Põe na conta do papa

A visita do papa, Tropa de Elite e as discussões sobre a redução da maioridade penal

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A visita do papa, Tropa de Elite e as discussões sobre a redução da maioridade penal

Por Edergenio Vieira 

O primeiro filme “Tropa de Elite”, dirigido pelo magnífico José Padilha, deu uma grande contribuição para o cinema e o povo brasileiro. A película produziu inúmeras frases de efeitos, a mais clássica sem dúvida foi o “Pede pra sair”.

Contudo, tem uma frase que, se olharmos mais detidamente, pode passar (com o perdão da redundância) despercebida. O intrépido Capitão Nascimento, em sua crise existencial, é totalmente contra a limpeza étnica a ser feita por ocasião da vinda do Papa ao Brasil (nossa que bonzinho!). E num dos momentos antológicos do filme, após uma sessão de tortura, lógico que patrocinada pelo eEstado, um soldado do Bope pergunta ao Capitão Nascimento: “Fazer o quê com o verme aqui Capitão” (sic)? No que, prontamente, ele responde: BOTA NA CONTA DO PAPA.

Após a renúncia do Papa Bento XVI, pela primeira vez na história da milenar Igreja Católica temos um pontífice sul-americano e ele cumprirá os mesmos compromissos dos outros papas. Francisco virá ao Brasil. Será a grande estrela – afinal, o papa também tem que ser pop – da Jornada Mundial da Juventude.

Chico, com o perdão da intimidade, virá ao Brasil participar de um encontro que reunirá jovens do mundo todo, e não poderia vir num momento melhor. Quando uma vez mais, no calor que as ruas emanaram em junho, com os “memes” e com as veleidades das pautas que se apresentaram, discute-se a redução da maioridade penal. Isto acontece muito por conta da morte do jovem Victor Hugo Deppman, em São Paulo, no mês de abril. O assassino? Outro jovem, que estava a três dias de completar 18 anos.

A mídia tratou o episódio da forma que sempre trata. Um espetáculo a ser explorado, que lhe rendera uma boa audiência. Um espetáculo digno de todos os mecanismos que pode oferecer: televisionamento das operações, se possível do corpo da vítima, dos julgamentos, e isso passa a ser um verdadeiro show, um instrumento de faturamento e Ibope.

E nesse diapasão perde-se o foco do verdadeiro debate a ser feito. Ao contrário do que pode parecer, e o discurso desse que vos escreve não é de um radicalóide de direitos humanos, o jovem é mais vítima do que algoz no país.

De acordo com o Mapa da Violência 2012: Crianças e Adolescentes do Brasil, com sua taxa de 13 homicídios para cada 100 mil crianças e adolescentes, os brasileiros ostentam um trágico 4° lugar entre 99 países do mundo em assassinatos de pessoas entre 1 e 19 anos, ficando atrás somente de El Salvador, Venezuela e Trinidad e Tobago. As taxas de homicídios nessa faixa etária cresceram 346% entre 1980 e 2010, com 176.044 vítimas no período.

Em 2010, foram 8.686 crianças e jovens assassinados, uma média de 24 por dia. De acordo com dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), do Ministério da Saúde, responsável pela notificação de casos de violência doméstica e sexual, em 2011 foram registrados 39.281 atendimentos de pessoas de pessoas na faixa etária entre 1 e 19 anos, representando 40% do total de atendimentos computados pelo sistema.

Mas, como no Filme “Tropa de Elite”, não é qualquer jovem a principal vítima da violência no Brasil. Estudo realizado pelo Centro Brasileiro de Estudos Latino-Americanos e pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais – Flacso Brasil, intitulado Mapa da Violência 2012: A cor dos homicídios no Brasil, publicado em dezembro de 2012, mostra que, entre 2002 e 2010, o número de homicídios na população jovem (considerada a faixa etária entre 12 e 21 anos) caiu 33% entre brancos e entre os negros cresceu 23, 4%. No período, morreram 159.543 jovens negros vítimas de homicídios, e 70.725 jovens.

E ainda “eles” querem diminuir a maioridade penal, como forma de reduzir a criminalidade? Isso pode agravar ainda mais o problema, excluindo muitos que quase já não têm direitos.

Fica evidenciado que a vitimização de crianças e adolescentes, especialmente negros e pobres, não chama tanta atenção da mídia, tampouco do poder público. E nem minha, porque não é da minha conta, e nem do Papa, porque esta só passagem e precisa conter a sangria de fiés que sua igreja perde a cada ano. A culpa talvez seja do “Abreu” e se ele não liga, nem eu. Mas por via das dúvidas, para não sermos omissos, passamos a palavra às Autoridades.

(Imagem de capa: Christoph Wagener) 



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1 comment

  1. Danianne Marinho E Silva Responder

    A visita do Papa é tratada como algo espetaculoso, recheada de ufanismos, quando deveríamos aproveitar para refletir no que estamos fazendo com nossos jovens, o que estamos construindo para o futuro deles e também no que a Igreja tem feito nesse sentido! Ótima reflexão esta do autor, traçando um paralelo com o filme que, em certa parte, prova que tratamos nossos jovens como réus, enquanto em muitos casos são na verdade nossas vítimas sociais!


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