Reginaldo Nasser sobre o Egito: “Processo revolucionário de 2011 ainda está em curso”

Para professor da PUC, manifestações devem vir à tona novamente contra o próximo governo

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Para professor de Relações Internacionais da PUC, “manifestações virão à tona novamente contra o próximo governo, se ele for do mesmo perfil que o anterior, e é provável que seja”

Por Igor Carvalho

Reginaldo Nasser rechaça a possibilidade de influência religiosa nas manifestações (Foto: Flickr/FdE)

Nesta sexta-feira (05), 17 pessoas morreram após confrontos entre manifestantes contrários e favoráveis ao ex-presidente Mohammed Morsi, no Cairo. Os conflitos aconteceram na praça Tahir. Houve diversos disparos de arma de fogo e pedras foram atiradas por ambos os lados.

O presidente interino do Egito, Adli Mahmud Mansour, assinou um decreto, nesta sexta-feira, que dissolve o Parlamento egípcio. Em resposta, o líder da Irmandade Muçulmana, Mohamed Badie, reapareceu e pediu a imediata volta de Morsi ao poder.

Peça-chave dos EUA no Oriente Médio, o Egito recebe US$ 1,3 bilhão do governo de Barack Obama, que reluta em classificar a manobra como “golpe”, pois assim, obedecendo a lei americana, teria que cortar o subsídio. 

Para o professor de Relações Internacionais da PUC-SP, Reginaldo Nasser, o novo levante egípcio faz parte de um mesmo processo, que teve início em janeiro de 2011, com a queda do ex-ditador Hosni Mubarak. 

Nasser aproveitou para rechaçar a possibilidade de influência religiosa nas manifestações. “Não é isso, como diria o Nelson Rodrigues é o ‘óbvio ululante’ que não seja isso. Quem são as milhões de pessoas que estavam na rua contra o governo? São muçulmanos. Quer dizer, então não é religião.”

Confira a entrevista na íntegra:

Revista Fórum – É possível fazer uma relação entre as manifestações de 2011 e 2013?
Reginaldo Nasser –
São dois modos de ver o momento atual, o primeiro parte do que aconteceu agora, ou seja, a deposição do presidente pelos militares e as mobilizações de rua. A outra, que eu acredito ser mais apropriada, apontando para uma análise de que tudo isso faz parte de um momento só. Ou seja, começou um processo revolucionário, em janeiro de 2011, e ele está em seu curso, ainda. Eu acredito que vamos ter várias etapas, com avanços e recuos. Neste momento, essas duas variáveis estão vindo juntas, a da reação, que é dos militares, e a da mobilização popular, que é levar a revolução adiante. Por mais paradoxal que seja, elas se uniram nesse momento. Agora, ao que tudo indica, essas manifestações virão à tona novamente contra o próximo governo, se ele for do mesmo perfil que o anterior e é muito provável que seja. Tenho visto vários jornais colocando o problema como “religioso secular”, não é isso, como diria o Nelson Rodrigues é o ‘óbvio ululante’ que não seja isso. Quem são as milhões de pessoas que estavam na rua contra o governo? São muçulmanos. Quer dizer, então não é religião. O Mursi e essa elite da  Irmandade Muçulmana fazem parte de uma elite maior, que rompeu o consenso temporário entre eles. Para o Mursi entrar, houve um pacto, ele foi aceito pelos militares, não podemos esquecer que ele faz parte de uma elite econômica e política do Egito.

Fórum – A Irmandade Muçulmana sai desgastada depois da deposição de Mursi?
Nasser – Ao que tudo indica a Irmandade não é tão poderosa como era antes, mas ela não é desprezível. Ela ainda é uma organização que perpassa todo o Oriente Médio, entenda bem, é uma “organização”, coisa que as organizações do outro lado são muito eficazes para derrubar governo, mas não mostraram ainda nenhum tipo de representação concreta. A Irmandade nunca esteve à frente das mobilizações que derrubaram Mubarak, mas chegaram ao poder como consequência dessas mobilizações, porque é uma organização, ela existe desde 1930, não é de uma hora para outra que irá desaparecer. Ela sobreviveu durante vários governos militares, brigando com esses governos, do (Gamal Abdel) Nasser ao Mubarak, é uma organização poderosa, não tenho dúvida nenhuma. O novo são esses grupos populares, que ainda não têm organização e nem representatividade política, até porque quem é o interlocutor deles que está lá com os militares? Não tem. 

Fórum – E como posicionar o Tamarod nesse mapa político do Egito?
Nasser – Não podemos chamá-los de “organização”, é um grupo de mobilização, que nasceu agora e tem esse caráter do Egito, uma população que se mobiliza muito rápido, mas que não tem representação. Não estou dizendo que deva ter representação, mas é fato que eles não têm.

Fórum – Como o senhor imagina que vai ser a relação com Israel?
Nasser – Acho que não haverá alteração. No que se refere à política externa do Egito, ela vai seguir o que ficou definido com a queda do Mubarak, ou seja, não acredito que será um aliado incondicional de Israel e EUA, mas não pelas pessoas que estarão lá dirigindo, mas pela pressão popular, a causa palestina é muito popular no Egito, como no mundo árabe inteiro. 

Fórum – Os EUA relutam em usar a palavra “golpe”. Como o senhor acha que se portarão os norte-americanos diante da atual situação egípcia?
Nasser – Acho que eles não vão fazer nada. Veja bem, de janeiro de 2011 até agora, nada foi alterado, no que se refere aos interesses americanos. Com a Irmandade ou entrando algum outro grupo da elite econômica, que tem uma posição ideológica neoliberal, não podemos esquecer disso, os interesses americanos não serão contrariados. Eu me lembro muito bem de uma cena, depois do Mursi eleito, um membro da Irmandade segurando, junto o John Kerry e o McCain, segurando o martelinho da Bolsa de Valores no Cairo. Então, a gente não pode esquecer que isso é um dissenso entre elites, e os EUA não têm nada com isso.



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