Torturra: mídia mártir e o espírito ninja

Bruno Torturra responde as críticas feitas pelo jornalista Arthur Rodriguez, do jornal O Estado de S.Paulo, sobre as coberturas da Mídia Ninja

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Bruno Torturra responde as críticas feitas pelo jornalista Arthur Rodriguez, do jornal O Estado de S.Paulo, sobre as coberturas da Mídia Ninja

Por Bruno Torturra 

No fim de semana, Artur Rodrigues, um jornalista do Estado de S. Paulo escreveu o seguinte parágrafo se referindo à cobertura da Mídia Ninja:

“Ninja é o cara que acorda de madrugada pra falar com mulher de preso na fila da visita, o que abre cem bueiros com pé de cabra para ver se estão limpos, o que pega 10 viroses por ano para ver se tem maca nos corredores dos hospitais, o que faz 30 ligações por dia para descobrir que um político está usando avião da FAB para viagem particular, o que toma tiro no olho para fazer a imagem, o que passa dias recontando os dados de homicídios e desmascarar a maquiagem do poder público, o que é obrigado a ir no enterro de uma criança assassinada. Ninja é, acima de tudo, o cara que ganha piso de 3 paus para fazer tudo isso. Filmar tudo com o celular e transmitir na internet, sem ganhar nada por isso, é brincadeira”

Só faltou dizer que para ser Ninja de verdade precisa ter diploma… Mas não é o caso de zombar do ataque desqualificador do colega. Apenas lê-lo com mais atenção.

Ele parece não saber que antes de ser uma metáfora, Ninja é uma sigla. Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação. Sobre a primeira parte, a tal independencia narrativa, um repórter do Estadão não pode se gabar. Entendo e valorizo de verdade o apuro, a dedicação as virozes que ele exalta contrair. Mas, em geral, o material uma vez editado, contextualizado por seus publishers, costuma servir para reforçar uma versão de sociedade contrária aos valores humanistas que nosso herói ostenta em seu post.

Generalizo? Um pouco. Mas nem tanto… que liberdade Artur tem para questionar, publicamente, o editorial de seu veículo que pedia sangue, violência policial contra os manifestantes naquela fatídica quinta 13, quando jornalistas como ele (Se ele estivesse na rua. Não sei se estava) apanharam como meros paulistanos indignados? Poderá o ímpeto perdigueiro de Artur investigar a fundo as contas e falcatruas de aliados políticos de seus empregadores? Poderá Artur apresentar ao público, depois de 30 telefonemas, o real teor das reformas das leis de meios de comunicação que vêm sendo propostas há anos?

Sobre a segunda parte, o Jornalismo… Não há dúvida. Seu ofício merece esse nome. Investigar, apurar, ter paciência e saúde para honrar a tarefa de ser um olho público. Mas então fica a dica para Artur: faça esse trabalho antes de avacalhar o trabalho da Mídia Ninja. Ou seja: dê um de seus tantos telefonemas e descubra que horas estamos acordando. Quantas horas estamos dormindo. Como estamos financiando nosso trabalho. Os riscos e as reais agressões que viemos sofrendo nas últimas semanas. E quais as motivações, fora dinheiro, estão nos movendo para as ruas. O próprio jornal onde ele trabalha tem jornalista desse tipo, aliás. No domingo passado, uma matéria de contracapa do caderno… Aliás… buscou conhecer mais sobre nossa rede.

Sobre a terceira parte da sigla, a Ação, não vou elaborar muito e me ater a um trecho particularmente triste no comentário do colega. “Ninja é, acima de tudo, o cara que ganha piso de 3 paus para fazer tudo isso. Filmar tudo com o celular e transmitir na internet, sem ganhar nada por isso, é brincadeira.”

Seu sentimento de auto-importância, ainda comum entre sobreviventes de redações (Ficaralho, alguém?) o faz encarar a falta de remuneração como um demérito. E a baixa remuneração como prova de que o Ninja, no fundo, é ele.

Isso, para mim, encerra de fato a discussão. Não é que ele se conforma… mas exalta a conformação a um mercado precarizado, injusto e que não dá o devido valor a quem o executa na base. Sem perceber, vira um escudo humano para críticas ao modelo corporativo e comercial. O mesmo modelo falido que, mês a mês, demite mais e mais de seus colegas. E que confunde, em um abraço de afogado, jornal com jornalismo.

Por fim, quero dizer que concordaria com 100% do que disse Artur. Desde que ele trocasse a palavra “Ninja” por “Mártir”.

Nada contra. Há um carma, uma vocação, até um papel importante para os que enxergam no martírio uma virtude. Mas não é pelo sacrifício (sempre presente) de nosso trabalho que saímos de casa. É pela parte empolgante, pela aventura e pela felicidade de tentar criar uma forma nova de fazer jornalismo. E de, inclusive, buscar formas de financiar jornalismo sem patrocínio e anúncios privados ou públicos. Nas próximas semanas, inclusive, vamos apresentar um site e 4 modelos diferentes para tentar estreitar a ponte de recursos e ideias entre produtores e consumidores de informação. Sem intermediários.

Se há colegas, como Artur, que acham isso uma brincadeira, sem problemas. Não me ofende nem um pouco. Mas que eles tenham então a humildade de admitir que muita gente está fazendo brincando o que muitos não estão conseguindo profissionalmente.

Em frente

(Imagem de capa: Reprodução / Facebook)



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