Um balanço dos protestos pela redução das tarifas

Debate na USP aponta caminhos sobre o futuro das manifestações, a crise dos partidos e a disputa entre esquerda e direita

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Debate na USP aponta caminhos sobre o futuro das manifestações, a crise dos partidos e a disputa entre esquerda e direita

Por Adriana Delorenzo

Os rumos que as manifestações pela redução da tarifa de transporte público tomaram, em especial em São Paulo, foi tema de debate na Faculdade de Filosofia da USP realizado hoje (21). Após a vitória do Movimento Passe Livre, que conseguiu a revogação dos aumentos nas passagens de ônibus, trem e metrô em São Paulo, restaram muitas dúvidas sobre as reivindicações que levaram milhares às ruas na noite de ontem, na capital paulista. Houve diversos atos de violência contra pessoas que portavam bandeiras ou vestiam camisetas de partidos políticos. Além disso, reivindicações distantes das defendidas pelo Passe Livre foram levadas ao protesto.

“O MPL é um movimento social apartidário, mas não antipartidário. Repudiamos os atos de violência direcionados a essas organizações durante a manifestação de hoje [quinta], da mesma maneira que repudiamos a violência policial. Desde os primeiros protestos, essas organizações tomaram parte na mobilização. Oportunismo é tentar excluí-las da luta que construímos juntos”, disse em nota o MPL.

Para o editor da Fórum, Renato Rovai, os partidos políticos estão sendo questionados em diversos lugares. Foi assim no Egito, Tunísia, Espanha, entre outros países. “Aqui o movimento nasceu com o aumento das passagens, mas a partir de agora os processos vão ter rede e ruas o tempo tudo”, afirmou. No entanto, para ele, o movimento nasceu de um jeito e o protesto de ontem mostrou que estava de outro. “Agora a disputa é de redes contra redes”, disse. “O que aconteceu ontem foi produto da organização de parte de um grupo que está disputando o futuro do país e viu oportunidade de expulsar qualquer pessoa de camiseta vermelha”, completou.

Segundo o professor de Filosofia da Unicamp Marcos Nobre, “este não é um movimento a favor nem contra qualquer governo é contra o sistema político como ele funciona”. Nobre acredita que o movimento tem dinâmicas diferentes em cada cidade. Para ele, é necessário exigir uma reforma política. “Temos que encontrar a nossa agenda para uma reforma política. Não podemos estigmatizar as pessoas, temos que politizar. Disputar esse jovem que não teve acesso à nenhuma outra experiência democrática antes.”

O Movimento Passe Livre existe desde 2005 e vem em diversas cidades fazendo a luta contra o aumento de tarifas. “Esse fenômeno não é novo, o que é novo é o que aconteceu em São Paulo, só em 2013”, explicou Pablo Ortellado, professor de Políticas Públicas da EACH-USP. “O sistema político foi surdo para incorporar essa bandeira nesses anos”, disse.

Ortellado conta que o protesto de quinta-feira, 13, violentamente reprimido pela polícia tinha como pauta o aumento das tarifas. “Na véspera daquela quinta os jornais paulistas autorizaram a polícia a tirar sangue dos manifestantes, algo como ‘faça o que quiserem que nós fecharemos os olhos’. Mas na segunda-feira seguinte houve uma grande e oquestrada mudança nos veículos.” Para Ortellado, houve um “gesto orquestrado de captar um movimento de esquerda para um novo Cansei. Se apropriaram de uma mobilização que era de outra natureza”.

O professor de Sociologia da Unicamp Ricardo Antunes relatou que ficou assustado com o que viu no protesto que participou em Campinas. “Se o MST estivesse na rua, seria hostilizado”, lamentou. “A imprensa está pautando que o inimigo são os partidos de esquerda. Que os vândalos são os partidos de esquerda.”

(Foto capa: Ninja)



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