não era há muito tempo. Durante parte desse “muito tempo”, restringi-me a manifestações em nome do respeito irrestrito à minha existência como mulher – e não, como se pode pensar, à minha “condição” de lésbica pois nada se condiciona a isso. Ontem, pensei estar na rua por outra causa – e percebi que a causa sempre será a mesma.Foi até curioso como num primeiro momento senti algo de libertário e igualitário na ideia de que sublimavam-se as diferenças entre os manifestantes para que a mesma bandeira fosse levantada por todos – e fiquei inebriada nessa inocência até ser lembrada de que o senso de solidariedade coletiva pode até parecer se esquecer das diferenças – mas a repressão não. Fui tratada como igual durante os tiros de bala de borracha, as bombas de gás, a correria, o desespero, o não saber para onde ir, a tentação de se arrepender por estar ali – mas não quando a repressão tomou forma e corpo de homem, de farda, sem identificação, aquela que tem forma mas não tem rosto, ainda que eu saiba que é um rosto do qual eu não vou me esquecer. No desespero e ineficiência da corrida, fui pega pela gola da camiseta do MPL que ganhei de presente de uma amiga militante – e que tive orgulho de usar. Não me lembro se houve abuso na revista. Mas nada foi encontrado – então a frase que ouvi foi “tira a blusa, vagabunda”. Eu teria começado a chorar de pânico ali, se o recurso não estivesse sendo gasto pela resposta fisiológica ao gás lacrimogêneo. Disse que não. Tomei um tapa na cara que me fez engasgar no soluço do choro que não saía. Fui segurada pelo rabo de cavalo e bem perto do meu ouvido ainda quente da agressão, ouvi “tira a blusa que vou levar de souvenir”. Disse que não mais uma vez, dessa vez pedindo por favor, e a resposta foi um puxão pela gola da camiseta até rasgá-la, e eu fiquei lá, de sutiã, diante de três (ou eram mais?) policiais, que passaram minha blusa de mão em mão dizendo procurar cheiro de vinagre mas “que delícia esse perfume, hein, vadia”? A impressão que tive era que o mundo inteiro não existia mais, nem o mundo, nem a causa, nem eu mesma, nem eles, só o medo e o vazio e o barulho de todo um universo que parecia se afastar; e fiquei em silêncio. O silêncio foi interrompido pelo zunido dentro da minha cabeça quanto o policial que acabara de jogar minha camiseta no chão passou o cassetete pelo meu sutiã, sorriu e disse que estava na dúvida se ia “querer só a camiseta de lembrança do nosso encontro”. Já ouvi dizer que nosso inconsciente não sabe processar a negativa, mas tudo que pude repetir, baixo e alto, foi “por favor, não”. Nessa hora, do vazio ao redor, uma pedra atingiu o ombro daquele homem, e os três correram para conter o vandalismo contra o tal aparelho do estado. Peguei minha camiseta e corri, nem sei pra onde, nem sei como, nem sei quem – eu acho que naquela hora eu nem sabia quem estava correndo, e nem do quê.

Curiosamente, poucos meses antes, eu estava naquele mesmo lugar, de sutiã, em protesto, exigindo ter maior propriedade sobre meu corpo e sobre as decisões a ele pertinentes. Eu acho que não consigo lembrar da sensação de outrora de orgulho por entender que a imagem do meu corpo não significa a exibição dele – não sou uma objeto de arte para ser exibido. Naquele momento, tudo que havia era o medo e a vergonha, essa que eu nem sei do que, e nem sei por quê. Talvez vergonha por ter acreditado que naquele momento limítrofe de barbárie, estavam desconstruídas também as convenções sociais – não só as que prezam pelo mínimo de respeito, ética e moral, mas também as que me oprimem como mulher -, e que pelo menos naquele momento meu alerta poderia estar voltado a algo que me competisse dissociado do meu gênero. Acho que o ferimento que doi mais nem passa perto de ser o ponto que restou na minha boca (que – veja só que poético – confunde o gosto de amargo que ficou nela desde então); é aquele irreversível, aquele que invalidou todo um sentido de existência do qual achei que tivesse me apropriado, aquele que manchou o orgulho que sempre tive de usar o meu corpo como mensagem de resistência. Foi uma marcha de vadia só. Ontem, tive vergonha por perceber que ainda sinto deixar que meu corpo seja usado contra mim por mais que brande o contrário – e medo por ver que externa e internamente, esta batalha está longe de acabar.

No entanto, nem tudo é decepção. Perceber-se quebrável, sensível e frágil rende um primeiro momento de sentimento de impotência, incompetência, inoperância… mas um segundo momento de fagulha de euforia, ânimo e esperança também, ao perceber que outros que amanheceram – como eu – quebrados, estão aos cacos se juntando e contando histórias e planejando como será o amanhã. Se vale a metáfora, somos vários vasos quebrados que agora desistiram de colar suas próprias peças numa imitação do que costumavam ser. Hoje somos um vitral. Hoje queremos ser um mosaico que junte os cacos que a repressão deixou para montar o nosso próprio afresco. Pra saber que dessa história, sim, todos fazemos parte – ainda que aos pedaços. E essa obra vale bem mais que 20 centavos.”



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