A revolução pela rede

O ciberativista Ahmed Bahgat fala sobre o combate virtual que ocorreu antes da queda de Mubarak e conta como foi a ação dos defensores do ex-ditador na internet

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O ciberativista Ahmed Bahgat fala sobre o combate virtual que ocorreu antes da queda de Mubarak e conta como foi a ação dos defensores do ex-ditador na internet

Texto e fotos por Renato Rovai, do Cairo

Esta matéria faz parte da edição nº 96 da revista Fórum.

Ahmed Bahgat, 34 anos, formado em Direito, decidiu se dedicar ao ciberativismo e trabalha prestando assessorias a ONGs do Egito na área de comunicação pela internet. Antes e durante a revolução, ele foi um dos que estiveram à frente do combate virtual. Sim, no Egito, houve combate virtual. E Mubarak também contou com mercenários para agir nessa área.

Fórum – Como se construiu a manifestação do dia 25 de janeiro?
Ahmed Bahgat – A manifestação não surgiu do nada, mas de diferentes esforços feitos anteriormente, que demonstravam que as pessoas podiam ir para as ruas. Na mentalidade egípcia, temos muitas barreiras e restrições, e uma delas é falar sobre política. Essa era uma restrição básica no Egito. A segunda barreira era ir à rua para protestar. E, por fim, falar sobre o regime e mencionar o nome de Mubarak. Todos esses limites foram ultrapassados na construção do dia 25 de janeiro.
Lembro-me que há 10, 11 anos, quando estava na faculdade, fizemos um protesto, e o limite era muito claro: não podíamos mencionar o nome de Mubarak em nossas palavras de ordem; se mencionássemos o nome dele, seríamos atacados com bombas de gás. Era um limite claro para nós e para a polícia. Era proibido tocar no nome dele. Mas, desde 2005, com o Kifaya (Movimento Basta!), fomos ultrapassando aos poucos essas três fronteiras. Começamos a ir às ruas e protestar principalmente contra Mubarak e seu regime.

Fórum – E a internet, nessa história?
Bahgat – Ao mesmo tempo que aconteciam os protestos nas ruas, havia um movimento de infoativistas no Facebook, o “6 de abril” e o “We are all Khaled Said” (Somos todos Khaled Said). Said foi um jovem morto pela polícia e o “6 de abril” nasceu de uma manifestação pública, de trabalhadores. Alguns infoativistas fizeram o chamado desse movimento e aproveitam para criar um grupo no Facebook e convocar uma paralisação geral no dia 6 de abril. Esse é o maior movimento on-line, depois vem o “We are all Khaled Said”. Esses dois grupos de infoativistas chegaram a um consenso de que o dia 25 de janeiro seria de protesto contra a brutalidade policial.

Atrás, totem com as fotos dos heróis da revolução

Mas depois de 15 de janeiro, quando os tunisianos tiveram sucesso na derrubada de Ben Ali, os objetivos dos eventos mudaram. Em vez de ser apenas algo contra a violência policial, passou a ser contra o regime como um todo. O que aconteceu na Tunísia, para nós, foi um exemplo. Foi lindo, porque nunca pensamos nisso. Trabalho com política desde 1991 e, em toda literatura clássica sobre a revolução, nunca tínhamos visto que revoluções podiam ter uma data. E nós tivemos. Tivemos uma revolução com dia marcado e que aconteceu em 25 de janeiro.

Fórum – Uma revolução completamente diferente de outras…
Bahgat – Sim. Em toda a literatura você não encontra um caso como esse. E isso começou a se replicar em outros países árabes. Todos os movimentos tiveram suas datas, um dia para derrubar o regime.

Fórum – Você acha que isso se deve à internet?
Bahgat – Você pode ver a internet, o Facebook, como uma sociedade alternativa. Porque ali se encontram pessoas atuando com outra personalidade, como se tivessem dupla identidade mesmo. Na internet, há mais segurança para dizer o que se pensa, mesmo que alguns infoativistas tenham sido presos. Ainda assim, se você comparar o número de infoativistas presos com o número de militantes, representa muito pouco. Não é nada. O governo não conseguiu mostrar que estava controlando a informação. Eles bloquearam o uso geral, para usuários regulares, no Facebook, onde eles nem sabiam o que estava acontecendo, e isso lhes deu uma sensação de segurança.

Ao mesmo tempo eles contrataram pessoas para fazer contrainformação, gente que ficava ponderando a favor do regime, tentando criar contrapontos nos debates e estimulando grupos de apoio a Mubarak.

Como o Facebook, para nós, era o ponto de apoio, e não podíamos perdê-lo. Fizemos uma nova frente de luta, no Facebook, de combate à contrarrevolução. Assim como o partido nacional tinha um subcomitê trabalhando on-line, começamos um embate contra todos eles no Facebook, porque precisávamos proteger nosso ponto de apoio.

Fórum – Então também houve um combate no próprio espaço virtual. Eles contrataram pessoas para disputar esse espaço?
Bahgat – Sim, muitas, e usando procedimentos sujos. Para combater isso criamos um grupo de trabalho on-line, que expunha as mentiras, mostrávamos as contradições e às vezes até apontávamos pessoalmente alguns perfis que estavam no Facebook de um modo estranho. Eram novos perfis, com um número muito baixo de amigos e com fotos impessoais. Só de passarmos a expor esses pontos, as pessoas começaram a perceber o que eles estavam fazendo.

Quando atacávamos um desses grupos, eles por fim se calavam, pois cada vez que tentavam falar, cada vez que falavam, nos davam mais espaço para contra-argumentar. Então começou a ser melhor para eles ficarem calados. E por aí nós ganhamos.

Fizemos uma caçada on-line, porque com as mentiras deles passamos a ter espaço para travar a disputa. Criamos um grupo secreto, e nesses grupos cada tópico, cada post, era para combater as mentiras, uma a uma.  Começamos com o tópico “Mubarak está doente” e cada um de nós combinou como iria comentar, como iria responder a essa mensagem, de acordo com cada tipo de pessoa. Por exemplo, vindo de alguém interessado na ocorrência, como vou responder a essa mentira?

Havia mensagens defendendo e fortalecendo o exército, discutíamos como iríamos responder. Depois que definíamos a estratégia, convidávamos outras pessoas ativas para espalhar as mensagens. Por meio desse grupo secreto, fizemos a coletânea de todas essas respostas e espalhamos para todos os espaços. Se achávamos algum vídeo, algum documento interessante, postávamos nas respostas.

Não faltou criatividade para os manifestantes no Cairo

Fórum – Explique um pouco melhor a história desse grupo secreto.
Bahgat – Éramos amigos virtuais, nos conhecemos na internet na divulgação de protestos contra Mubarak. Aí criamos um grupo chamado “Protestos”. Depois que Mubarak caiu, promovemos um encontro desse grupo, pela primeira vez pessoalmente. Como havíamos usado ferramentas combinadas, começamos a analisar que tipo de problemas tínhamos e o que podíamos fazer para contornar esse problemas. E agora nos dividimos em seis grupos de trabalho, subcomitês. Um desses grupos está criando, agora, um website, um portal, com muita informação útil a respeito da revolução; um segundo grupo continua no Facebook; um terceiro grupo está direcionado para trabalhar com a mídia; um quarto grupo está criando vídeos, com a ideia de distribuí-los para outros grupos ou mesmo para canais de TV; há o quinto grupo de tradução e o último é um grupo que está trabalhando em networking com ONGs.

Fórum – Ou seja, ainda há muito o que fazer depois da queda de Mubarak, não?
Bahgat – O partido governamental ainda existe, estamos falando de não menos de 50 mil beneficiários diretos, apenas em comitês locais do partido. É um grande número de pessoas, espalhadas por todo o Egito. Então, não será fácil.

Fórum – E como foi a relação com a mídia comercial na revolução egípcia? Como foi o comportamento desses veículos?
Bahgat – A mídia governamental fazia matérias da Praça Tahrir apontando as câmeras para o ponto mais vazio, para dizer que não havia ninguém lá. Quanto aos canais, privados, que você deve saber, seus donos não ganham dinheiro apenas com trabalho honesto, mas por meio da relação que tinham com o regime. Eles tentavam construir um meio-termo. Faziam uma cobertura que não contava a história real, mas não exageravam tanto quanto a mídia do governo. Depois da queda de Mubarak, eles disseram que recebiam ordens diretas para dar ou sonegar informações como, por exemplo, não falar sobre o número de manifestantes.

Fórum – Houve algum momento especial em que o comportamento da mídia foi muito desonesto?
Bahgat – Sim, no dia 28, sexta-feira. Aquele dia foi muito duro, enfrentamos a polícia. E aí teve o episódio de o governo soltar mais de seis mil presos das cadeias e a mídia comercial, em cooperação com o governo, contratou atores para fazer supostas reportagens com gente gritando e chorando, dizendo “os revolucionários estão aqui, eles violentaram minha filha”, coisas assim. Tentaram espalhar o medo entre as pessoas.

Fórum – Como vocês agiram naquele dia?
Bahgat – Foi difícil porque não tinha internet, eles derrubaram a internet. Um amigo meu viajou, nesse dia, da Jordânia para usar o telefone de lá. De lá ele me ligava o tempo todo. E a gente passava informações para que ele atualizasse nossas páginas na internet.

Fórum – Mas essa informação só poderia ser vista em outros países, já que aqui vocês estavam sem conexão, certo?
Bahgat – Sim, era informação para outros países, porque no Egito estávamos num blecaute. Mas era algo importante a se fazer, expor o que estava se passando aqui. Mas no sábado à noite, eles não cortaram só a internet, também cortaram também os celulares.

Fórum – Sobrou só o telefone tradicional?
Bahgat – Sim, mas na rua, a maioria de nós dependia de celular. Eu sequer tenho os telefones fixos dos meus conhecidos. Não usamos isso há anos. Mas, ao mesmo tempo, nos tornamos mais conectados no mundo real. Isso foi sábado à noite, quando soubemos que eles haviam libertado os prisioneiros. Organizamos esquemas de segurança, e eu mesmo me tornei um dos milicianos para cuidar da segurança local. Nessa noite, pegamos três desses criminosos, um deles trazia duas armas nas calças. Vou lhe dizer, não sei como tivemos a sorte de ele não ter uma delas em mãos quando o pegamos. Foi questão de segundos, se ele tivesse nos notado uns 100 metros antes, estaríamos no fim da linha, porque ele portava duas armas carregadas.

Fórum – Como é possível combater essa ação dos governos de derrubar a internet em meio a esse tipo de combate?
Bahgat – Alguns geeks nos disseram que existe uma ferramenta para conectar a internet por meio de satélite. Com uma conexão dessas, poderíamos criar uma rede entre algumas ONGs, uma rede independente de governos. Quando cortaram a internet, pensamos nessa solução, custaria cerca de 10 mil dólares. Até conseguimos coletar o dinheiro, mas não tivemos o tempo para trazer a tecnologia de fora. Seria arriscado para conseguir trazer esse equipamento para cá, se nos pegassem, poderia ser considerado contrabando. Mas essa é a única alternativa para fugir do controle governamental sobre a internet, a conexão via satélite.

Fórum – Uma última pergunta, qual sua opinião sobre Wael Ghonim, gerente do Google que criou a “Somos todos Khaled Said”?
Bahgat – Ele criou um grupo, mas não é o dono do grupo. Tem um monte de gente conversando e postando coisas. Não é fruto do esforço dele, é o trabalho das pessoas. É bobagem essa história de que a ideia dos protestos de 25 de janeiro foi dele. Mesmo que ele tenha sugerido, quando você tem uma ideia e a espalha, ela não é mais sua. Ninguém é dono da ideia de uma revolução, mesmo que você a tenha tido. Se você espalhou para o mundo, não é mais sua. Quem faz isso pensa com base na lógica do copyright. Não dá para pensar o mundo desse jeito.

A questão é: o que você fez para contribuir para a revolução? Porque uma semana atrás, no último dia de protestos, ele perguntou se a turma dele iria participar. E ele proibiu a postagem de links no grupo dele. Não podíamos postar nenhum link com informações sobre o último dia de protestos. Então, não me fale sobre sua ideia, fale-me sobre sua contribuição para o que estamos fazendo agora. Você vai tirar fotos? Vai ficar sentando na frente da TV assistindo. Essa é sua contribuição? OK. Na verdade o Wael é um liberal. Por exemplo, agora ele fica dizendo, “agora acabou, está tudo bem, vamos voltar para casa. Somos vitoriosos”. Isso é bobagem. Não muda nada.

Além disso, quando o exército o chamou como líder para sentar e conversar com ele, o que ele trouxe para nos apresentar? Nada. Saiu daquela reunião sem nada. Era muito despreparado para reivindicar algo ou pressionar o exército.  F

Leia também na edição nº 96 da Fórum:
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